A Crise do Yakisoba

Fanfic por Ana-chan



Os olhos de Shippo não se cansavam de acompanhar o vai e vem de Kagome pela vila. Já tinha perdido a conta de quantas vezes a moça já tinha passado pra lá e pra cá, do Poço-Comedor-de-Ossos para a vila, fazendo sabe-se lá o que. E não adiantava perguntar, ela estava as voltas com algo muito importante pelo jeito. Talvez fosse algum feitiço para ajudá-los na busca dos fragmentos da Shinkon no Tama, aqueles famigerados caquinhos. Ou talvez não, afinal, o que ela entendia de feitiços? Mesmo assim era frustante. Depois de alguns dias separados, bem que Kagome podia lhe dar um pouco de atenção.

Ele bocejou, sustentando o rosto com uma das mãos. Olhou de lado. Tinha que arrumar algo pra fazer e logo. Todos na vila estavam ocupados com alguma coisa. Até mesmo Sango e Miroku haviam encontrado com o que se entreter. Inuyasha estava dormindo, no alto de uma árvore. Que tédio!

Vagou por alguns instantes, decidido a não interromper ou incomodar ninguém, mas sua determinação não durou muito. Chegou perto da árvore onde o meio-youkai estava, e subiu vagarosamente. Quem sabe ele não poderia convencer Kagome a parar com aquela coisa que estava fazendo e ir nadar no rio, ou passear por aí?

Respirou fundo.

É, não custava tentar.
 
 
 
 

Kagome respirou fundo, secando o suor de sua testa com as costas da mão. Como era difícil cozinhar daquele jeito, só com uma tela de metal que havia trazido de casa. Se não estivesse tão determinada a fazer aquele almoço, com certeza já teria desistido. Teria sido mais fácil trazer tudo pronto de casa, só que agora era tarde pra lamentar. De qualquer modo, já estava quase pronto, o melhor yakisoba que poderia preparar naquelas condições, fora os acompanhamentos, tudo conforme havia planejado ou quase.  Iria ser uma surpresa e tanto. Só queria ver a cara de Inuyasha quando visse aquilo. Com certeza aquele grosseiro nunca havia comido nada tão bom. Ai dele se engolisse tudo de uma vez sem elogiar.

Começou a arrumar a mesa. Tinha que estar tudo perfeito. Kaede a olhava a distância, observando um pouco intrigada todos aqueles preparativos. Com certeza era outra que não estava entendendo nada. Na verdade, nem a própria Kagome sabia a razão de ter metido na cabeça o tal almoço. Mas já que tinha começado, iria até o fim.

Cerca de quatro horas depois, Kagome pôde apreciar sobre a mesa o resultado do seu esforço. Pratos deliciosos, cheirando bem e que certamente iriam arrancar elogios entusiasmados de todos os seus amigos.

Estava cansada, mas satisfeita.

“É... parece muito bom,” afirmou Kaede ao se sentar.

“Nossa!” exclamou Miroku “Foi você que fez tudo isso? Ah, isso é muito bom! Sabe, Kagome, aquela minha proposta ainda está de pé. Gosto de idéia de ter filhos bem alimentados!”

“Hmpf...” Sango olhou para o teto, passando direto pelo monge “Parabéns, Kagome! Está mesmo parecendo ótimo!”

Kagome sorriu, orgulhosa.

“Que nada!! É só uma refeição rápida! Se ao menos aqui tivesse um microondas...”

Sabia que tinha feito um bom trabalho. Agora só faltavam Inuyasha e Shippo-chan. Onde será que  aqueles dois teriam se metido? Só faltava a comida esfriar por causa deles!

“Bem, fico feliz de saber que no seu tempo as moças ainda se preocupam em saber fazer uma boa refeição,” ponderou Kaede, ciente de onde pretendia chegar “Isso é bom para arrumar marido. E esse prato estranho cheira mesmo bem.... e também os...”

“Volte aqui, peste!!” veio o grito familiar de fora da casa, se aproximando de modo assustador e estridente.

“Ah!!! Kagomeee!!” O pequeno kitsune pulou como uma rã sobre a garota, buscando abrigo de seu perseguidor.

“Ah...” Kagome mal teve tempo de atinar com o que acontecia a sua volta. Só viu quando um vento vestido de vermelho voou sobre a mesa bem arrumada, derrubando as garrafas e pisoteando uma travessa de sushi. Shippo soltou um grito agudo, desses de perfurar os tímpanos e pulou para o chão, correndo em círculos ao redor da mesa, com Inuyasha correndo atrás.

Ela petrificou... Todo aquela manhã de trabalho árduo, de subir e descer por aquele poço carregando os ingredientes, as travessas, os pratos... Tudo aquilo para nada. Mas ainda tinha algo que ela podia fazer.

“Inuyasha! Sentaaaaaaaaa!”

E ele se espatifou sobre o que sobrara dos quitutes.

“Oi!! Ficou maluca, Kagome??” disse o inocente hanyou assim que conseguiu se levantar “Me fez quebrar a mesa, e agora eu tô todo lambuzado dessa gosma mal-cheirosa...” resmungou batendo no kimono vermelho para limpar os fiapos de macarrão que o cobriam das calças até o cabelo.

Os outros encolheram os ombros. Teriam saído de fininho se não estivessem tão longe da entrada. Kagome estava toda trêmula, arfando, vermelha de raiva. Estava na cara que Inuyasha não tinha a menor idéia da gravidade do que tinha causado, mas ninguém ali seria doido de se meter. Sango e Miroku se entreolharam, aflitos. O bom é que por mais que aqueles dois brigassem, eles sempre voltavam a se entender, e daquela vez certamente não seria diferente.

“Seu... seu... seu... Imbecil!!! Olha só o que você fez, arruinou todo o almoço que eu tinha preparado, que eu levei a manhã inteira pra fazer!”

“Que? Escuta aqui sua doida, foi aquele pirralho idiota que me provocou...”

“Não bota a culpa em Shippo, bakaaaaa! Você que fez isso, você sempre estraga tudo! Parece um destrambelhado que não olha por onde anda!!”

“Eu? Mas como eu ia saber que esse monte de comida estranha era tão importante pra você, hein?”

“Ah, você não sabe? Então eu te digo porque! Porque você é um burro, Inuyasha! Até uma formiga consegue ser mais esperta do que você! Até uma minhoca! Um mosquito!!! Olha só o que você fez... estragou tudo e...”

Ela olhou em volta. Kaede, Miroku, Sango e Shippo a fitavam um tanto sem graça, sem saber o que dizer.

“Ca-cadê ele?”

“Ele saiu, Kagome,” respondeu Miroku em voz baixa.

Kagome não pensou duas vezes, se é que pensou. Saiu porta afora, como se fosse possível que ele estivesse esperando por ela do lado de fora.

“Inuyashaaa!”

Mas ele não estava mais a vista.
 
 
 
 

Três dias depois

“Hm... Kagome. Está tão quente. Podíamos nadar, o que você acha?” insistiu Shippo pela quinta vez naquela manhã.

“Não estou com vontade, Shippo-chan. Vai você.”

“Mas eu queria ir com você...” murmurou baixinho, sabendo que nada a faria sair se divertindo por aí.

Desde o sumiço de Inuyasha, ela ficava ali, debaixo daquela árvore a maior parte do tempo, como se estivesse esperando por ele, embora ela não admitisse isso por nada.

“Oi, gente!” Era a voz de Miroku.

Kagome quase pulou de onde estava.

“Então? Ele voltou?”

 “Hum, ainda não, Kagome-chan.” Ele se sentou ao seu lado “Mas se eu fosse você não daria tanta importância a isso. Sabe como aquele um é cabeça dura, ne? Qualquer dia desses está por aí.”

“E quem disse que eu estou dando importância? Eu só quero saber, afinal, não podemos ficar parados aqui na vila pra sempre.”

“Claro. Myouga-jiji vai encontrá-lo, você vai ver. Ele sempre encontra.”

“É... Mas também se não encontrar, deixa pra lá.”

“Shippo-chan...” pediu Miroku “Será que você poderia ver com Kaede quando o almoço fica pronto?”

“Mas...”

“Onegai?”

“Tá, tá bom...” saiu resmungando.

Era a chance que o monge estava procurando. Não era do seu feitio se meter, mas já não podia mais ver Kagome daquele jeito.

“Kagome-chan, me permite dizer uma coisa?”

“Claro. O que é?”

“Sabe, eu acho que...”

Um ruído vindo do centro da vila chamou a atenção dos dois, interrompendo a conversa recém-começada. Algumas pessoas corriam para a floresta. Não era preciso pensar muito para chegar a conclusão que os fragmentos de Shikon no Tama guardados por Kagome não demorariam muito para atrair algum youkai.

“Kagome, procure Kaede-sama e fique com ela,” gritou o monge já deixando a garota para trás.

Uma horda inteira de youkais estranhos haviam invadido a vila, e estavam derrubando tudo o que aparecia na frente em busca das lasquinhas da pedra que aumentaria seu poder. Eram todos mais ou menos iguais, pareciam esquilos crescidos, só que bem mais assustadores. Kagome concluiu que nem mesmo sendo muitos aquele ataque representaria alguma ameaça se Inuyasha estivesse ali. E por sua culpa não estava.

Sim, como podia negar? Havia sido estúpida, infantil, e com isso afastado a única pessoa ao lado de quem se sentia segura naquele lugar. Como continuaria sem ele? Se ao menos ele voltasse, poderia tentar remediar, afinal, não tinha a intenção de dizer aquelas coisas. “Baka, baka, baka...” repetia para sai mesma, enquanto corria pela vila a procura de Kaede.

Sentiu algo segurar sua pernas, mas foi tarde. Caiu no chão, com os pés envoltos em alguma espécie de rede maluca. Se debateu, mas todo seu esforço era inútil. Estava cercada, sozinha. Não podia dar conta aqueles bichos, ainda mais desarmada. Lembrou do Shikon em seu pescoço. É claro, toda a confusão na vila visava apenas isolá-la para que pudessem pegá-lo. “Baka, baka, baka...” praguejou mentalmente. Não tinha mais jeito.
 
 
 
 

“Inuyasha-sama? Vamos, eu sei que está aí! É muito importante! Uma emergência!” Myouga-jiji gritou pela décima vez para as paredes de pedra.

Sabia que ele já havia vivido ali, na mesma floresta onde havia sido morto por Kikyo, em lugares tão bem escondidos que um humano jamais conseguiria encontrar.

“Inuyasha-sama! Por favor...” insistiu “Creio que a vila corre perigo!”

“O que é que você quer?” perguntou em tom áspero uma voz mais do que conhecida.

O youkai-pulga poderia beijá-lo se tivesse boca. Sabia que estava certo, que ele só poderia estar ali.

“Inuyasha-sama! Fico tão feliz em encontrá-lo. Já não sabia mais o que fazer...”

“Se veio aqui tentar me arrastar de volta para aquela vila, perdeu seu tempo. Só vou voltar naquele lugar quando tiver recuperado o que falta do Shikon no Tama. Aí eu pego o pedaço que está com aquela humana mal-cheirosa e vou tê-lo só para mim, entendeu bem?”

“Não fale assim. Inuyasha-sama, o que o senhor fizer com aquela pedra, eu vou achar muito certo. Estou do seu lado. Só vim mesmo porque achei que gostaria de saber que um bando daqueles youkais dentuços que vivem na montanha do leste estavam se dirigindo para a vila. Estou certo de que estão interessados no fragmento guardando pela senhorita Kagome.”

“E eu com isso?”

“Bem... er... Não sei, mas talvez...”

“Eu não quero saber disso!” sentou de braços cruzados “Não tô nem aí.”

“Hum, bom, talvez, num futuro, fosse mais fácil tomar os fragmentos da humana  do que desses youkais.”

“Pode ser...” Virou a cara “Eles que se virem.”

“Tá certo...”

Alguns instantes se passaram.

“Myouga-jiji... Quanto tempo tem que os viu?”

“Ontem, Inuyasha-sama. No meio do caminho. Já devem ter chegado por lá, ou quase.”

“Hn.”

Silêncio.

“Imuyasha-sama, onde vai?” perguntou o youkai ao ver o outro se levantar.

“Eu devo ser muito burro mesmo.”
 
 
 
 

Kagome fechou os olhos. Tinha que pensar em alguma coisa. Correr, gritar, qualquer coisa. Não iria deixar que lhe tirassem o pouco da Shikon no Tama que tinham. Se isso acontecesse, como iria encarar Inuyasha novamente?

Um som cortante como uma rajada de vento cortou o ar. Por um instante, tudo lhe pareceu silencioso. Em seguida, sentiu ser abraçada. Seu sangue chegou a parar de circular. Ele estava de volta... para protegê-la.

“Kagome? Como está?”

Seus olhos se abriram de estalo, quase em choque. Era Kouga ali parado ao seu lado, e não quem estava pensando.

“Kagome... Está ferida? Que houve?”

Só pela reação dele pôde ter uma idéia da cara estranha que devia ter feito.

“Estou bem, Kouga-kun. Arigatou.”

“Ufa, fico aliviado! Não quero que a minha mulher se machuque antes mesmo de acertar o casamento,” disse, muito sério, coçando o queixo “Bom, melhor te tirar daqui antes que eles voltem.”
 
 
 
 

Inuyasha alcançou a vila em tempo record. Dessa vez realmente pensou que suas pernas fossem desmontar. Ao se aproximar até que não sentiu nada de tão grave. Havia cheiro de youkai por todos os lados, mas tudo indicava que eles já haviam sido postos para correr. Podia ter sido exagero de Myouga-jiji para fazê-lo voltar, e nesse caso, teria que viver com mais esse fora. Maldito vermezinho. Ia ver só uma coisa...

Então ele parou. Seus olhos se fixaram no casal mais adiante. Piscou algumas vezes como se pudesse ter sido afetado por alguma ilusão de ótica. Não podia ser... Bem diante de seu nariz, Kagome e aquele lobo idiota trocando risinhos que nem dois... namorados?

Virou as costas, antes que fizesse uma besteira. Com certeza não era necessário ali.

Em seu ombro, Myouga-jiji abaixou a cabeça. Talvez tentasse argumentar alguma coisa mais tarde, aquele definitivamente não era o momento propício.

“Myouga-jiji, desce.”

“Mas, Inuyasha-sama...”

“E não quero que me siga dessa vez.”

O youkai obedeceu. Pulou para uma pedra próxima, de onde observou o hanyou se afastar sem olhar para trás.
 
 
 
 

“... Ei, Kagome! Não ouviu o que eu disse?” perguntou Kouga, assim que a suspeita de que estava falando para o vento se tornou mais algo impossível de contornar.

“Hum? Er... Ah... Desculpe, Kouga-kun. É que eu estou preocupada... com todos. Tenho que ver se alguém se feriu.”

“Ah, meus garotos tomaram conta de tudo, não se preocupe. Afinal, onde está o cara-de-cachorro? Se escondeu de medo?”

Ela parou de andar. Olhou diretamente para o youkai-lobo, quase pondo o dedo na cara dele.

“Ele nunca faria isso, tá me ouvindo?”

“Oh... Então onde está ele?”

“Ele está... Bem, isso não é da sua conta. E quer saber? Você ajudou muito, estou muito agradecida, mas agora eu tenho mais o que fazer. Kaede-sama pode estar precisando da minha ajuda. Com licença.”

E saiu sem dar atenção aos protestos do outro.

“Mas o que foi que deu nessa mulher?” perguntou-se Kouga, com expressão de quem não entendeu nada.
 
 
 
 

“Hum... Há quantos dias ele foi embora, hein, Miroku-san?” indagou Shippo como não quer nada.

“Dez dias.”

“Não podíamos ir atrás dele?”

“Se soubéssemos onde procurar...”

“Kagome vai continuar triste enquanto ele não voltar...”

“Não sejam pessimistas. Ele volta,” interveio Sango, sem nenhuma certeza do que estava falando “Até lá podíamos arrumar algo pra animar a Kagome-chan, ne? Afinal, não foi bem culpa dela.”

“Claro que não, Inuyasha é burro mesmo!”

“Shippo!!!”

“Er... Kagome...” engasgou Miroku ao ver que ela estava por perto “Está aí há muito tempo?”

Ela sentou. De dois dias pra cá estava tão abatida que mal parecia a Kagome que conheciam.

“Alguma notícia?”

“Bom, Kagome-chan, tenha paciência, ne? Olha, porque você não vai visitar a sua família por uns dias? Aposto que quando voltar aquele cabeça dura estará por aqui.”

“Não vai não, Sango... Ele não vai mais voltar, eu sei! Se não voltou quando fomos atacados, não é agora que vai voltar...”

“Ah, Kagome... Esquece ele! Podemos juntar os fragmentos de Shikon sem aquele grosso!” tentou Shippo, apenas para deixá-la ainda mais cabisbaixa.

“Não diz isso. Ele já te salvou a pele algumas vezes... e a minha. Eu não sei porque fui dizer aquilo...”

“Ele estragou sua comida!” lembrou o kitsune.

“Que importância isso tem? Eu queria... queria que ele voltasse...”

 “Ahhh!! Chega!” veio uma voz do nada.

Miroku e Sango pularam do chão em alerta, olhando em volta em busca da fonte do som. Shippo pulou no colo de Kagome, muito embora essa permanecesse apática demais para reagir.

“Sou eu! Miyuga! Estou aqui! Eiii!!!”

Kagome o agarrou com tanta pressa que quase o esmagou.

“Ei... hihihi... Assim não, faz cócegas! Ei!! Ahh... Solta, não me aperte assim!”

“Miyuga!! Há quanto tempo está aqui?”

“Hum, vários dias! Desde o ataque.”

“Estava escondido pra se proteger, ne?” acusou Miroku, sentando-se na rodinha formada ao redor do youkai.

“Dessa vez errou, espertinho. Er... Kagome-san, eu sei que não deveria estar fazendo isso, mas acho que sei onde pode procurar o senhor Inuyasha.”

“Procurar, eu?”

“Isso! E acabar de vez com isso. Hum, não sei quem está com pior humor. Depois, vocês têm uma missão a cumprir, ou esqueceram?”

“Não sei...” ela lamentou “Ele está chateado comigo, e dessa vez ele tem razão. Não deve nem querer olhar na minha cara...”

“Bom, ele ficou mesmo chateado. Mas acho que se estivesse tão bravo assim, não teria vindo até aqui quando foram atacados.”

“Que? Ele... Mas eu não o vi, fiquei o tempo todo no meio da vila, quando os youkais apareceram e Kouga-kun... Ai... Então foi isso... Ele viu Kouga-kun e foi embora.”

“Exato.”

“E por que você não disse nada?”

“Bem, não é sábio da minha parte ir contra ele, não é mesmo? Já estou fazendo isso agora e me arriscando a ser esmagado.”

“Tá bom, tá bom... E onde ele está?”

“Bem...”
 
 
 
 

Ela se aproximou timidamente. Estava bastante escuro agora e aquele lugar parecia tão assustador, mas não podia hesitar mais. Entrou na caverna devagar. Por instantes, chegou a duvidar da informação de Miyuga-jiji, mas mesmo que ele estivesse errado, sabia que não haviam outras opções disponíveis.

Deu mais alguns passos. Do nada, alguma coisa bateu em suas canelas, como se tivesse tropeçado de trás pra frente. O impacto tirou o chão de debaixo de seus pés, e ela caiu com as costas no chão, aturdida demais pra tentar alcançar um apoio na escuridão. Então foi como se algo tivesse se jogado sobre ela, pôde sentir a mão em sua garganta, apertando seus pescoço, braços e pernas como tentáculos mantendo seu corpo amarrado ao chão.

Ela gritou.

“Hn? Kagome?”

Imediatamente o sujeito saiu de cima dela, possibilitando que ela se arrastasse alguns centímetros para trás. Não era possível que...

“Inuyasha?”

Pegou a mochila que trazia nas costas e puxou uma lanterna de lá de dentro. Myouga-jiji havia avisado que não era prudente acender luzes a noite em lugares desconhecidos, mas naquele momento ela nem lembrou disso.

“Kagome... O que você está fazendo aqui? Ah... tira essa luz da minha cara.”

Era ele mesmo, ou melhor, exatamente quem esperava encontrar de acordo com a informação de Myouga-jiji. O youkai lhe contara que Inuyasha havia se escondido durante muitos anos naquelas cavernas, perto da vila onde fora criado quando pequeno. E que provavelmente esse ainda poderia ser seu refúgio favorito das fatídicas noites de lua nova, quando sua metade humana se sobrepunha sobre seu sangue youkai.

Humano, youkai, lá o que fosse. Kagome o havia encontrado, e isso era tudo que importava no momento.

“He... doida, fala alguma coisa. É... eu te machuquei?”

“Não. Estou bem. Você esqueceu meu cheiro pelo visto...” disse sem pensar e sem conseguir tirar o foco da lanterna do rosto dele. Tinha que vê-lo mais um tempo pra acreditar que estava ali.

“Esqueci não. Eu não consigo senti-lo de longe nesses dias, esqueceu? E quer tirar esse troço de cima de mim?”

“Ah... é... gomen.”

“Tá fazendo o que aqui afinal?”

“Bem... O mesmo que você sempre faz comigo. Vim te buscar. Nós temos uma missão, ne?”

“Não precisava se dar o trabalho. Eu ia voltar de qualquer jeito. Só aproveitei fazer uma outra coisa.”

“Que coisa?”

“Não é da sua conta, ora...”

“Olha... eu não vim brigar com você. Na verdade, eu, eu... bem, achei que eu não devia ter dito algumas coisas. É que quando eu me irrito, sabe, eu sou sempre assim. Minha mãe vive dizendo que desse jeito eu nunca vou encontrar marido...Não que eu queira um, mas assim, que ninguém vai conseguir me agüentar.... Inuyasha? Inuyasha? Onde você...?

“Tô aqui.” A voz veio de cima. Ele estava de pé ao seu lado “Toma.” Estendeu-lhe a parte externa do kimono vermelho “Faz frio de noite, e está tarde demais para voltarmos. Vê se dorme. E se livre dessa coisa, luz no escuro pode atrair encrenca.”

Ela não respondeu. Apenas ficou olhando na direção dele, como se conseguisse enxergar alguma coisa. Não sabia bem porque, mas se sentia tão mal quanto antes... Talvez fosse mais fácil lidar com ele no estado normal. Como humano, Inuyasha parecia tão sério.

Se enrolou no kimono emprestado e se acomodou do melhor modo possível. Esperou o sono chegar, só que ele não veio tão cedo.
 
 
 

A luz do sol bateu em seus olhos, acordando-a daquele sono desconfortável. Se já sentia saudades de sua cama estando na vila, que diria ali, sobre aquele chão duro.

Lembrou de onde estava. Tinha ido até ali para buscar Inuyasha mas sentia que havia sido uma idéia inútil. Ele nem sequer havia ouvido o que tinha pra dizer!

Levantou, esticando os braços num tentativa fracassada de desamassar suas costas.

“Ah, acordou.”

Ela olhou de lado, um tantinho satisfeita de ver que ele já havia voltado a sua forma normal.

“Ohayo.”

“Podemos ir agora, se quiser.”

“Obrigada pelo kimono.”

“Hm... Tá com algum problema? Parece que comeu algo estragado.’

“Nada. Vamos indo.”

“Deixei a minha bicicleta lá fora.”

“Kagome...”

“Sim?”

“Que te disse que eu poderia estar aqui? Foi Myouga-jiji, aposto!”

“Isso não tem importância. Você ia voltar de qualquer jeito, e ainda está com raiva de mim, então não adiantou de nada.’

“Eh? Mas eu...”

“Não! Não precisa dizer nada, eu sou uma baka mesmo. Faço tudo errado.” Ela sentou no chão “... Sou uma pessoa horrível, até assustar o meu irmãozinho eu consigo. Sabe, as vezes eu grito e digo coisas pra ele também...”

Ela teve que interromper para um soluço. Os olhos de Inuyasha quase pularam pra fora. Kagome, chorando de novo?

“Nãooo, Kagome, eu não estou bravo. Ai, para com isso, sabe que eu não posso ver essas coisas...”

“Desculpa...”

“Eu... eu caí em cima da sua comida... e...”

“Não precisa se desculpar. Eu é que estava errada...”

“Er... eu não ia me desculpar.”

“Não?”

“Foi você quem me mandou sentar!”

“Mas foi você que entrou lá correndo que nem um maluco!”

“E você me chamou de burro!”

“Você arruinou todo o meu trabalho! Queria que eu tivesse te chamado de que?”

“Hn!”

“Hmpf.”

Silêncio.

“Eu senti sua falta.”

“Hn... Eu também.”

“Amigos?”

“Hn.”

“Toca aqui então.”

“Toca o que?”

“Com esse dedo aqui, olha. É pra dizer que somos amigos de novo.”

“Que beste... Ah, tá bom, vai. Como faz esse troço?”

“Assim, olha...” Segurou a mão dele, desajeitada como ela só. Aquilo a deixou nervosa, quando na verdade deveria ser um sinal de que tudo havia acabado bem. Seu coração parecia bater mais forte.

“É assim,” murmurou.

“Tá. E agora?”

“E agora nada! É só isso.”

As mãos continuavam entrelaçadas. Por um momento, Kagome achou que seria impossível separá-las. Não que importasse muito, era tão estranho. Talvez fosse a claridade, mas tinha a sensação que estavam tão próximos um do outro pela primeira vez. Mais alguns centímetros e seus rostos se tocariam. E se isso acontecesse, ela apenas fecharia os olhos e...

“Oi!!! Kagomeeee!!”

Os dois pularam do chão. A voz inconfundível de Shippo, era um sinal evidente de que os outros estavam se aproximando. No instante seguinte estavam cercados por Miroku, Sango, Myouga-jiji, Shippo e Kirara, e de quebra com a informação de um lugar onde possivelmente havia um grupo de youkais em poder de mais alguns fragmentos da jóia que tanto procuravam.

“Estão esperando o que? Vamos,” disse o hanyou, como se dispersar o grupinho servisse de compensação para o clima perdido.

“Ah, dessa vez vai ser fácil,” animou-se Miroku assim que percebeu que tinha interrompido alguma coisa “Vai ver como vamos voltar logo.”

“Sim, e depois de visitar minha família, vou preparar algo que realmente vai surpreender vocês!”

Inuyasha parou lá na frente de estalo. Virou para trás.

“Mais daqueles fios gosmentos?”

“Fique tranqüilo que não vou te convidar pro almoço,” retrucou ela.

“E quem disse que eu quero comer aquilo? Argh, só o cheiro durou dias em cima de mim...”

“Bakaaa! Não fale assim da minha comida!”

“Eu falo como eu quiser!”

Os outros se entreolharam. Será que alguma dia isso teria fim?

“Bakaaaa!”

“Maluca!”

“Sentaaa!”
 
 

~ Fim ~



Fanfic por Ana-chan, outubro/2001
Copyright Rumiko Takahashi/Yomiuri TV/Sunrise/Shounen Sunday
Glossário:

Baka: idiota, imbecil
-chan: (sufixo) um diminutivo carinhoso, usado com quem é mais jovem que você, garotas ou amigos próximos.
Hanyou: meio-youkai
-jiji: (sufixo) vovô, velhinho
Kitsune: raposa
-kun: (sufixo) diminutivo usado com homens jovens,(forma de tratamento mais intimo)
Ohayo: Bom dia
-sama: sufixo após o nome que indica uma forma muito respeitosa de se dirigir à pessoa, geralmente com alguém de hierarquia superior, como por exemplo os senhores feudais, imperadores, príncipes, princesas, monges, sacerdotisas, etc.
Shinkon no Tama: Jóia de quatro almas
Youkai: criatura sobrenatural da mitologia japonesa, um tipo de espírito da natureza, que pode derivar de figuras de animais ou plantas.
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