Tessaiga meu Amor

Fanfic por Lalachan


Sesshoumaru finalmente terminou de vasculhar a área à sua volta em busca de cheiros potencialmente ameaçadores, dessa vez se dando por satisfeito. Seu pai o deixara ali naquela clareira desde o entardecer, com esta simples função, o que o desapontou um pouco a princípio. Preferia ter ido com ele até os limites daquela região, já que ultimamente havia muitas notícias se espalhando de que o clã dos dragões estavam planejando dar uma reviravolta nos limites pré-acordados entre outros clãs de youkais... realmente não dava para se confiar em dragões. 

O jovem youkai permitiu-se soltar um suspiro já que não havia ninguém ali para testemunhar semelhante expressão de tédio. Não gostava de ficar parado em um lugar só. Talvez por este motivo nunca tivesse lhe agradado a vida com sua mãe, mesmo que mal a visse... Na verdade nem se lembrava muito bem dela. Passara toda sua infância sendo assistido e criado por serviçais, apenas esperando o momento em que seria levado à presença de seu pai, o tão temido Inutaishou. Mesmo assim, ele ainda não passava de uma simples criança youkai agora, mas lhe irritava ser tratado como tal. Embora seu corpo ainda não estivesse desenvolvido como um adulto, já sentia-se assim por dentro. Era humilhante ter que aguardar pacientemente que seu corpo chegasse ao mesmo estado que sua mente. Enquanto isso não acontecia era obrigado a ser deixado para trás quando a situação era mesmo importante. Como agora, no caso dos dragões idiotas. Claro, seu pai era capaz de dar um jeito neles com as mãos nas costas, mas ainda assim... como ansiava poder estar ao lado dele.

Não se lembrava de ter tido uma vida antes que aquele youkai alto de rabo de cavalo longo e armadura tão imponente com pele dupla pendendo das costas viesse lhe buscar para andar ao seu lado. Talvez estivesse apenas vegetando enquanto esse momento não chegava. Não importava. Já havia aprendido tanto, e nunca parava de aprender mais. Sua sede de conhecimento crescia mais rápido que sua curta e recém-nascida pele de cão, que já começava a cair por cima de seu ombro direito. Cada momento ao lado de seu pai era precioso, e ele fazia de tudo para não desperdiçar nem um deles. Seu olhar respeitador estava constantemente erguido para cima, para a expressão daquele youkai que passara a ser o centro de seu mundo. 

Por esse motivo era tão angustiante para o menino youkai permanecer sozinho naquela clareira, apenas aguardando que seu pai retornasse. Sentia-se sendo roubado de preciosos momentos com o pai. Mas nada podia fazer. 

Jamais desobedeceria ao pai, em circunstância alguma. E se isso significasse ter que ficar ali esperando por vários dias, era o que faria.

Sentou-se junto ao grosso tronco de uma árvore, mantendo no entanto a vigília visual e olfativa à sua volta, atento à mínima diferença que indicasse um inimigo. Mas o tédio era tanto que nem esse luxo podia se dispor. Soltou outro suspiro, odiando-se imediatamente por isto. Mais uma vez seu olhar foi atraído para algo próximo, algo que fora deixado aos seus cuidados. Preferia não ter consciência disso o tempo todo, mas não adiantava fingir que ela não estava ali. Mesmo que seus pensamentos viajassem para bem longe, quando voltassem, ela ainda estaria ali... tentadora, disponível, convidativa.

O jovem youkai cujos cabelos brancos e lisos ainda não passavam do pescoço voltou seu olhar para a frente, desviando finalmente o olhar da tentação. Não, não faria isso. Tal ato possuía um nome: desobediência. Uma palavra inadmissível para ele. Por alguns momentos ele resistiu a olhar para ela de novo, mas logo pegou-se com o olhar fixo na fonte de sua ansiedade, sem conseguir se controlar. 

Enquanto conseguisse apenas ficar olhando, estaria tudo bem. Mas não podia impedir sua mente de divagar para um passado não muito distante daquele momento.
 
 
 
 
 
 

- Não, Sesshoumaru. Você ainda não está preparado. – negou Inutaishou, dando-lhe as costas e recomeçando a andar pela trilha da mata fechada.

- Mas, chichi-uê... – insistiu Sesshoumaru, mas antes que continuasse veio o corte em tom de voz áspero, que o gelou por dentro.

- Não me questione. – foi tudo o que disse, pondo um fim no assunto, sem interromper o passo largo. Sesshoumaru engoliu em seco, e recomeçou a segui-lo, antes que ficasse muito para trás. Logo estava mais próximo ao pai, mas manteve uma certa distância, porque podia sentir quase na pele a desaprovação no ar. Aquela era a primeira vez desde que começara a andar com ele que jamais ganhara uma repreensão... ou algo que se assemelhasse a uma. No fundo dava no mesmo. Já estava totalmente arrependido de ter feito a pergunta, na verdade agora que considerava com calma o assunto se achava estúpido, infantil e precipitado por ter sequer ousado fazer o pedido. Mas agora não adiantava se lamentar. Tudo o que ganharia seria um longo silêncio por parte de seu pai, e merecia isto. 

Ele mesmo nunca fora de falar muito... mas aprendera que gostava do som da voz de seu pai sempre falando com ele, ora ensinando alguma coisa, ora apenas conversando casualmente sobre qualquer coisa. Nunca fora acostumado a esse tipo de conversação, e sempre imaginara que sua relação com o pai, quando o conhecesse, seria rígida e limitada a algo como “me observe e aprenda por si mesmo.” Mas nunca fora assim, nem no difícil começo entre eles. Ninguém o educara para conversar com o próprio pai, apenas para obedecê-lo cegamente. Tinha certeza que seu pai devia ter cogitado a hipótese dele ser mudo no começo de seu relacionamento. Fazendo um esforço imenso ele conseguira progredir para algo além de “sim, chichi-uê” e “não, chichi-uê”. 

Mas agora teria que amargar não ouvir mais a voz do pai durante um longo tempo, considerando o fato de que fora impertinente e lhe faltara tanto com o respeito. 

Estava tão imerso nos próprios pensamentos e culpa que trombou com algo peludo e macio, e quase caiu sentado no chão, recuperando-se rápido e erguendo o olhar, surpreso. Acabara de trombar com a pele dupla do pai, que parara de andar, ainda de costas para ele. Sentiu o rosto queimar de vergonha e agradeceu por seu pai não poder olhar para ele agora. Além de imaturo também virara um desengonçado. Não ficaria surpreso se seu pai se virasse agora e lhe dissesse que não queria mais um menino imbecil como ele seguindo-o por aí, filho ou não...

- Sesshoumaru – veio a voz grave, porém em um tom mais ameno do que antes – não precisa ficar desse jeito.

Deveria estar se referindo logicamente ao seu completo embaraço, e seu rosto queimou mais ainda, mas ele manteve-se firme, embora suas pernas tremessem levemente. Certamente seu pai era capaz de sentir seu cheiro diferente, e seu sangue correndo mais rápido graças à ansiedade que ainda lhe corria como fogo pelas veias. Era isso, ele com certeza lhe daria a dispensada agora. Seu erro com a pergunta insolente fora maior do que imaginara. Sentiu lágrimas queimando seus olhos e olhou miseravelmente para o chão, querendo que este o abrisse para engoli-lo antes que seu pai se virasse para lhe mandar embora.

Com os olhos voltados para o chão, ele viu os sapatos de seu pai se voltando para ele. Não teve coragem de erguer o olhar, mantendo a cabeça baixa, amaldiçoando-se pelas lágrimas que já desciam por suas faces. A quem estivera tentando enganar aquele curto tempo em que estivera viajando com seu pai? Na verdade não passava de uma criança, um pirralho metido a gente grande. Um reles pirralho que ousara tentar se igualar a um youkai tão poderoso quanto Inutaishou... o youkai cachorro mais poderoso de todas aquelas terras. 

A terra já comecara a engoli-lo? Não sabia, sua vista estava embaçada. Seus ombros sacudiram-se levemente graças a um soluço mal disfarçado. Foi quando uma mão grande tocou com estranha delicadeza seu queixo, fazendo com que levantasse a face até que o rosto de seu pai estivesse mais uma vez em seu ângulo de visão. Algo indescritível pareceu passear naqueles olhos dourados, adornados por sobrancelhas negras e grossas que se arquearam levemente, talvez um pouco pelo choque de vê-lo em semelhante estado. 

Não era para menos. Era a primeira vez que se lembrava de jamais ter chorado. E isso tinha que acontecer justamente na frente dele. Engoliu as lágrimas restantes que ainda teimavam em cair, embora desconfiasse que isso teria mínima diferença em seu destino agora.

Sequer respirou quando dedos gentis limparam suas lágrimas, primeiro em uma face, depois em outra, até que não houvesse mais vestígio nenhum que indicasse que ele fora dominado por algo tão banal quanto uma emoção.

- Sesshoumaru. Você ainda é um menino... – declarou seu pai, e a mão que antes limpara suas lágrimas de vergonha foram se depositar em sua cabeça, acariciando levemente os cabelos lisos e brancos – No entanto, acho que às vezes se esquece disso.

A mão gentil abandonou sua cabeça, mas ele continuou com o olhar fixo no rosto do pai, que agora ostentava um leve sorriso. Somente então se deu conta que mesmo ajoelhado, seu pai ainda o olhava de cima. Sentiu-se muito pequeno perto dele naquele momento, mais do que de costume.

- Você é meu filho. Nunca vou deixá-lo para trás. – Era como se houvesse lido seu pensamento, conseguido ver todos seus piores temores e culpas, e com um gesto tão simples quanto um afago na cabeça, ele fosse capaz de enxotar todos eles de dentro de si como quem afasta um inseto qualquer. Ou talvez tivesse apenas interpretado acertadamente toda sua atitude, não importava. Um peso que nem chegara a sentir foi tirado de cima de seus ombros. Agora sabia que seu pai não o dispensaria por sua impertinência. Mas talvez, o castigasse de alguma forma. Estava pronto para sua punição, e a receberia tão feliz quanto quem recebe um prêmio.

Foi quando o viu retirar aquela espada da cintura. Sim, aquela espada que tanto o atraíra desde que pousara os olhos na cintura do pai pela primeira vez. Não entendia bem porque, afinal parecia ser bem velha, a julgar pelo cabo trançado com couro puído e a bainha de madeira antiga e meio lascada. Mas a energia youkai que emanava dela era forte demais. Sabia que havia um poder escondido ali, só não sabia qual, pois nunca vira seu pai empunhá-la. Nem ela nem a outra que ficava ao lado em sua cintura. Na verdade a energia que vinha da outra, cujo aspecto era perfeito por sinal, era semelhante. Mas havia uma diferença. A energia da outra era fria, enquanto que a desta... era quente, e parecia pulsar junto com seu coração. Não saberia explicar se lhe pedissem, mas era como se soubesse lá no fundo que ela seria sua um dia... quando fosse forte e digno o suficiente para empunhá-la.

Seu olhar sempre fora atraído para esta espada desde o começo. Mas na única vez em que tivera a sorte de assistir seu pai em uma luta, não o vira empunhar nenhuma das duas... e sim aquela terceira que ele levava nas costas, uma espada mais longa do que as outras duas e que emitia uma luz arroxeada esquisita quando seu poder era convocado. Mas não se sentia muito confortável com a energia que vinha desta. Deixava sua cabeça pesada e seus pensamentos confusos. Às vezes tinha a impressão estranha de que podia ouvi-la falando. Felizmente já conseguira aprender a ignorá-la, fechando seus pensamentos para esta terceira espada.

Importava-se de fato apenas com esta que seu pai agora tirara da cintura, e empunhava diante de si. Não pôde deixar de arregalar os olhos de surpresa quando a lâmina velha e cheia de falhas no fio transformou-se magicamente bem diante de seus olhos em um canino enorme e reluzente, com uma faixa de pêlos felpudos nascendo de seu cabo. 

- Sesshoumaru – disse seu pai tirando-o do transe e fazendo-o encarar o semblante sério atrás da espada – Já que você quer tanto assim, eu vou deixar você empunhar a Tessaiga.

- Tessaiga? – repetiu ele, saboreando o nome estranho nos lábios como se fosse uma rara iguaria. Seu olhar foi atraído para o reflexo de seu próprio rosto na lâmina. O rosto de um menino ao mesmo tempo apavorado e maravilhado diante da realização de seu maior desejo.

- É o nome desta espada. Ela foi feita de um canino meu, e contém meu poder. Sendo empunhada por seu mestre, é capaz de derrotar cem inimigos de uma vez só. 

Os olhos do menino não abandonavam aquela espada impressionante que agora possuía um nome para habitar seus pensamentos. Tessaiga. Inconscientemente abriu e fechou nervosamente as mãos. Ansiedade pura o consumia. Seu pai o deixaria mesmo tocá-la? 

Ainda estava com o olhar preso no brilho quase ofuscante da espada quando a ilusão se desfez. A Tessaiga diminuiu de tamanho, voltando rapidamente a ficar com a mesma aparência de antes, velha e falhada. O pêlo de cão também desaparecera. 

- Chichi-uê...? – murmurou confuso, mas sem se atrever a ir em frente. Afinal não fazia muito tempo que ousara pedir para tocar naquela espada e o resultado não fora lá muito bom. A exceção deste momento é claro. Melhor esperar para ver o que seu pai tinha em mente, embora não estivesse entendendo nada.

- Tome. – viu a espada sendo estendida em sua direção, com o cabo voltado para ele, ao seu alcance. Ergueu a mão trêmula, encarando seu pai que ainda exibia na face a mesma expressão calma. Finalmente, sua mão se fechou em torno do cabo trançado por tiras de couro gastas e puídas. 

Nunca saberia descrever a emoção deste momento. Seu pai afinal o deixava empunhar esta espada. Não foi uma surpresa para ele ver que a espada não se transformou em sua mão. Não chegara a esperar tanto assim. Levantou-a um pouco, olhando-a de perto, avaliando o fio da lâmina, lascado aqui e ali, arranhado e aparentemente cego. No entanto, aquela espada transformada era capaz de torná-lo o youkai mais forte de todos. 

Não, corrigiu-se mentalmente. Primeiro, ele teria que se tornar o youkai mais forte de todos, e só então, possuiria aquela espada. Sim, concluiu, agora estava certo seu pensamento.

- Sesshoumaru – chamou Inutaishou, ao ver que ele estava completamente fascinado pela espada que segurava quase com adoração diante de si. O menino forçou-se a encarar o pai novamente. – Você está com a Tessaiga na mão como tanto queria. Agora, me diga: você conseguiria derrotar cem inimigos com ela?

Ele voltou a olhar ainda fascinado para a Tessaiga. Sabia que a energia e o poder estavam ali. Mas a resposta para a pergunta de seu pai era-lhe também muito clara.

- Não, chichi-uê. – respondeu, humildemente. 

- E por que não? 

Sesshoumaru virou a espada e devolveu-a ao pai, não sentindo o menor pesar em fazer tal coisa. Finalmente compreendera o que seu pai estava tentando mostrar a ele à sua maneira, sempre inesperada a seu ver, mas não menos apreciada. 

- Eu ainda sou um menino. – respondeu, e foi quase capaz de sorrir para o rosto sério que aguardava acima dele. Ainda acrescentou, para mostrar ao pai que nunca se esqueceria desta lição – Embora, às vezes, eu me esqueça disso.

O rosto sério abriu-se em um sorriso largo, e tomando a Tessaiga de volta, ele colocou-a de volta na própria cintura. Sem dar mais palavra, virou-se e voltou a seguir pela trilha quase invisível que cortava a floresta.

Quando viu a pele dupla sumindo em meio as àrvores, forçou-se a mover-se também, recomeçando a segui-lo.

“Tessaiga. Um dia... você será minha.”

Infelizmente ninguém poderia ver... mas pela primeira vez em muito tempo ele estava sorrindo de pura alegria enquanto seguia o rastro do pai bem de perto, nunca o perdendo de vista enquanto avançava pela mata fechada.
 
 
 
 
 
 

- Eu não sou mais um menino – murmurou em voz baixa para ninguém, enquanto seu olhar continuava fixo na espada que fora displicentemente escorada em uma árvore próxima àquela em que ele mesmo estava encostado. Era como se declarar aquilo em voz alta servisse para torná-lo mais verdadeiro. Aos poucos voltava ao presente, embora a contragosto. Não havia um só dia em que não evocasse essa lembrança, e a cada vez que o fazia, o desejo de ter aquela espada lhe crescia mais e mais.

Ele nunca mais tocara a Tessaiga depois daquele dia, tampouco pedira de novo ao pai para fazê-lo. Sabia que teria que ser digno de espada tão poderosa antes que sua mão se fechasse em volta daquele cabo com tiras de couro trançadas. Queria ser capaz de transformá-la como seu pai fizera. Enquanto isso não acontecia, procurava aperfeiçoar suas habilidades latentes de youkai.

Há pouco tempo conseguira finalmente dominar apropriadamente o veneno que evocava de suas garras. Seu pai ainda tentara dissuadi-lo de começar a lidar com o próprio veneno tão cedo assim, ao invés de deixar que esta capacidade fosse naturalmente desenvolvida com a chegada da puberdade. Só que a puberdade ainda estava meio longe para o menino ansioso, e ele polidamente pedira permissão ao pai para pelo menos tentar evocar o veneno. Se não o conseguisse ele esperaria. Seu pai permitira, afinal, tudo bem que fosse ainda uma criança, mas aquela era uma época dura para youkais de qualquer idade. O que não faltava em cada canto eram ameaças de todo tipo... monges, exterminadores, youkais de clãs rivais... Não fora um pedido insensato da parte dele, por isso mesmo seu pai consentira.

E ele conseguira, o que o deixou muito mais seguro. Era capaz de lançar morte pura agora com suas garras, e ainda aprendera também a formar um chicote venenoso com sua energia maligna que a cada dia sentia mais forte, talvez por ter sido despertada mais cedo que o normal. Sua velocidade também melhorara. Progredira muito e chegara a crescer um pouco também, embora estivesse impaciente com o fato de ainda não chegar na altura da cintura de seu pai. Mas não se podia ter tudo... pelo menos ao mesmo tempo. Outra coisa que ele aprendera também.

Cada um desses passos o aproximava mais do momento em que empunharia a Tessaiga novamente. Ele seguia essa trilha com determinação e certeza de seu destino. No final dele, lá estaria a figura de seu pai, aguardando para ser derrotado por ele, e então a espada mais poderosa seria sua definitivamente.

Esses sonhos de grandeza não o impediam de se fascinar cada vez mais pelo pai. Saber que teria que derrotar um daiyoukai como ele um dia o deixava dividido por dentro como dificilmente poderia compreender. Uma parte dele queria muito que o dia de sua supremacia ao pai chegasse logo... a outra queria que tal dia nunca chegasse, pois isso significaria a separação daquele que aprendera a seguir e respeitar.

Com a cabeça encostada no tronco de arvore atrás de si, Sesshoumaru fechou pesadamente os olhos, embora não estivesse com sono. Fazia isso para expulsar de seu raio de visão, ainda que lateral, a imagem da Tessaiga repousada contra a arvore próxima. Suspirou de novo. Tão perto e tão longe.

A brisa agradável da noite acariciou sua pele como um consolo para sua frustração sempre latente. Um barulho de água corrente chegou aos seus ouvidos, vindo de um rio próximo. Permaneceu de olhos fechados pois não precisava da visão para manter o domínio sobre toda a área à sua volta. Se um inseto se movesse em uma folha a muitos metros dali, se um peixe pulasse para fora do rio ali perto, ele conseguiria sentir. Se um eventual inimigo ousasse se aproximar, talvez nem precisasse se levantar. A consciência de tudo era quase total, e ao mesmo tempo em que isso era perfeito para sua sobrevivência, também o deixava preso em uma situação por demais irônica. Pensamentos inconvenientes que antes apenas sussurravam naquela voz irritante e tentadora agora soavam mais altos dentro de sua cabeça. Não o deixavam em paz. Tudo o que conseguia pensar era que seria por demais fácil apenas levantar-se e...

Não. Simplesmente não. Forçou-se a continuar imóvel. Uma sensação odiosa de impotência o dominou, logo sendo substituída por uma certa revolta. A idade que possuía e a experiência que já conseguira obter com o pai deixava bem claro para ele neste momento que estava sendo crua e dolorosamente testado. Pronto, por que não admitir logo de uma vez por todas? Seu pai estava testando a confiança no próprio filho. Atitude inteligente embora por demais óbvia. Sesshoumaru sabia muito bem o que podia fazer e o que não podia. Tocar na Tessaiga estava incluído na última lista. 

E afinal, disse a si mesmo, para que eu a empunharia? Ela não se transformaria em sua mão. Ainda não tinha poder suficiente para tanto. O problema não era saber disso. O problema era que estava considerando o assunto muito perigosamente.

A mesma voz impertinente no fundo de sua cabeça voltou a incomodar-lhe. Mas e se ela se transformar? Já pensou... já imaginou como seria? Segurar a Tessaiga transformada e sentia-la vibrar, pulsar com todo seu poder?

Levantou-se em um rompante, pondo-se de pé com um murmúrio de desaprovação consigo mesmo. Maldição, porque precisava passar por aquilo? Por que seu pai não levara a Tessaiga com ele naquela breve jornada? Como se realmente precisasse de respostas. Mas sentir raiva ajudava-o a espantar as tentações que o rondavam com tanta insistência. Ergueu o olhar para a direção das montanhas, aquela que seu pai tomara ao partir naquele entardecer. A julgar por vezes passadas, ainda teria que amargar talvez alguns dias de espera. Vários dias e noites ao lado do seu maior desejo, e sem poder sequer...

Já estava farto daquilo. Finalmente decidiu-se. Que se danasse se o seu pai aportasse ali naquele momento ou dali a um século. O cheiro de sua mão ficaria no cabo da espada de qualquer jeito. Ele saberia. Diabos, ele já sabia desde antes de deixá-lo ali sozinho com a Tessaiga. 

Vamos acabar logo com isso. Suas pernas moveram-se em direção à espada repousada contra a árvore como se estivessem mais do que satisfeitas em obedecer ao comando. Se era para se desgraçar e nunca mais poder tocar na Tessaiga de novo, teria que valer a pena. Estendeu a mão para ela, que parecia aguardar... por ele.
 
 
 
 
 
 

Não estava mesmo gostando daquilo. Não era nenhum cheiro no ar, nem energia estranha... na verdade o ar da noite estava tão parado quanto ele mesmo se encontrava, próximo a trilha que subia por entre os rochedos íngremes daquela encosta. O limite daquela região terminava exatamente ali, mas o olfato agudo de Inutaishou se estendia bem mais longe. E não estava conseguindo sentir nenhum cheiro ameaçador. Isso era uma boa coisa, não?

Seu instinto chegava a lhe gritar que não, que na verdade era muito melhor que estivesse sentindo algo, por mais leve que fosse. Após alguns momentos de avaliação do terreno que circundava o rochedo ele escolheu uma das trilhas mais acessíveis e subiu por ela, até chegar a um ponto mais alto onde podia divisar a região que se estendia atrás daquelas montanhas. Mais um pouco ao longe era possível ver o começo dos pântanos sombrios além dos quais os dragões do clã de Ryukossei ainda se escondiam, levando em conta as últimas informações trazidas por Miyuga. Sabia que podia confiar nisso porque dificilmente a pequena pulga youkai errava, embora suas mensagens demorassem um pouco para encontrá-lo, já que dependia do transporte em outros youkais para se locomover por grandes distâncias. Mas Inutaishou já estivera naquela região e sabia que os dragões traiçoeiros continuavam mantendo sua concentração naquele ponto.

Mas se aquela era uma linha limitadora dos seus domínios, onde estavam os vigias? Deveria ter cruzado com pelo menos um deles em seu caminho. Não pudera sentir absolutamente resquício de youkai nenhum, dragão ou qualquer outro, e estivera viajando por um bom tempo desde que deixara Sesshoumaru para trás.

Havia algo muito errado no quadro geral. Era tudo estranho demais para seus sentidos apurados de daiyoukai. Era exatamente a ausência de qualquer coisa que acendia seu alarme interno, deixando-o com uma ansiedade insuportável. No alto do rochedo, fechou os olhos lentamente, e permaneceu imóvel, deixando que os instintos de youkai apreendessem tudo ao seu redor. Até o ar parecia tomado de vida própria, pesado mas inodoro... a não ser pelos cheiros comuns da floresta. 

Os olhos dourados se abriram e pela primeira vez em muito tempo Inutaishou foi tomado pela indecisão. Poderia descer a encosta e ir na direção dos pântanos, e assim averiguar se os malditos dragões ainda estavam lá ou se resolveram arranjar uma nova moradia... provavelmente em terras alheias, já que dificilmente poderia se lembrar de lidar com daiyoukais tão arrogantes e abusados quanto os dragões do clã de Ryuukosei. 

Subiu mais um pouco, procurando melhorar seu campo de visão. Poderia se transformar, sua visão na forma verdadeira era bem melhor... mas não fez isso ainda. Não se decidira ainda do que fazer. Um vento contrário balançou uma das peles que pendia de suas costas e esta atingiu-o na face, e ele afastou-a quase distraidamente, pondo-a de volta para trás. Isto lhe trouxe à lembrança a face do filho, uma face ainda infantil com olhos tão dourados quanto os seus, sempre olhando para ele tão inexpressivos. Isso só mudava quando focalizava na Tessaiga. Franziu o cenho sem notar. Não se importava que o teste que deixara para ele fosse tão obvio. Seria mais uma questão de força de vontade do que de inteligência... já que aparentemente esta última não existia quando o assunto era aquela espada.

Parou se apoiando na reentrância de uma rocha, procurando afastar do pensamento essas distrações secundárias. Embora os fatos indicassem que não, sabia que tinha um problema e tanto nas mãos agora. Não era hora para ficar devaneando sobre filhos e espadas. Além disso já sabia que o menino certamente não resistiria. Submetera Sesshoumaru a uma façanha que ele mesmo não tinha certeza de ser capaz de cumprir, fosse ele mesmo colocado em situação semelhante.

De qualquer forma era preciso para que ele amadurecesse, fosse qual fosse o resultado.

O vento ali no alto era mais cortante e sacudiu seu longo rabo de cavalo com força, mas ele mal se deu conta disso. Seus olhos haviam acabado de captar algo lá embaixo que lhe chamou a atenção, e como sempre ele deu enorme atenção ao seu instinto.

Seu instinto lhe dizia para descer imediatamente, por isso, foi isso mesmo que ele fez, começando a descida de volta, enquanto os olhos impassíveis de seu filho pareciam acompanhá-lo como uma sombra triste e distante.
 
 
 
 
 
 

Os dedos pararam antes de tocarem no cabo da Tessaiga, e ficaram estendidos no ar à sua frente, hesitantes mas sem ousarem se aproximar mais da espada que na verdade ainda era maior do que ele. Sesshoumaru engoliu em seco, amaldiçoando-se internamente. Enfim recolheu a mão rapidamente trazendo-a junto ao corpo, e abaixou a cabeça, a humilhação de não conseguir fazer aquilo lhe pendendo nos ombros com peso insuportável. 

Fraco, pirralho, imaturo, um reles arremedo de filho. Ainda não conseguia enumerar adjetivos suficientes em sua cabeça para se descrever. O que ainda lhe restava? Ainda era um filho obediente pelo menos. Mas era a obediência ao pai que vencera a batalha dentro dele... ou o medo de nunca mais poder empunhar a Tessaiga?

Tanto fazia. De uma forma ou de outra ele saíra perdendo. Não diante do pai, mas diante de si mesmo. Seu olhar repousou tristemente na espada encostada no tronco da árvore antiga, e ele permitiu-se um suspiro de desalento, mas antes que pudesse sequer terminá-lo, sua cabeça se levantou de repente, alerta, os pêlos de seu corpo todo se arrepiaram e ele voltou-se, varrendo rapidamente a área em volta com olhar ansioso.

Seu coração martelava-lhe no ouvido enquanto ele deu alguns passos à frente, cheirando o ar em busca de algum indício que justificasse sua repentina sensação de perigo. 

Não havia absolutamente nada. Somente o cheiro da terra e da vegetação, e o dele próprio, seu próprio suor agora estranhamente temperado pelo medo.

Algo estava vindo em sua direção, algo enorme e assustadoramente desconhecido. Sesshoumaru não se moveu, e era estranho que seu único pensamento neste momento era que estava exposto ao risco da morte sem ter segurado a Tessaiga mais uma vez...
 
 
 
 
 
 

Inutaishou torceu o nariz, incomodado com o cheiro forte que emergia dos pântanos à sua frente. Descera as montanhas e penetrara no território de Ryuukosei, deixando de lado a parca diplomacia e tolerabilidade que existia entre os clãs de youkais inimigos, porque considerava aquela uma situação por demais estranha para ficar se prendendo a protocolos desnecessários. A falta de vigias na fronteira era mais do que o suficiente para lhe delegar direitos de entrar e investigar. E era isso mesmo que estava fazendo. 

A medida que adentrava mais e mais, mais se convencia que agira certo. Não havia cheiro dos dragões em parte alguma. E como os desgraçados fediam... por este motivo sempre fora relativamente fácil dominá-los. Sempre era possível sentir de antemão quando algum se aproximava. O cheiro desagradável dos dragões liderados por Ryuukosei na verdade era uma grande vantagem para o olfato apurado de um youkai cachorro como Inutaishou.

Não precisava entrar na área do enorme pântano para saber que não havia nenhum escondido ali, sob a água lamacenta e escura. Percorreu a beira das margens do rio que nascia ali perto, onde a água escura dos pântanos começava a clarear e seguia seu longo curso que chegava até além dos limites das terras dos dragões. 

Do outro lado das montanhas, ele sabia que a água seria transparente, límpida e já livre de qualquer resquício daquele pântano sujo e lamacento. 

Chegara a considerar por um momento a idéia de que os dragões pudessem ter atravessado a fronteira usando o rio... mas ali ele ainda era quase um riacho e definitivamente raso demais para que youkais enormes como aqueles pudessem nadar neles... ainda que eles fossem youkais essencialmente aquáticos.

Seu instinto ainda não se calara mas amainara um pouco. Inutaishou podia ver que os dragões haviam deixado o lugar, mas com certeza não haviam atravessado a fronteira no lado que lhe pertencia. O não deixava de ser um fato preocupante de qualquer jeito.

Foi antes de dar a volta para começar a retornar para seu lado do território que o pensamento mais terrível lhe atingiu como o golpe afiado de uma espada, gelando seu sangue e paralisando-o no lugar. Ele abaixou o olhar para os próprios pés, onde suas botas estavam mergulhadas até quase a metade no terreno lamacento à beira do pântano.

Debaixo de seus pés, a pista mais óbvia parecia lhe acenar cruelmente agora. Não que ela não tivesse lhe acenado antes quando a avistara da montanha, afinal fora isto que o fizera descer até ali para começar. Mas fora preciso que estivesse em pé exatamente em cima dela para que tudo se clareasse em sua cabeça.

Sua energia subiu imediatamente em resposta, e já na forma de cachorro, Inutaishou começou a correr. Os grunhidos que lhe escapavam da boca aberta de caninos à mostra formaram uma palavra inteligível, emitida em tom de desespero, porque era a única palavra que tomava sua mente naquele exato instante.

Sesshoumaru!
 
 
 
 
 
 

Finalmente o cheiro o atingiu, forte, pungente, quase o fazendo desmaiar. Mas ele conseguiu se manter firme. Nem era capaz de calcular quantos youkais estavam vindo em sua direção, porque o fedor que vinha à frente deles entorpecia seus sentidos enormemente. Infelizmente só poderia dispor dessa informação quando os visse com os próprios olhos. Não podia dizer que ansiava por este momento. Mas só então poderia avaliar as próprias chances de sobrevivência diante do confronto iminente.

O cheiro repugnante surgira abruptamente na área próxima ao rio que corria ali perto e se aproximava dele cada vez mais rapidamente. Sesshoumaru não fazia idéia de como isso era possível, mas não era tarefa dele agora pensar a respeito.

Inconscientemente deu alguns passos para trás, a dolorosa consciência da Tessaiga ainda encostada no tronco da árvore atrás de si lhe atingindo junto com uma sensação de impotência. 

Nem podia começar a pensar nisso agora...

Quando os três dragões finalmente aportaram à frente da clareira, três pares de olhos vermelhos como o inferno concentraram-se na figura de um menino de cabelos brancos na altura do ombro, kimono branco e vermelho e pele de cão por cima do ombro direito, ainda pequenina, pois se tratava apenas de uma simples criança youkai.

O dragão maior enroscou o pescoço incrivelmente comprido e suas presas se arreganharam horrivelmente em um esgar que fazia as vezes de sorriso. Somente este possuía duas faces, e enquanto a cabeça de dragão exibia um sorriso macabro repleto de dentes pontudos, a outra face mais acima que se assemelhava a uma máscara humana branca mostrava um meio sorriso irônico mas satisfeito. 

Os outros dragões emitiram rugidos entre si e viraram as cabeças sinuosas para o dragão maior que obviamente era o líder, como se estivessem interrogando algo. O youkai dragão de duas faces ainda ostentava o sorriso quando lhes respondeu.

- Sim, é o filho do maldito. Aquele idiota deixou seu fedelhinho aqui para nos impedir de passar...  mas que cachorro mais arrogante e burro! – a cabeça que parecia mais humana riu abertamente, e os dois dragões menores rugiram acompanhando as risadas do líder com aqueles grunhidos insuportáveis aos seus ouvidos sensíveis de youkai cachorro. 

Sesshoumaru não mostrou nenhuma reação, mantendo-se no mesmo lugar como uma estátua viva. Atrás de si um pulsar chegou aos seus sentidos, mas agora não havia mais tempo para considerar se isso era uma boa coisa ou não. Ainda estava tentando digerir o inegável diante de si, que se apresentava na forma daquele youkai dragão tenebroso de duas faces que agora soltava sua gargalhada bestial, acompanhado dos youkais dragões menores.

Estava bem diante de Ryuukosei.
 
 
 
 
 
 

- Oyakata-sama!!! Oyakata-sama!!

O grande youkai cachorro não interrompeu a corrida desenfreada que fazia, seguindo o leito do rio que ia ganhando uma largura cada vez maior, em velocidade acelerada. Sabia que poderia correr mais rápido na sua forma realmente gigante, mas estava guardando energia para quando tivesse que lutar... precisaria dela com toda a certeza.

- Fale, Myuga... Estou um pouco ocupado como pode notar! – grunhiu, sem desviar a atenção do caminho, às vezes pulando de um lado para o outro da margem do rio, escolhendo sempre o lado de mais fácil acesso. 

- Meu senhor... – a pequena pulga lutava para se fazer compreender em meio aos movimentos de corrida de Inutaishou, prendendo-se a um de seus pêlos brancos e grossos – O Ryuukosei, ele vai...

- Eu já sei! Porque diabos acha que estou correndo desse jeito? – A pequena pulga encolheu-se ainda agarrada ao pêlo branco, sentindo o tom explícito de reprovação na voz de seu amo – Ryuukosei e seus dragões malditos passaram pela fronteira seguindo o leito do rio... por debaixo da terra!

- Isso mesmo senhor! Como o senhor descobriu?

- Vi as depressões causadas pelos buracos na margem do rio, no território deles. Mas demorei para perceber isso! – Myuga agora podia compreender que a rispidez no tom de voz de Inutaishou não se dirigia a ele, mas a si mesmo. A face do enorme cachorro não expressava emoções mas a pulga youkai conhecia seu amo. Devia estar se culpando por não ter sido capaz de descobrir a verdade mais cedo. E aquela urgência toda, só poderia ser...

- Oyakata-sama, o seu filho, ele...

Não precisava mesmo de resposta, mesmo porque não houve nenhuma. Agarrou-se ao pêlo com mais força e fechou os olhos, enquanto Inutaishou aumentava ainda mais a velocidade com que cortava a distância que o separava do lugar onde o deixara. Sozinho, ainda tão jovem, com os poderes só começando a se manifestar, e com uma ordem implícita de não tocar na espada que deixara aos seus cuidados.

Mais um motivo para se revoltar consigo mesmo, como se já não tivesse o bastante. Bela hora escolhera para testar a capacidade de obediência de seu único filho, não?

De certa forma sabia que já era tarde demais para chegar até ele antes dos dragões, obviamente, mas ainda havia uma coisa que talvez pudesse virar aquele jogo.

Sesshoumaru... esqueça o que eu disse! Se for preciso... use a Tessaiga! Pensou com todas as forças como se esse pensamento fosse capaz de alcançar seu filho e fazê-lo desobedecer a regra que poderia fazer a diferença entre a vida e a morte de Sesshoumaru.

E se não alcançasse, haveria alguns dragões a menos naquelas terras muito em breve.
 
 
 
 
 
 

- Então filhotinho do Inutaishou... preparado para morrer? – soou mais uma vez a voz odiosa do líder dos dragões, enquanto aquele pescoço longo e tão sinuoso se movia de um lado para o outro, provocante. Os outros dragões, ainda na mesma posição, um de cada lado do maior, apenas aguardavam, sem dar intenção de fazerem nada, na certa subestimando a capacidade do menino que cruzara seu caminho.

Sesshoumaru percorreu mais uma vez com o olhar todo o ambiente ao seu redor, buscando friamente uma solução para aquela situação tão desfavorável. Agora que o perigo se materializara na forma daqueles três dragões gigantes, uma estranha calma o invadira, até surpreendendo-o. Avaliou-os em conjunto, seu olhar nunca se desviando do maior, o único daiyoukai entre eles. Sabia disso por causa da face humana que ele ostentava acima da face da besta. 

Consciente de que os dragões menores estavam lentamente cercando-o, com uma sutileza que seria engraçada não dada a situação, Sesshoumaru não desviava o olhar daquela face branca tão acima dele. Nunca sua condição de criança youkai lhe amargara tanto na pele quanto agora. Sabia pelo que ouvira do pai que aqueles dragões, até mesmo Ryuukosei, tinham mais tamanho e pompa do que poder real. Ainda que estivesse prestes a enfrentar um daiyoukai, o problema maior com este era o fato de que era quase impossível matá-lo realmente. A maioria dos youkais que já o enfrentara antes acabaram sendo vencidos pela própria exaustão. 

Mas perto dele, Sesshoumaru, este enorme dragão que fedia mais do que o inferno de onde certamente emergira... era a criatura mais forte que já enfrentara até então. 

- Gostei de você, pirralho... – o maldito ainda sorria – Você me diverte. Já deveria estar se mijando de medo, mas olhem só para ele! 

As outras cabeças se voltaram em sua direção, investigativas, se aproximando perigosamente, mas ele se manteve imóvel sem ao menos piscar, aproveitando para estudar o movimento que aqueles longos pescoços faziam quando se moviam. Assemelhavam-se mais a vermes imensos do que qualquer outra coisa, e não pareciam ser tão ágeis quanto o líder. 

- Não acabem tão rápido – foi a ordem displicente lançada no ar – quero vê-lo sofrer um pouco. Não se esqueçam que este é o filho de Inutaishou. Dêem-lhe o tratamento adequado. – Ryuukosei recuou, mas apenas um pouco, abrindo lugar para que seus subordinados pudessem ter mais espaço para o que quer que tivessem em mente para ele.

Sesshoumaru nada fez até que os corpos escamosos e pesados se arrastassem para bem perto dele. Só então dignou-se a falar-lhes, sem ter certeza de que as criaturas o entenderiam.

- Não avançem mais. Voltem para o pântano. – esta voz firme e autoritária lhe soou irreconhecível, mas mesmo assim ainda era uma voz de criança. A reação foi a esperada: gargalhadas de Ryuukosei acompanhadas de grunhidos dos outros dois soaram no ar. O jovem youkai não se importou. Sentiu algo pingar no chão. Era o veneno que escorria de suas garras... começara a escorrer sem que ele se desse conta desde que os dragões apareceram como se fosse uma reação defensiva instintiva de seu corpo. Como as mangas de seu kimono eram mais compridas que seus braços, este pequeno detalhe estava oculto, por enquanto, do conhecimento dos dragões. Aparentemente também não haviam sentido o cheiro do veneno, ou Ryuukosei já teria soltado alguma piadinha imbecil sobre isso. Podia concluir então que além do olfato fraco, eles também não possuíam uma visão muito apurada. Todas essas informações passaram por sua mente em um curto momento, e ele não desperdiçaria nenhuma delas. 

- Ele não é engraçado? – O corpo enorme do dragão maior ainda era sacudido por risadas enquanto falava – Oh, mas claro, diante de uma autoridade como essa não temos como não voltar! – Os olhos vermelhos no entanto estreitaram-se – Moleque... ou você é muito burro ou maluco... ou se considerar filho de quem é, talvez os dois!

Mas já não havia ninguém onde antes estivera o menino com aqueles olhos que nunca piscavam. Ryuukosei piscou os olhos das duas faces, algo surpreso. Os outros dois dragões moveram as cabeças em direções contrárias, abertamente confusos. Aonde o fedelho youkai se metera afinal?
 
 
 
 
 
 

- Você tem certeza de que quer aprender isso, Sesshoumaru? Talvez ainda não esteja pronto.

- Tenho, chichi-uê.

- Devo lhe avisar que este truque gasta muito youki. Você ficará alguns momentos com energia muito fraca antes que possa recuperá-la ao nível normal, toda vez que usá-lo.

- Sim, eu compreendi, chichi-uê.

- Hum... vejo que está determinado então. Ás vezes você até me faz esquecer da idade que tem. Vou lhe ensinar. Este golpe é muito útil se você enfrentar um inimigo grande e vagaroso. Usando-o você é capaz de deixar uma ilusão de sua imagem em certo lugar por alguns momentos, enquanto já está em outro lugar diferente. Mas é o suficiente para confundir os sentidos do adversário por instantes, o que pode lhe ser de grande vantagem. O segredo aqui é a velocidade...

Sesshoumaru prestou atenção máxima ao que o pai explicava. Enquanto falava, Inutaishou não pode deixar de sorrir intimamente. Os olhos do filho nem piscavam, ele parecia-se mais com uma esponja viva, sugando todo conhecimento que pudesse. Não se lembrava do menino jamais ter declinado uma oferta para aprender algo, não importando a hora ou lugar. 

Duvidava no entanto que Sesshoumaru precisasse usar aquilo tão cedo, afinal, não passava de uma criança ainda. E o daiyoukai dificilmente o exporia a uma situação em que isso fosse necessário, pelo menos se ele pudesse evitar. 

A medida que continuava explicando, perguntou-se se o pequeno youkai estava prestando mesmo atenção. Independente disso, havia um sentimento dançando em sua alma que para ele era inteiramente novo, mas talvez fosse comum a qualquer outro pai em relação ao seu filho. 

Orgulho.
 
 
 
 
 
 

Quando foram capazes de localizar a sombra branca e rápida, já era tarde demais. Um dos dragões abriu a bocarra e começou a rugir de dor, o que deixou o outro dragão mais confuso ainda, e mesmo este começou a girar o pescoço em todas as direções à procura do alvo fugitivo. Logo, os dois estavam urrando em alto tom, o que deixou Ryuukosei deveras irritado. Porque tinha que aturar aquelas lagartixas fracas e patéticas ao seu lado? Depois se lembraria do motivo. Agora precisava achar o maldito moleque, antes que ele fosse o próximo a ser atacado...

Sesshoumaru reapareceu quase no mesmo lugar onde estivera a princípio. Sem perceber ele tentava ainda proteger a Tessaiga da atenção dos dragões. Aparentemente os grandes youkais não eram capazes de enxergar detalhes muito bem.

Olhou para os dois dragões que agora se arrastavam pelo chão, trombando um no outro, às cegas, filetes verde-esbranquiçados escorrendo de seus olhos agora cegos. Conseguira em dois golpes rápidos atingir-lhes os olhos com o veneno de suas garras. Injetara tanto veneno nos golpes que desconfiava ter que esperar um pouco antes de conseguir produzir mais do líquido esverdeado e mortal. Estava ligeiramente arfante e por um instante terrível pensou que fosse cair inconsciente. Isso seria sua desgraça, mas ele agüentou firme. Precisava de tempo para seu youki voltar ao normal depois de ter colocado em prática o que aprendera com o pai, e ainda estava surpreso de ter conseguido praticá-lo, sem nunca haver sequer tentado antes.

- Seu moleque maldito! – vociferou o daiyoukai, afinal esquecendo seus planos anteriores de se divertir um pouco mais às suas custas. Com os companheiros youkais fora de combate e se enroscando pelo solo às cegas, o novo plano de ação de Ryuukosei se traduzia em avançar em sua direção à toda, as duas faces transfiguradas por ira assassina.

Não havia tempo de se recuperar. Sesshoumaru fez a única coisa que era possível agora... estendeu a mão para trás e agarrou a Tessaiga pela bainha, e pulou para longe levando a espada junto ao corpo, procurando não pensar na estranha vibração que pulsava dela enquanto a pressionava protetoramente de encontro ao peito. A luz cegante que vinha acompanhando a explosão de luz que saíra da boca escancarada de Ryuukosei tomou tudo, cegando-o momentaneamente antes que o golpe devastador o atingisse em cheio, jogando-o para longe com a força do impacto. Aterrissou no solo pesadamente, a espada do pai ainda entre seus braços apertados e cruzados, uma dor aguda na cabeça desnorteando-o junto com a claridade insuportável. Nem mesmo tentou se mexer, e sabia que outro golpe estava a caminho, o golpe de misericórdia. O fim de tudo, e nem o veria chegar.

A espada pulsou mais fortemente entre seus braços, em uma última tentativa de tentá-lo a empunhá-la, o que talvez pudesse salvar-lhe a vida. Um som insuportável encheu seus ouvidos, mas era apenas a força de um pensamento que ainda conseguia ser mais forte do que tudo no último momento de sua vida.

Você ainda é um menino. Não pode empunhar a Tessaiga.

Antes de mergulhar de vez naquele pesadelo branco de luz e energia, teve a impressão de ouvir seu pai chamando seu nome. Mas até isso se perdeu enquanto era completamente engolido pela escuridão abençoada e silenciosa.
 
 
 
 
 
 

Inutaishou foi dominado por uma emoção ainda sem nome ao ver o clarão de energia mais à frente no caminho que percorria em velocidade desenfreada, e instintivamente mais uma vez seu corpo respondeu sozinho aumentando de tamanho para sua forma realmente gigante. As árvores agora mal chegavam aos seus flancos, e em mais duas passadas ele finalmente aportou na clareira onde o confronto do pior pesadelo jamais imaginado já chegava ao seu fim. Em um só olhar febril apreendeu tudo: Os dois dragões se enroscando pelo chão, aparentemente feridos e fora de ação, Ryuukosei quase que totalmente em pé com seu corpo sinuoso quase todo esticado, a bocarra aberta onde já se formava uma segunda bola de energia maligna... e embaixo dele, uma forma branca, no solo... seu filho, parecendo tão pequenino no meio de tudo que a insanidade acenou-lhe por um instante, quase fazendo-o perder o auto-controle.

Seu filho, sendo atacado por Ryuukosei. Seu filho! Um rugido estrondeante disparou por sua boca de cão youkai, e impulsionando-se sobre as enormes patas ele deu um gigantesco pulo, visando atirar-se na frente do golpe de luz já disparado pelo dragão maldito, e assim poupar seu filho de um segundo golpe, certamente mortal na condição vulnerável em que se encontrava. Não olhou para o corpo de Sesshoumaru enquanto aterrissava na frente do mesmo, bem a tempo de receber a bola branca de youki bem no meio de seu corpo de cachorro, e uma dor inesperada mas suportável atingiu-o graças ao ataque.

Não lutaria naquela forma. Sabia muito bem que o corpo de Ryuukosei era mais resistente que o aço. Acabaria por esvair toda sua energia antes de conseguir sequer causar algum dano ao bastardo. E por sinal, o desgraçado já preparava outra bola de luz para atingi-lo. Mas dessa vez estava preparado, e diabos se deixaria que aquele dragão fedorento causasse sequer mais um arranhão em Sesshoumaru. O terceiro golpe de Ryuukosei foi rechaçado por um contra-ataque de Inutaishou, que cortando o ar com sua garra gigante, mandou a bola de luz para bem longe, deixando um rastro de luz branca que abriu uma trilha reta e profunda por entre as árvores.

Sem querer esperar por mais um ataque Inutaishou voltou rapidamente à sua forma semi-humana, a mais adequada para enfrentá-lo dadas as condições. Conteve a duras penas o impulso quase irresistível de olhar para trás, conferir o estado do filho, sabendo que se fizesse isso acabaria com todas as suas chances de sair vivo daquilo. Tinha que dominar Ryuukosei o mais rápido possível, fazê-lo recuar para o canto sujo de onde nunca devia ter saído.

- Dragão imundo! – vociferou, já transformado de volta no youkai de armadura e pele de cão dupla, e mais do que rapidamente desembainhou sua terceira espada de trás de si, empunhando-a a frente desafiadoramente. – Como ousa atacar meu filho?

- Ora, calma, Inutaishou... seu filhote não está morto. – Pelo menos o dragão traiçoeiro parara de atacar, e até recuara, mas só um pouco. Sua postura de batalha, com o pescoço quase que totalmente esticado acima do adversário, não mudara, o que indicara que ele não tinha a menor intenção de voltar atrás. – Não fique todo mordido desse jeito, afinal foi ele quem começou, atacando meus companheiros como você já deve ter notado. Eu não iria deixar ele fazer a mesma coisa comigo.

A explicação era displicente e levemente irônica. Como se Sesshoumaru jamais tivesse chance de feri-lo de fato com o veneno que apenas começara a dominar. Mesmo assim, fora capaz de tirar de combate dois dragões de uma vez só. Só esperava ainda ter uma chance de poder dizer ao filho o quão idiotamente orgulhoso dele se encontrava. 

- Seu bastardo, você invadiu meu território! Descumpriu o trato como se não fosse nada! – Inutaishou estava quase rosnando as palavras, o sangue lhe fervendo as entranhas como nunca. Dificilmente poderia se lembrar de já ter sido tão tomado pela ira antes. - Meu filho agiu certo de tê-los impedido! Você vai pagar caro por ter feito isso!

A energia negra que já brotava da espada à sua frente começou a ficar mais forte. Uma leve surpresa passeou pela face branca do enorme dragão. Ele nunca usara a Soun´ga com Ryuukosei, simplesmente porque nunca houvera um confronto realmente decisivo entre eles até aquele momento. Mas há uma primeira vez para tudo, e este momento lhe parecia perfeito. O dragão idiota certamente não imaginava que teria um rival muito mais perigoso do que ele para enfrentar. O dragão negro que sairia de dentro da Soun´ga reduziria Ryuukosei a uma pasta de dragão estragado que cobriria metade do país.

Mesmo que nada soubesse sobre o golpe da Soun´ga, Inutaishou sabia que seu adversário ainda possuía um instinto apurado de daiyoukai, o mesmo que deveria estar lhe aconselhando neste exato momento não arriscar. Ryuukosei podia ser arrogante e traiçoeiro, mas não chegava a ser inteiramente burro. Antes que a face branca começasse a falar Inutaishou já sabia que não seria preciso mais lutar.

- Inutaishou, abaixe essa espada. Peço que contenha sua raiva, e pense bem no que é mais importante agora para você. Acho que podemos chegar a um acordo razoável, não acha?

Mais uma vez conteve o ímpeto de olhar para trás. Não podia se deixar distrair por nada neste instante, nem mesmo pelo cheiro pungente do sangue de seu filho que insistia em invadir suas narinas, como um aviso mórbido que seu tempo estava se esgotando perigosamente. Por mais que a ânsia de acabar com a raça de Ryuukosei comandasse por mais, sabia que era chegada a hora de negociar.

- Fale. – disse com voz contida, sem porém abaixar a Soun´ga, cuja energia negra continuava flutuando ameaçadoramente em torno de si. Um breve silêncio se seguiu, onde só o som do vento cortando as árvores em volta daquela região devastada pelas lutas anteriores chegava aos seus ouvidos. 

- Fico satisfeito que prefira usar a inteligência. Pois bem... nós dois sofremos baixas. Meus companheiros, embora meio inúteis, precisam de cuidados. Quero voltar para meu território junto com eles. Você também precisa cuidar de alguém, antes que seja tarde demais, não é?

Sentia o corpo tão quente de ódio que preferiu não responder algo tão óbvio. Embora estivesse com a espada mais perigosa empunhada em sua mão, era bem claro ali quem se encontrava em maior desvantagem. Se os dragões de Ryuukosei morressem, não seria grande perda para o daiyoukai. O que mais lhe interessava neste momento era recuar para o próprio território e assim ficar livre da ameaça misteriosa daquela espada em riste. Mas para Inutaishou, cada momento que passava diminuía as chances de sobrevivência de seu filho tão brutalmente ferido. Maldito, maldito... Não havia nada que pudesse fazer, e a raiva que queimava em suas veias fez com que a energia negra da Soun´ga se intensificasse um pouco, o que não chegou a preocupar realmente o enorme dragão, que continuou aguardando calmamente a resposta de Inutaishou.

- Você quer uma trégua. – constatou, tentando se controlar a todo custo. Fazendo pactos com um dragão pérfido como aquele... só esperava que seu filho ficasse bem ou pacto nenhum o impediria de perseguir Ryuukosei até o fim do inferno se fosse necessário.

- E se eu disser sim? 

- Nós voltamos para os pântanos agora mesmo, e fazemos um novo acordo de tolerância. Eu não vou mais tentar invadir seu território, nem meus dragões. Tem a minha palavra.

Ele soltaria uma gargalhada se pudesse. Como se isso valesse alguma coisa! Porém não tinha nenhuma escolha além de finalmente abaixar a espada e guardá-la de volta na bainha em suas costas, seu olhar nunca se desgrudando das duas faces do dragão acima dele, atento a qualquer atitude suspeita. Este era o sinal que Ryuukosei precisava para chamar os companheiros para voltarem pelo mesmo caminho de onde vieram. Os dois dragões ainda se mexiam desengonçados pelo chão, e seguindo a voz de seu líder, foram avançando de volta por entre as árvores, ate sumirem de vez na escuridão da floresta. 

Inutaishou finalmente virou-se para Sesshoumaru, abaixando-se ao lado do menino que ainda se encontrava desacordado. Sua cabeça repousava em um pequeno lago de sangue, e isto o tranqüilizou um pouco. Não fora o golpe de Ryuukosei que fizera aquilo, e sim o impacto com o solo, provavelmente em alguma pedra mais pontuda que ferira sua testa de mau jeito. Mas ele sabia que o primeiro golpe de energia atingira seu filho em cheio, e era a causa dele se encontrar em estado tão critico. 

Nem sabia direito como tocá-lo. Como só agora percebia o quanto seu filho era pequeno? Devia ser todo aquele sangue, e a posição de seu corpo, tão encolhido, com as mãos cruzadas diante do peito, ainda agarradas protetoramente... na Tessaiga.

Mesmo inconsciente seu filho continuava cumprindo a última ordem que ouvira de seu pai. Engoliu em seco, uma pressão enorme invadindo-lhe o peito. O remorso levava a melhor sobre ele, que faria de tudo para não ter escolhido justamente aquele dia para ensinar a Sesshoumaru uma lição tão dura. Acabara sendo mais dura para ele mesmo.

Primeiro retirou a espada de dentre seus braços, o que não encontrou resistência por parte do youkai desmaiado. Colocou-a automaticamente na própria cintura, e só então começou a erguê-lo o mais cuidadosamente que pôde, aninhando-o em seus braços protetoramente, tentando não pensar muito no quanto estava quente, graças à febre forte que já tomava seu corpo.

- Chichi-uê... – o sussurro fraco foi quase inaudível, até assustando-o, mas enchendo-o de esperança. Mas isso foi só até ver que provavelmente o menino estava delirando.

- Sesshoumaru... 

- Chichi-uê... – ele insistiu em voz mais fraca – Tessaiga...

Inutaishou não podia acreditar que esta era sua maior preocupação agora. Segurou o filho mais próximo junto ao peito, encostando o queixo em sua testa manchada de sangue e terra.

- A Tessaiga está aqui, Sesshoumaru... você a protegeu, como lhe pedi que fizesse. – sussurrou-lhe em tom gentil, procurando sufocar o estranho bolo em sua garganta.

- ... Tessaiga... não toquei... nela... – continuava murmurando o pequeno youkai, como se não tivesse ouvido o pai. – Não toquei... na Tessaiga...

- Eu acredito, filho. Não se preocupe... – Mas ele voltara a ficar totalmente inconsciente, como se houvesse acordado momentaneamente somente para prestar contas ao pai sobre a espada. Levantou-se lentamente com o corpo frágil e debilitado completamente seguro em seus braços. Hora de deixar aquele lugar maldito. Apertou mais Sesshoumaru contra si enquanto começava a correr pela floresta. Sabia exatamente para onde ir. Acima deles a lua cheia começara a se esconder entre as nuvens como se cansada de testemunhar os acontecimentos daquela noite. Também ele se sentia miseravelmente cansado. Não era todo dia que quase perdia seu único descendente. Deveria até se sentir agradecido por ainda haver vida pulsando do corpo entre seus braços. Olhou de relance para o rosto pálido de olhos fechados, como se dormisse, como se a febre violenta não estivesse tentando consumir sua vida. 

 – Vai tudo ficar bem, eu prometo. 
 
 
 
 
 
 

Aquela devia ser a décima vez aquela manhã que seu pai olhava para trás discretamente por cima do ombro. Sesshoumaru fingiu que nada percebeu, continuando a seguir o pai pela floresta. Ele deveria estar fazendo aquilo sem sentir. Não que se importasse. Mas já era hora de seu pai compreender que ele não corria mais risco nenhum. Não sabia exatamente como reagir com o jeito que seu pai vinha lhe tratando desde o incidente com os dragões. 

Passara por momentos horríveis, era verdade. Lembrava-se apenas de ter ficado preso em um longo sonho angustiante onde sua luta com vários dragões parecia nunca ter fim. Mas ele continuava lutando freneticamente, às vezes sendo atingido por golpes de luz intensa, em outros tentava usar o veneno de suas garras sem conseguir. Em outros momentos sentira-se completamente paralisado. De alguma maneira também sentira que a Tessaiga estava segura, porém essa preocupação nunca o abandonava. Havia também a lembrança de momentos quando se sentira tão seguro e aquecido que chegava a desejar nunca ter que acordar.

Mas eventualmente ele acordara, descobrindo-se envolto por algo macio e felpudo. A princípio achara que fosse sua própria pele de cão mas é claro que ela ainda não era grande o suficiente para envolvê-lo. Só então se dera conta que estava envolvido pela pele dupla de cão de seu pai. 

Ele olhara em volta enquanto tentara se sentar, mas não conseguiu de primeira. Estava dentro de uma pequena caverna. Não havia sinal de seu pai mas podia sentir o cheiro tão conhecido bem próximo. Não saberia dizer quanto tempo ficara desacordado... na verdade até estava um pouco surpreso de ter sobrevivido. 

Seu pai entrara na caverna assim que sentiu que ele acordara, e quando olhara para ele soubera que realmente estava tudo bem, por dois motivos. A Tessaiga estava de volta em sua cintura. E seu pai o olhara com uma expressão que jamais vira antes em sua face. Não saberia dizer o que era, nem traduzir em palavras. Era como se sentisse o olhar de seu pai sobre si pela primeira vez. Não se lembrava direito da noite da luta com os dragões. Estava tudo ainda um pouco nebuloso, embora algumas coisas fossem lhe voltando aos poucos. Mas devia ter feito algo realmente importante para causar aquela expressão.

Inutaishou lhe trouxera água e comida, ficara ao lado dele e podia se lembrar até de ter sido aninhado em seu colo algumas vezes, quando a febre se tornara alta demais até para que ele pudesse se manter de olhos abertos. Nestes momentos fora invadido por um estranho tipo de paz apesar do estado dos ferimentos em seu corpo.

Não haviam conversado na caverna em nenhum momento. Seu pai cuidara diligentemente dele durante vários dias, se ele contasse as vezes que acordara e vira a luz do dia invadindo a entrada da caverna. Mas só o silêncio reinara entre aquelas paredes úmidas do abrigo provisório que seu pai lhe arranjara. 

E agora era a primeira vez que saía ao ar livre de novo depois de tudo. Mas o olhar preocupado ainda repousava sobre ele de vez em quando. Mas o que estava lhe incomodando realmente não era isso. Era o silêncio estranho que se instalara entre eles. Sabia que seu pai não estava com raiva dele, afinal pelo que se lembrava ele não cometera nenhuma desobediência. Ele não tocara na Tessaiga, tinha certeza. 

Teve a sensação de estar voltando no tempo ao trombar com algo macio e felpudo. Mais uma vez se perdera em pensamentos e se distraíra o suficiente para não notar que seu pai parara de andar. Ele recompôs-se, mas Inutaishou não se virou com um sorriso divertido como da outra vez. Sesshoumaru apenas aguardou, de repente se dando conta que aquele era exatamente o mesmo caminho que fizeram no dia em que os dragões invadiram o território de seu pai. 

Seu pai recomeçou a andar e ele o seguiu, até que a floresta se abriu em uma grande clareira, cheia de falhas no solo e depressões no meio da vegetação, com árvores derrubadas e estraçalhadas por toda parte. Logo reconheceu o lugar. Fora ali que acontecera sua batalha com os dragões. 

- Sesshoumaru. – Ele ergueu o olhar para o pai, buscando sua expressão como sempre. Pronto, lá estava aquele olhar novamente. – Trouxe você aqui porque tenho algo importante para lhe falar.

Seu peito dava a impressão de querer explodir tamanha a ansiedade que o dominou, mas apenas aguardou, procurando disfarçar a surpresa ao ver o pai retirar as duas espadas da cintura, se abaixar e sentar-se de pernas cruzadas em um pedaço da clareira que não fora atingido pelos efeitos da luta, deixando as espadas do lado. Após alguns momentos de hesitação ele decidiu-se a sentar-se também ao seu lado, tentando esquecer que era a primeira vez que faziam isso. Inutaishou mantinha os olhos pregados na clareira destruída a frente deles. Quando voltou a falar, seu tom de voz era de estranho pesar.

- Sabe, Sesshoumaru... toda vez que lembro daquela noite não consigo evitar pensar que poderia ter perdido meu único filho, por causa de um teste completamente desnecessário. Digo desnecessário porque eu deveria ter aprendido a confiar mais em você. Por causa de uma insensatez minha, você teve que passar por tudo isso.

Sesshoumaru não podia acreditar que seu pai evitava olhar em seus olhos. Tentou falar algo, aproveitar a pausa que ele fizera para lhe dizer que estava tudo bem, que jamais o culpara, que nada disso importava... porém as palavras que já não costumavam vir facilmente para ele, desta vez não foram exceção e ficaram dolorosamente presas em sua garganta.

- Eu senti muito medo também... – continuou seu pai, ainda sem encará-lo – medo de não conseguir chegar a tempo de consertar a besteira que fiz... medo que você não sobrevivesse. Medo que você se fosse sem que eu pudesse lhe dizer o quanto estou orgulhoso de você. 

Os olhos dourados de seu pai o encaravam diretamente agora, e por um breve instante ele quase se esqueceu de respirar. Mas ele ainda não terminara.

- Aquela era uma situação extrema de perigo, e se você tivesse usado a Tessaiga, eu jamais o censuraria. Ainda mais se isso pudesse evitar que se ferisse tanto. Mas... mesmo assim você não usou a espada, e ainda a protegeu com sua vida, conseguindo além disso derrotar dois inimigos muito fortes. 

Sentiu o rosto queimar fortemente. Seus olhos arderam. Novamente parecia que voltava no tempo, mas em circunstâncias totalmente diferentes.

- Sesshoumaru, desculpe-me por ter esperado tão pouco de você. Posso dizer que você superou todas as expectativas que eu jamais poderia ter de um filho. E desculpe-me por ter falhado com você.

- Chichi-uê... – finalmente as palavras saíram, quase como se tivesse enfim aprendido a expulsá-las de dentro de si. Algo acabara de clarear em sua cabeça nesse momento e ele sentiu necessidade de manifestar isso  - O senhor... me salvou no último momento. Eu me lembro.

- Não, não salvei. Quem salvou você foi a Tessaiga. 

Demorou a apreender o real sentido do que escutara. Será que ainda estava sonhando? Talvez ainda se encontrasse naquela caverna e sua imaginação estivesse lhe pregando peças. A brisa fria daquela manhã tocou sua face como que para lembrá-lo que aquilo estava mesmo acontecendo. Estava vivo, e seu pai sentia orgulho dele. E a espada que tanto desejava para si salvara sua vida. 

- Você não teria sobrevivido ao golpe de Ryuukosei se a Tessaiga não estivesse com você. Ela o protegeu, Sesshoumaru, assim como você a protegeu. E para mim, isso é o suficiente para que eu saiba que você já é digno de empunhar esta espada.

Como em um sonho, viu seu pai pegar as duas espadas de volta e levantar-se, e uma mão foi estendida em sua direção para auxiliá-lo a se levantar também. Deixou a mão forte de seu pai engolir a sua, e ergueu-se, receando que seus pés não agüentassem o peso de seu corpo e de sua emoção. 

Mas de fato eles agüentaram. E sua mão também agüentou segurar a Tessaiga sem tremer, os dedos pequenos e finos envolvendo o cabo com tiras de couro puídas como se fosse um tesouro muito raro. Mesmo velha e falhada, a lâmina pareceu brilhar intensamente por um instante enquanto ele a erguia diante de si. Em seu peito agora havia um calor novo que poderia arriscar chamar de felicidade.

A espada não se transformou em sua mão... mas isso não importava. Seu pai começava a lhe explicar sobre cheiros, ventos, youki e como tudo aquilo se relacionava com a espada que segurava nas mãos ainda pequeninas, e como sempre, ele prestou a máxima atenção. Podia ser apenas um menino ainda, mas estava bem certo de duas coisas: seu pai e aquela espada eram as coisas mais importantes de sua vida.

Nessa ordem.
 
 





~ Fim ~

 


Fanfic por Lalachan, novembro/2004
Nota: Dedicada com carinho à Ana-chan, amiga e colega de obsessão por uma certa família de cachorrinhos. ^_^
Copyright: Rumiko Takahashi/Yomiuri TV/Sunrise/Shounen Sunday
Glossário:

Chichi-uê: forma antiga e respeitosa de se dirigir ao pai, quer dizer algo mais ou menos como: "papai que está acima de mim" ^_^
Daiyoukai: como são chamados os youkais mais poderosos.
Oyakata-sama: Forma respeitosa de se dirigir a um líder, general, soberano.
Youkai: criatura sobrenatural da mitologia japonesa, um tipo de espírito da natureza, que pode derivar de figuras de animais ou plantas.
Youki: energia sobrenatural dos youkais
Voltar a Inuyasha Fanfics