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Fanfic por Lalachan
Eu sou aquele que dá o primeiro passo. Ele me acompanha. Talvez seja este meu destino como irmão mais velho, sempre mostrar o caminho, já que seus passos são vacilantes demais para que o encontrem por si próprio. Não importa que esse caminho o leve para a morte. Que seja eu a fazer isto ao invés de algum de seus inimigos. E mesmo esta atribuição poderia ser considerada um privilégio para ele... e um fardo para mim. Meu primeiro passo é seguido por outros, até que ficamos frente a frente. Mas não muito próximos, ou seria por demais insuportável. Posso sentir seu cheiro assim como com certeza ele deve sentir o meu, ainda que meu olfato seja infinitamente superior ao dele. Seu suor não cheira a medo. Talvez seja por demais estúpido para alcançar a verdadeira noção do que está prestes a acontecer. Não chamaria isto de coragem. Apenas de confortável ignorância... para ele é claro. Que continue assim, e que chegue ao fim de sua patética existência da mesma forma como a começou. Porque dessa vez, não serei misericordioso. Não que eu jamais tenha sido. Complacente seria uma palavra mais apropriada. Essa vez é a vez definitiva. Não haverá dois youkais de pé no fim desta luta. Somente um, e serei eu. Nada de hesitação. Não tenho nenhuma dúvida. Ele está forte agora, mais forte do que jamais conseguiu ser. Reconheço isso. Olhando para ele, encontro olhos que me encaram sem medo, confiantes em uma superioridade que ele jamais poderia sequer sonhar em alcançar perante mim. Pobre tolo. Até mesmo um sentimento tão baixo como a pena seria bom demais para ele. Não me olha com medo ou raiva. Somente me encara, a mão direita pousada sobre o cabo de sua espada. Não vou olhar para ela. Esta lâmina que contem o poder e o canino de meu pai. Até hoje, mesmo depois de tudo, depois de tanto tempo, olhar para ela me causa um ódio profundo demais para que eu consiga traduzir com palavras. Tessaiga. O nome da espada que me foi negada e herdada por meu irmão mais novo...esta palavra dança em meus lábios sem nunca ser pronunciada. Pois dizê-la soaria como implorar... e eu nunca implorei por nada. Não... esta espada é minha por direito, sempre foi. Mas deixe que fique com ela no fim, pois nenhum valor teria derrotá-lo sem que ele a empunhe nas mãos. Quero vê-lo morrer com a espada que é minha em seu punho. Que seja enterrado com ela. Que eu nunca mais tenha que olhar para sua cintura e vê-la ali... como um lembrete cruel de que ela não foi a única coisa negada a mim. Destruí-lo não vai apagar ou alterar o passado, mas pelo menos nunca mais serei obrigado a aturar sua miserável existência, esta aberração cujo nascimento causou a morte da única pessoa que eu considerava forte. A única pessoa sobre a face da terra que eu jamais considerei digno de andar com o queixo erguido, pois quando você é o mais forte de todos não tem nada a temer. Chichi-uê. Para ele eu sempre abaixei minha cabeça, até que chegasse o momento de enfrentá-lo e receber minha merecida herança: a Tessaiga. E por este momento eu teria esperado o tempo que fosse necessário. Fossem séculos, milênios, não importava. Mas uma mulher humana e sua cria de sangue imundo mudaram tudo. O destino do youkai mais poderoso da face da terra foi totalmente transformado e abreviado com um fim estúpido, indigno. E isso me deixou com um vazio que nunca será preenchido de novo. Eu possuía um destino muito claro à minha frente: A honra inimaginável de um dia poder olhar meu pai frente a frente, como adversários à altura. Você, Inuyasha... conseguiu com sua simples existência tirar tudo isso de mim. Meu destino agora já não é tão claro diante de mim, como se uma névoa o encobrisse querendo me ludibriar a seguir o caminho errado, um desvio do meu verdadeiro objetivo: Ser o mais forte de todos os youkais. No entanto eu sei o que preciso fazer para que o caminho se mostre claro novamente. Desembainho a Toukijin, erguendo-a à minha frente, apontando para ele. Sua energia sinistra pulsa ao seu redor, querendo se sobrepor à minha, mas com facilidade eu a domino. É quase instintiva a maneira como sempre subjuguei a força dessa espada. Eu só espero que ela não me falhe agora. Algo estranho me percorre por dentro, como um sentimento intruso a me ofuscar a razão. É a raiva... ela queima em cada veia de meu corpo, aumentando minha energia, reagindo junto com a aura da minha espada. Eu me controlo, porque esse não é o momento para sentimentos tolos e dispersivos. Não há troca de palavras. Não há insultos, provocações, ofensas jogadas ao vento... acho que ambos sabemos que neste momento compartilhamos algo que não necessita de palavras. Sabemos porque estamos aqui, e para que. Conheço perfeitamente meus objetivos. Será que ele conhece os dele? Saberá porque perecerá neste lugar? Inaceitável para alguém com um mínimo de honra morrer sem saber porque está morrendo. Mas eu lhe concederei esta dádiva. No derradeiro momento, o farei saber o porque de seu destino pertencer a mim para que eu o encerre de uma vez por todas. Desde o momento em que nasceu, Inuyasha... seu sangue imundo e misturado de meio-youkai está destinado a escorrer por minhas garras. Não terei mais que viver o resto de minha vida sabendo que o sangue de meu pai corre também em suas veias, vivo, quente, poderoso... De que lhe adianta sangue tão forte se você não é capaz de mantê-lo correndo em seu corpo sem que isso o leve perigosamente perto da auto-destruição? Mais uma prova clara de que este sangue não pertence a você, nunca pertenceu. Consertarei este erro. O sangue de meu pai que corre em você voltará ao seu lugar de direito... por entre meus dedos. Um fim distorcido mas estranhamente justo ao meu ver. Ninguém mais além do seu irmão tem o direito de tirar sua vida, e eu mataria qualquer um que se atrevesse a sequer tentar fazê-lo. Mas logo não precisarei mais me preocupar com isso. Ele brande a Tessaiga que já se transformou. Eu aponto a Toukijin e tomo posição. Uma estranha calma me invade. Tudo parece acontecer mais devagar. É como se o que acontecer daqui pra frente já estivesse definido e eu não precisasse me preocupar com mais nada. As lâminas se chocam em um movimento quase simultâneo quando atacamos. Eu deixo que ele defenda alguns golpes antes de começar a atacar de verdade. Não há pressa. Uma morte rápida é boa apenas para os extremamente fracos... quero que ele veja a morte lhe acenar antes do fim. O combate segue por um tempo que poderia ser muito longo ou muito curto... não saberia avaliar já que todos meus sentidos estão focalizados nessa luta final com meu meio-irmão. Eu sigo atacando e me defendendo uma vez ou outra em um ritmo que para mim é fácil manter. Para ele no entanto, o cansaço e a fadiga já mostram um leve sinal, acentuado pelos golpes que minha espada tem lhe causado. Só me dou conta que estamos lutando há muito tempo quando sinto o sol desaparecer no horizonte. A noite cai rapidamente espalhando a escuridão de uma noite sem lua por toda parte. A Tessaiga agora não passa de uma lâmina enferrujada e inútil em sua mão, mas o humano que tomou o lugar de meu meio-irmão bem diante de meus olhos continua lutando como se nada tivesse acontecido. Eu franzo a testa, algo contrariado. Estúpida fraqueza dos hanyou. Isto não estava nos meus planos. Mas como adiar um momento tão decisivo como este? Impossível. Talvez a ironia sirva bem ao desenrolar dessa situação. Meio-youkai ou humano, não há muita diferença realmente. Por que hesitar agora? Não deixarei que nada se interponha em meu caminho. Com um golpe mais violento da Toukijin a Tessaiga voa de sua mão indo cair bem longe no meio da grama alta. Ele nem ao menos olha para ver em que direção foi sua espada. Talvez porque saiba muito bem que agora ela é tão inútil para ele quanto um pedaço de pau. Como eu havia previsto, existe somente um youkai de pé agora, e sou eu. Ele está deitado no chão à minha frente, subjugado pelo último golpe da Toukijin, enquanto os cortes em sua pele começam a sangrar mais livremente, agora que não há energia youkai para retardar seus efeitos. Aponto minha espada para seu pescoço enquanto seu olhar sangrento continua preso no meu, sem nem piscar. Ele não vai implorar. Não que isso adiantasse alguma coisa. Antes que eu me dê conta, já guardei a espada de volta em minha cintura. Uma leve surpresa passeia em seu olhar, que ele logo trata de disfarçar enquanto se levanta pesadamente, ficando de pé a minha frente. Mesmo derrotado, mesmo subjugado, ele não abaixa o olhar. Continua me encarando em desafio, como se a vergonha da derrota não lhe pesasse nem um pouco nos ombros. Sinto a raiva voltar com toda a força, ameaçando me cegar os sentidos. Hanyou maldito, que deveria se postar de joelhos diante de mim e implorar por sua mísera vida. Como ele ousa me desafiar desta maneira? Como pode olhar bem dentro dos meus olhos, como se tivesse tal direito? Pare de me olhar, ou esquecerei que neste momento apenas um corpo fraco humano se interpõe entre minhas garras e sua vida. Não suporto ter que olhar para esses olhos escuros, cheios de um brilho animal e sedentos por vingança. Minha mão por fim se move sozinha. Quando dou por mim minhas garras já se cravaram em volta de seu pescoço. Como a carne é fraca e mole ao contato, como é fácil terminar logo com isso, então porque não o faço? Esses olhos... são esses olhos que não me deixam raciocinar. Eu os fecharei para sempre. Ele não reage quando as garras se enterram na pele, nem quando o veneno que escorre delas invade seu corpo pelos ferimentos. Seu olhar febril, quase insano não se desvia do meu nem mesmo quando o seu pescoço é quebrado, produzindo um som seco que ressoa muito alto na noite escura. As pálpebras finalmente se fecham suavemente, seus lábios se entreabrem deixando escapar o último suspiro de alguém que jamais deveria ter dado o primeiro. Está acabado. Basta largar o corpo no chão e ir embora. Mas algo me impede. Algo não está certo. Sinto uma energia diferente. Não é mais o corpo de um humano que pende de minhas garras manchadas de sangue. O cheiro também mudou. Mas, como...? Isso é impossível. Antes que possa sequer pensar a respeito, os olhos se abrem de repente, não mais escuros, agora há fogo líquido de ódio dançando nas íris carmim. Os cabelos voltaram a ser brancos, e listras arroxeadas cortam agora cada uma de suas faces. Os caninos cresceram e se pronunciaram para fora de sua boca, ajudando a completar a figura da completa insanidade em que ele se tornou. Sua energia de youkai aflora como uma nuvem negra à sua volta, agressiva, assassina... e eu sou o alvo dessa ira. E eu ainda o seguro pelo pescoço firmemente, e nada posso fazer além disso, enquanto sustento seu olhar enlouquecido e sedento por sangue. Posso ouvir rosnados animalescos cuspidos por entre os dentes pontudos, mas da mesma forma que estou preso a ele, ele também o está a mim. Minhas garras ainda estão cravadas profundamente em seu pescoço e o mantenho longe o suficiente de meu corpo para que suas próprias garras consigam me alcançar com alguma eficácia. Não sinto medo. É incrível, por que nesse caso o medo nada mais é do que uma ferramenta para se manter vivo, o que pretendo na medida do possível. Mas a mesma mão que o segura no ar seria aquela a empunhar a Toukijin, que continua descansando em minha cintura, onde ela jamais deveria ter sido deixada desde que essa luta começou. Cometi um erro. Fui enganado por uma ilusão de uma noite, e isto talvez me custe muito caro. Este youkai louco que já foi meu meio-irmão começa a se debater de sua prisão forçada, enquanto seu olhar continua fixo em mim como os olhos de uma serpente aguardando o bote. Não posso largá-lo. Não tenho certeza se alcançaria a minha espada a tempo antes que fosse tarde demais. Continuo segurando-o enquanto penso freneticamente no que fazer. Dor... talvez ela sirva para eu acordar desse pesadelo. É o que acontece quando os dentes pontiagudos dele se cravam com gosto na minha mão, fazendo o sangue correr vívido por meu braço até encharcar a manga branca de minha roupa. Para reforçar o ataque ao meu braço ele começa a lançar golpes com as garras afiadas, e lanhos profundos vão surgindo na pele, fazendo o sangue respingar também no solo. Que irônico que seja também meu sangue a manchá-lo. Não há mais tempo para divagações sobre sangue e braços a menos... a aura negra em torno dele se intensificou e em breve não haverá mais nada que possa mantê-lo longe. Não tenho outra alternativa. Minha energia sobe de repente, me envolvendo em um delirante redemoinho que me faz crescer cada vez mais, até que o estou olhando muito de cima. Não há tempo para ficar atônito com a maneira como ele ainda permanece grudado à minha pata direita, os dentes querendo se enfiar mais e mais, porém agora ele não passa de um pequeno inconveniente para mim. Eu solto um rugido libertador e abaixando a cabeça num movimento rápido cravo meus dentes em sua cintura, elevando-o no ar, sacudindo-o um pouco como um predador faria com uma presa rebelde, até que finalmente o lanço bem longe, fazendo-o aterrissar no meio do mato alto com um som surdo. Sinto o veneno em minha boca, pingando de meus dentes, como se meu corpo de youkai completo estivesse antecipando mais perigos, mas eu me controlo e começo gradualmente a voltar à minha outra forma. Afinal não esqueço das conseqüências de lutar contra Inuyasha como youkai cachorro, mas sem dúvida poder usar desse artifício em um momento tão crítico valeu mais do que a pena o risco. Depois da transformação eu sinto minha respiração e youki voltarem ao ritmo de sempre. Levo a mão à Toukijin, evitando olhar para os ferimentos sangrentos que ele me causou no braço. Nunca a consciência da falta do braço esquerdo me atingiu tão fortemente quanto agora, mesmo que eu seja capaz de passar muito tempo sem me lembrar disso. Dentro de instantes isso também já será parte do passado. Não cometerei o mesmo erro duas vezes, muito menos um que quase me custou o braço que me resta. Sem falar em minha vida. Em passos calmos cruzo a distância que me separa do corpo estendido no meio da vegetação alta, até que estou bem diante dele. Ergo a Toukijin, preparado. Ele esta imóvel, e posso ver que já voltou à forma de meio-youkai, embora a lua continue escondida no céu e o amanhecer ainda se encontre distante. Nada disso importa realmente. - Inuyasha. Levante-se. – eu digo em tom frio, e aguardo. Nada acontece. Sei que ele não está morto, talvez só inconsciente. O cabelo jogado por cima da face virada de lado impede a visão de seu rosto, mas sei que não está morto pois ele não cheira como um cadáver. Pelo menos ainda não. Espero com paciência até que o corpo se mova levemente, e ele se ergue. Há um lago de sangue a seus pés. Lanhos enormes cortam sua roupa na altura da cintura, é possível ver os ferimentos expostos por onde sua vida se esvai. Seu rosto não está mais desfigurado pelo sangue de youkai completo, mas o olhar continua cheio de ódio em minha direção. De repente ele sorri... um esgar pavoroso e sangrento que me gela por dentro, mas eu permaneço calmo, a espada em riste em minha mão. Mesmo depois de tudo ainda tenho certos escrúpulos em matá-lo enquanto ele esta desarmado. Não há senso ou inteligência nesse principio, mesmo que ele quase tenha chegado bem próximo de realmente acabar comigo. Ele nota minha imobilidade, e o sorriso se alarga, como se as situações estivessem totalmente opostas. - Se está sorrindo porque acha que não sou capaz de te matar, então morra com esse sorriso nessa sua cara imunda de meio-youkai. – é o que sai dos meus lábios, como se eu sentisse necessidade de agredi-lo de alguma forma, talvez arrancar-lhe alguma reação que possa me levar a terminar com isso de uma vez por todas. Ao que parece a ofensa fez efeito pois ele avança em minha direção com as garras afiadíssimas visando meu pescoço ou qualquer outro lugar vital de meu corpo. Sinto o impacto de seu corpo de encontro ao meu, sua face quase se cola a minha, quando ele é empalado pela Toukijin. Posso sentir a vibração satisfeita da espada ao ter o sangue de Inuyasha lambendo sua lâmina. É algo selvagem demais para eu administrar no momento, e com um movimento vigoroso eu o empurro para longe, mas incrivelmente, ele não cai. Antes que eu possa parar para pensar no quanto este tipo de resistência é anormal, eu o perfuro mais uma vez com a minha espada, depois outra, mais, incontáveis vezes... até que por fim o corpo cai desfalecido no chão como um trapo sem vida. A Toukijin ensangüentada continua pulsando como nunca, inebriada pelo sabor do sangue do inimigo, mas eu a deixo de lado. Não há mais necessidade de precaução, pois agora sei que ele realmente está prestes a morrer. Eu espero até que seu cheiro mude, e quase posso ver a vida esvaindo de seu corpo acabado. O silêncio envolve tudo, pesado e significativo. Mas o silêncio não é absoluto. Um pulsar vem de dentro... são as batidas de meu coração que parecem ressoar em meus ouvidos. Este é seu fim, Inuyasha. Cumpri seu destino. Ele estava selado desde o momento em que abriu os olhos neste mundo. Finalmente estou livre para reencontrar meu próprio destino também. Eu viro as costas para o corpo sem vida, sentindo uma brisa morna acariciar minha face, como um consolo para os momentos tensos de há pouco. Estranho... onde está a paz que eu persegui por tanto tempo, paz esta que me era devida depois de eliminar a única coisa que perturbava meu espírito? Está tudo terminado. Mas o vazio ainda está lá... como uma dor latejante e constante, incrivelmente agora mais forte do que antes. Como um braço cortado que continua a doer mesmo depois de tanto tempo. Quero me afastar daqui. Deixar este lugar de morte e sangue, limpar o sangue de minhas vestes e de minha mão, que já começou a secar mas me faz sentir imundo por dentro e por fora. Estou coberto pelo sangue de meu inimigo morto, mas isso só me causa nojo e mal-estar. Definitivamente nada está saindo como eu havia imaginado, mas talvez... talvez eu só precise de tempo para me acostumar com minha nova liberdade. - Sesshoumaru... Eu não me viro mesmo que o som dessa vez tenha me congelado no lugar tão poderosamente. Pois não é a voz do Inuyasha... ressurgindo de sabe-se lá que inferno. Não... é uma voz muito conhecida, mesmo que não a ouça há séculos. Chichi-uê...? Nenhum som sai dos meus lábios enquanto eu me volto lentamente. Seu cheiro me atinge prontamente, não deixando nenhuma dúvida sobre quem está estendido no chão no lugar de meu irmão morto. Um cheiro de couro e pêlo molhado de sangue, e um mais familiar que desperta uma tristeza nostálgica e pesada na alma... se é que possuo uma. Meus pés se movem sozinhos até a figura ensaguentada no chão. Não é uma ilusão. Eu não estou ficando louco. É realmente meu pai quem se encontra prostrado no chão. Com um só olhar eu capto todo o quadro... a pele dupla e felpuda de cão espalhada ao seu redor, o cabelo tão longo, solto de seu usual rabo de cavalo, com mechas encharcadas de sangue aqui e ali... A armadura quebrada em várias partes, o rosto coberto por cortes e ferimentos, e o pior de tudo... o corte aberto, enorme, em sua cintura, por onde o sangue ainda flui como água. Este corte não foi feito por mim. Foi causado por Ruykosei. No entanto mesmo repetindo isso em pensamento várias vezes, me soa como uma mentira que estou tentando contar a mim mesmo. E eu não acredito nela. - Chichi-uê... – eu consigo murmurar, me ajoelhando ao seu lado, as palavras presas em minha garganta, incapaz de fazer coisa alguma que não seja olhar para aquele corpo debilitado, horrivelmente ferido, prestes a ser abandonado pela pouca força vital que ainda lhe resta. Meu coração de youkai falha uma batida ou duas quando a mão dele se agarra à minha, puxando-me de encontro a ele, para ouvir algo... Ele quer falar, e mesmo que eu não tenha certeza de querer ouvir, não tenho outra escolha a não ser aproximar meu ouvido de seus lábios. - Sesshoumaru, você conseguiu – ele sussurra, um fio fino do líquido vermelho escorrendo pelo canto de seus lábios. - meu sangue...está em sua mão. Sua mão pende da minha, batendo no chão e lá ficando imóvel, assim como o resto de seu corpo. Desta vez para sempre. Olhando para minha própria mão, eu vejo que é verdade. Há sangue, muito sangue mesmo nela. Eu jamais conseguirei limpá-lo não importa o quanto tente. Permaneço olhando para o cadáver de meu pai, tão imóvel quanto ele. Uma eternidade se esvai e eu não consigo pensar em mais nada, mas posso ouvir ao longe alguém gritando em total desespero. Talvez seja eu mesmo.
Abro os olhos lentamente e vejo que pouco tempo se passou. Na verdade foi apenas um cochilo rápido. Não há ninguém à minha volta, felizmente, porque não tenho idéia de que forma este pesadelo se manifestou através de minhas reações, ou não... Bem melhor que eu jamais venha a saber. Um cheiro conhecido se aproxima. Eu não me mexo da minha posição, continuo sentado na pedra larga, e logo o cheiro se personifica na forma de uma menina humana de cabelos e olhos igualmente castanhos que vem correndo em minha direção com um sorriso na face radiante. - Sesshoumaru-sama! Olhe o que colhi para o senhor! Ela para de correr bem à minha frente, conseguindo não trombar ao meu encontro. Sem dúvida uma façanha na qual Jaken costuma falhar sempre. Traz nas mãos uma flor pequena, de pétalas redondas de um azul escuro, um pouco diferente das que costuma colher para me trazer. Estende-a para mim, o sorriso ainda persistente na face infantil. Ao ver que eu não tenho reação ela toma a liberdade de pegar minha mão com delicadeza e abrindo a palma, deposita no centro dela a pequenina flor. Eu não falo nada, nem ao menos olho para a flor que me foi ofertada, mas ela nem nota, já arranjou outros interesses, agora começou a catar gravetos pelo chão, provavelmente para fazer uma fogueira, já que o entardecer vai chegando ao seu fim e a noite já começa a tocar a linha do horizonte com seus tons arroxeados. - Rin. – eu a chamo em tom baixo, talvez esperando que ela nem ouça, tão entretida se encontra em sua caça aos gravetos. Mas ela responde prontamente. - Hai, Sesshomaru-sama? - Vá procurar Jaken. Logo partiremos daqui. - Sim, senhor! – ela larga os gravetos e obedece prontamente, mas antes, para e olha para trás ainda sorrindo alegremente – Vou trazer mais flores também! Ela desaparece no meio do mato, sem esperar minha resposta, talvez porque já esteja acostumada a nunca ter uma. Uma vez sozinho, deixo escapar um suspiro cansado, como se houvesse passado o dia todo lutando a batalha mais febril e sangrenta da minha vida. Eu abaixo o olhar finalmente. A flor pequenina e delicada ainda está em minha mão, e eu olho para ela por muito tempo antes de fechar os olhos pesadamente. Penso em esmagar as pétalas frágeis por entre meus dedos, mas não o faço. Ao invés disso eu abro a mão e a solto no ar, e uma brisa a leva embora, fazendo-a desaparecer na escuridão da noite que se aproxima. Fico olhando para minha mão aberta, como se só agora pudesse notar algo a respeito dela. Não há sangue em minha mão. Mas há algo molhado em meu rosto. Acho que são lágrimas.
~ Fim ~
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Fanfic por Lalachan, agosto/2004 Copyright: Rumiko Takahashi/Yomiuri TV/Sunrise/Shounen Sunday Glossário: Chichi-uê: forma antiga e respeitosa de se dirigir ao pai, quer dizer algo mais ou menos como: "papai que está acima de mim" ^_^ Hai: sim Hanyou: meio-youkai -sama: sufixo após o nome que indica uma forma muito respeitosa de se dirigir à pessoa, geralmente com alguém de hierarquia superior, como por exemplo os senhores feudais, imperadores, príncipes, princesas, monges, sacerdotisas, etc. Youkai: criatura sobrenatural da mitologia japonesa, um tipo de espírito da natureza, que pode derivar de figuras de animais ou plantas. Youki: energia sobrenatural dos youkais Voltar a Inuyasha Fanfics |