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Fanfic por Ana-chan
Levantar naquela manhã foi mais fácil do que pensava, embora ainda fosse cedo demais para se por de pé. Podia continuar deitada só por ficar, talvez até voltar a dormir, mas se sentia desperta o suficiente para evitar a chance de voltar a ter sonhos desagradáveis. Não podia reclamar, na verdade. Há muito tempo não tinha pesadelos. Este nem tinha sido tão assustador assim. Olhou em volta. O céu violeta indicava que logo amanheceria. Janken-sama ressonava baixinho, ao lado de uma árvore frondosa. Ele sempre aproveitava as ausências de Sesshoumaru-sama para dormir até mais tarde. Olhando daquela distância, ele ainda parecia menor, envolto em seu traje marrom. As cabeças do dragão Ah-Un se viraram em sua direção ao notar seus movimentos, mas logo relaxaram ao perceber que não havia nada fora do normal. Estava apenas acordando mais cedo do que o costume. Nada de especial. Janken-sama havia lhe falado sobre a fonte ali perto e sobre aquela ser uma região praticamente sem youkais. Estava precisando mesmo lavar o rosto, distrair seus pensamentos do sonho ruim e se concentrar em coisas boas... Em breve estaria visitando Kagome-sama na vila de humanos. Finalmente poderia conseguir um kimono novo, já que aquele que estava usando há tão pouco tempo já havia se tornado tão curto quando o anterior... E melhor, talvez já o estivesse usando quando Sesshoumaru-sama retornasse. Soltou um suspiro. Ele estava demorando tanto dessa vez. Pegou uma pequena sacola, escondida sob a sela de Ah-Un, com cuidado, para não acordar Jaken-sama. De dentro dela, retirou o pente amarelo que ganhara de Kagome-sama. Era um objeto diferente, lisinho, flexível, segundo soube, originário do lugar de onde Kagome-sama viera. Guardava-o como um tesouro, é claro. O colocou na cintura e rumou em direção ao lago. O frio da manhã a compeliu a cruzar os braços e apertar o passo. Felizmente, não foi necessária uma caminhada longa. Assim que chegou a uma das margens, ajoelhou-se no vão entre dois arbustos. Não era tão quente quanto pensava, mas não chegava a ser desagradável. Não chegou a molhar o rosto. A água que havia juntado em suas palmas unidas em forma de concha principiou a escapar-lhe por entre os dedos, sem que nada fizesse a respeito. Por fim, baixou as mãos. Seu lábio inferior começou a tremer levemente. Por um instante, sentiu-se como se tivesse sendo pega fazendo algo terrível, do qual morreria de vergonha pelo resto de sua vida... Teve que fazer um esforço de pensamento para se convencer que estava ali por estar, e não para espiar o que não devia. Ainda assim, gotas de tempo se esvaiam diante de seus olhos, como a água havia se esvaído de suas mãos. Sua ânsia passou então a existir no fato de que não conseguia sequer se mover. Estava paralisada, de fato. De pavor, de emoção... Os olhos que não piscariam nem se uma vespa pousasse sobre eles. A cabeça que não mudaria de posição, como se o pescoço tivesse perdido a serventia. Seu corpo, pernas, pés... completamente emudecidos pela imagem a sua frente. Quando na vida imaginara que um dia fosse ver Sesshoumaru-sama assim... Ele estava de costas para o local onde estava e um pouco distante também. O lago o cobria até a cintura. Os cabelos molhados eram como um véu, cujas pontas pairavam sobre a água, seguindo suas ondulações suaves. É claro que já havia reparado como os cabelos de Sesshoumaru-sama eram longos, como sua cor e textura eram diferentes até mesmo das de outros youkais. Até mesmo Kagome-sama já havia comentado certa vez... Num primeiro momento, acreditou que a beleza das mechas prateadas manteria seus olhos distraídos até que recobrasse a razão e saísse dali. No entanto... Ele se virou um pouco, o que ainda assim foi incapaz de arrancar-lhe um sutil movimento. Só então lhe veio à mente que jamais havia visto Sesshoumaru-sama sem suas duas (ou três) camadas de roupa, devidamente cobertas pela armadura. Com algum esforço, se lembraria das vezes que o viu sem a armadura, com ela apenas pela metade, semi-destruída após alguma batalha. Lembrava-se de rasgos no tecido branco, nunca algum grande o bastante para que sequer se visse a cor da pele. Quando era menor e mal lhe alcançava a altura da cintura, às vezes dava espiadelas para dentro do vão da manga, só pra ver o que tinha dentro. Achava que podia haver algo ali, além do braço, até o dia em que percebeu que em um dos lados nem mesmo esse existia. Sim, chegara a imaginar, na ocasião, como seria um corpo sem um dos braços, apenas para no momento seguinte quase se corroer de culpa por pensar esse tipo de coisa. Afinal, era Sesshoumaru-sama... E agora... Podia ver que ele tinha um corpo que podia ser parecido com o seu meio-irmão, ou do Monge, os únicos dois rapazes que já havia visto de tronco nu antes, ainda que acidentalmente. Podia ser, mas não era... Ele tinha os ombros mais largos, a pele mais pálida, o tronco mais longelíneo e absolutamente nenhuma marca, cicatriz ou sinal. O que lhe trouxe a memória que, certa vez, Sango-sama lhe perguntara se “o irmão do Inuyasha” tinha listras nas costas... Sorriu levemente e sentiu o rosto aquecer ao imaginar a cara que ela faria se lhe dissesse que sabia a resposta... Porém, quase conseguiu desviar os olhos ao notar o braço esquerdo incompleto, cortado pouco acima de onde seria o cotovelo. Havia algo de fascinante em uma imperfeição tão grave sendo parte de um conjunto que, a despeito de sua pouca experiência, podia jurar ser dos mais perfeitos. Pela primeira vez lhe ocorreu que o braço perdido em combate devia fazer falta a seu dono, ainda que tivesse sido um braço inútil ou desnecessário ou que o remanescente o suprisse completamente. Não conhecera Sesshoumaru-sama antes da fatídica luta com seu irmão. Limitara-se a, em uma ocasião, movida por infantil curiosidade, perguntar a Jaken-sama se ele havia sido mais alegre antes. Diante da resposta, tirara o assunto de vez da cabeça. Quando vivera na aldeia, um dos homens que mais lhe atormentara havia sido justamente um ex-soldado sem braço. A mutilação o havia tornado amargo, era o que diziam, o que lhe soava como uma tremenda bobagem. Afinal, no caso de seu ex-perseguidor, pouca diferença fazia, um braço a mais o a menos, em um todo que só vivia para maltratar os mais fracos e dizer palavras horríveis. Já no caso de Sesshoumaru-sama... Era quase impossível acreditar que tamanha perda não fora capaz de mudá-lo em nada. No fundo... Talvez bem lá no fundo, onde ninguém pudesse ver... Ele começou a sair da fonte. Baixou os olhos, finalmente, mas não a tempo de deixar de observá-lo até que a ponta do cabelo descolasse da água. Sentiu-se corar, as bochechas tão quentes que poderiam esquentar-lhe as mãos no inverno. Abaixou a cabeça ainda mais, a idéia de estar cometendo um ato vergonhoso começando a dominar seus pensamentos. O que ele pensaria se a descobrisse ali, espionando-o num momento em que, obviamente, ele não desejava ser visto por ninguém. Logo Sesshoumaru-sama, aquele que jamais vira fazer algo corriqueiro, sempre tão distante e gélido quanto os picos das montanhas. E como se não houvesse um limite para a desonra por trás de seu crime, um lado de seu coração parecia exultar com o resultado, incitá-la a um devaneio formado por ombros fortes, cobertos por mechas de cabelo prateado, cujas pontas acariciavam a água. Como se num mundo onde não pudesse entrar, houvesse um Sesshoumaru-sama com o qual pudesse sonhar sonhos antes impensáveis. Sacudiu o rosto de leve, tentando sufocá-lo com as mãos. Um som avassalador tomou seus ouvidos... era seu coração, disparado como um animal em fuga. Há quanto tempo ele estava batendo assim, sem que ao menos se desse conta? “Rin.” Naquele momento, teve certeza que tinha um coração forte, pois certamente teria morrido de um ataque se susto seguido de um frenesi de desespero se assim não fosse. Porque não precisaria erguer o rosto, ainda espremido entre as palmas de suas mãos para saber que Sesshoumaru-sama estava bem atrás dela agora. Onde estava com a cabeça por pensar que poderia ficar ali, supostamente escondida, por tanto tempo, e ainda ter a pretensão de achar que ele não notaria sua presença? Virou-se devagar, fitando o chão, sentindo as pernas bambearem. Era como uma criminosa pega no ato, prestes a ter sua cabeça cortada em punição. Pela primeira vez, temeu olhar para ele. “Hai... Sesshoumaru-sama...” respondeu, com o fio de voz que lhe restara. Os olhos começaram a queimar. Cairia em prantos antes mesmo que ele terminasse de proferir sua condenação. “Pode segurar o laço?” “Hai... Sesshoumaru-sama” repetiu, sem atinar. Só então levantou o rosto. Ele estava parado a uns três passos de distância, já vestido, embora os cabelos ainda pingassem de tão encharcados. Até a indefectível armadura já estaria em seu lugar se não fosse pelo laço na cinta, ainda incompleto. Não precisou olhar duas vezes para entender a que ele se referira. Um dos laços que prendiam a longa faixa ao redor da cintura, onde ele costumava carregar suas duas espadas, ainda estava desfeito. Assim que seus dedos, ainda consideravelmente trêmulos, fixaram o nó da frente, ele terminou o serviço, de um jeito tão rápido que não saberia repetir o movimento, talvez, nem se ele repetisse umas dez vezes. “Gomenassai” disparou, sem pensar, ao notar que ele acabara de lhe dar as costas. Não havia lógica em se desculpar naquele momento. Por que esticar aquela situação, por si só já tão embaraçosa? O que tinha na cabeça afinal? “Não vai terminar o que veio fazer aqui?” ele perguntou-lhe simplesmente, sem se virar. Olhou de lado para a água do lago. Ajoelhou-se, cuidou do rosto ainda mais quente do que o normal. Não sabia o que pensar, sua mente havia se transformado num emaranhado de devaneios e sensações que obscureciam qualquer forma de raciocínio. Levantou o mais rápido que pôde e correu até alcançá-lo. Ele havia acabado de sentar sob a sombra de uma árvore, como sempre fazia. “Sesshoumaru-sama, quer que eu acorde Jaken-sama?” “Não precisa.” “Está zangado comigo?” “Não.” Soltou um suspiro involuntário. Sesshoumaru-sama estava como sempre estivera. Não havia a menor diferença em suas palavras ou no tom de sua voz. Ajoelhou ao lado dele, ainda meio cabisbaixa. Mesmo sabendo que ele raramente olhava na sua direção, só o fato dele responder já era prova suficiente de que sua atitude não fora levada a mal. Podia ficar tranqüila a esse respeito, portanto. “Fico contente...” Olhou novamente para o rosto dele, ainda perdida em suas intenções. Era tão cedo... O sol mal havia acabado de clarear o céu. O certo seria aproveitar o tempo para conseguir comida, antes que Janken-sama acordasse ou que Sesshoumaru-sama resolvesse que deveriam ir para outro lugar. “Sesshoumaru-sama...” fez uma pausa antes de pensar no que diria. A bem da verdade, não sabia bem o que gostaria de dizer, nem a razão de o inédito encontro no lago tê-la deixado com essa súbita ânsia em conversar, mesmo sabendo que o youkai não era dado a esse tipo de coisa. Não costumava aborrecê-lo por nada e só ela sabia quantas vezes Janken-sama já a havia repreendido apenas por tentar puxar assunto, sem se importar se era respondida ou não. “O senhor é feliz?” A pergunta lhe escapuliu dos lábios, sem que sequer tentasse evitá-la. Ele abriu os olhos. Um gesto mínimo, mas que no caso dele era bastante significativo. “Deveria guardar esse tipo de pergunta para um de seus amigos humanos.” “Por que?” “Youkais não se medem por sentimentos infantis.” “Aw...” Outro suspiro, dessa vez de desapontamento. O que esperava que ele lhe dissesse afinal? Abaixou a cabeça, fitando os próprios pés, meio sem graça. O que ele queria dizer com aquela resposta? Será que Sesshoumaru-sama não era feliz? Não podia ser, embora fizesse tanto sentido que só de pensar seu peito começava a doer. Seria capaz de verter lágrimas se não pensasse em algo, rápido. Alguém de quem gostava tanto, mas tanto, mas tanto, não podia ficar infeliz ao seu lado sem que fizesse nada. Espremeu os olhos, evitando o choro que certamente não o ajudaria a se sentir melhor. Lembrou-se da imagem no lago, ainda há pouco, os lindos cabelos cor de luar que pareciam refletir os primeiros raios de sol. Sesshoumaru-sama era tão bonito que a deixara fascinada por ele desde o primeiro dia, quando o vira deitado na floresta. Alguém tão lindo não a faria mal, foi o que pensou na época. Ou ser maltratada por alguém assim já era um melhoramento pra quem costumava ser maltratada por simples aldeões. Só sabia que desde que se juntara a ele sua vida se tornara uma espécie de sonho, como aqueles que inventava acordada, nos tempos em que sua imaginação era toda sua fonte de alento. Olhou para ele novamente. Não importava o quão enigmáticas suas respostas pudessem ser. Era sua responsabilidade tentar fazê-lo feliz, assim como a presença dele por si só a deixava com o coração aos saltos, de pura e incontida satisfação. Mesmo que ele nunca viesse a demonstrar, saberia encontrá-la naqueles sinais ínfimos que ele deixava transparecer, e que somente um observador devotado saberia identificar. Não esperaria mais nenhum instante sequer. Acharia as flores mais bonitas, cantaria alguma coisa alegre talvez. Então, se lembrou do pertence preso à sua cintura, esperando para ser usado. O segurou com cuidado. “Sesshoumaru-sama... Tem um nó bem na ponta do seu cabelo. Posso soltar?” A certeza de ter tido uma grande e eficiente idéia não a deixou esperar pela resposta. Pegou a ponta de uma mecha meio embolada entre os dedos, e cuidadosamente começou a soltar o nó com o pente amarelo. Estava fazendo algo por ele enfim, e algo mais útil do que perguntar bobagens e oferecer-lhe flores. O cabelo que já era tão bonito sem ser penteado, certamente ficaria ainda mais perfeito depois de usar o pente trazido por Kagome-sama. Talvez, ao ver o resultado, ele ficasse contente. Não era uma tarefa difícil, pensou. Pelo contrário, a sensação de enterrar os dedos na mecha, para soltá-la um pouco mais antes de passar o pente, era incrivelmente prazerosa. Quase podia dispensar o apetrecho e realizar o serviço apenas com as mãos. Seu coração disparou. Assim, do nada. Quase se sentiu paralisar, como na margem do lago, sendo que agora, não saberia apontar um motivo. Estava apenas cuidando de seus cabelos, para deixá-lo alegre, para... Soltou a mecha, antes que as batidas em seu peito se tornassem mais audíveis do que podia considerar “normal”. “Terminei” limitou-se a murmurar. Voltou apressada para onde Janken-sama e Ah-Un estavam. Como sempre, ouviu o youkai de pele esverdeada reclamar, como fazia pela manhã, quase todos os dias. Ele pareceu-lhe meio surpreso ao saber que, pela primeira vez, ela havia voltado sem nenhuma comida, mas nada disse. “Hum... Engraçado...” ele comentou em seguida “Sinto como se Sesshoumaru-sama tivesse retornado.” “Ele retornou.” “Retornou??! Mas onde? Cadê?” “Está depois daquelas árvores.” “Ah! Sesshoumaru-sama! Por que não disse antes, sua tonta?” Ela o viu se afastar, desajeitado, equilibrando o cajado sobre um dos ombros. Agachou no chão, aliviada por estar sozinha. O pente amarelo ainda estava em suas mãos. Abraçou-o contra o peito, apenas para no momento seguinte guardá-lo rapidamente, entre preces para que ninguém tivesse testemunhado o gesto anterior. “Vem Ah-Un... Vou te dar um banho.” Ao se dirigir para o lago, pôde vê-los à distância, Sesshoumaru-sama e Janken-sama. Logo partiriam dali, como sempre haviam feito. Nada havia mudado, a despeito do que vira naquele amanhecer e do misto de prazer e angústia que do nada se instalara em seu coração. Não compreendia muito bem, mas sabia que jamais havia se sentido tão estranha antes. Jamais havia se sentido
tão estranhamente feliz.
~ Fim ~ |
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Fanfic por Ana-chan, outubro/2001 Nota: Este fanfic é dedicado à minha pupila Lalachan! Viva o progresso, né?! ^_^ De sua “técnica de vida”, Ana-chan. Copyright Rumiko Takahashi/Yomiuri TV/Sunrise/Shounen Sunday Glossário: Gomenassai: Desculpe Hai: sim -sama: sufixo após o nome que indica uma forma muito respeitosa de se dirigir à pessoa, geralmente com alguém de hierarquia superior, como por exemplo os senhores feudais, imperadores, príncipes, princesas, monges, sacerdotisas, etc. Youkai: criatura sobrenatural da mitologia japonesa, um tipo de espírito da natureza, que pode derivar de figuras de animais ou plantas. Voltar a Inuyasha Fanfics |