Pegadas
 

Fanfic por Lalachan



Desde o anoitecer podia sentir que estava sendo seguido. Não fez nada a respeito no entanto. Tinha mais coisas ocupando sua cabeça do que se importar com uma criatura fraca seguindo seus passos. Mas não podia evitar de imaginar o porquê. Afinal a julgar pelo cheiro não passava de um simples humano. Uma criança humana, se seu nariz não estivesse enganado. Claro que não estava. Continuou atravessando a floresta em passos calmos, sem demonstrar minimamente que sabia que não estava sozinho. A medida em que avançava começava a irritar-se um pouco. Eventualmente seria obrigado a abordar a criatura e questionar-lhe o motivo de tamanha insistência. 

Teria soltado um suspiro se fosse dado a suspiros de insatisfação. Aquilo era só um incômodo, como um inseto youkai que fica lhe perseguindo durante um tempo sem que valha a pena levantar a mão e sacudi-la para espantá-lo. 

Finalmente saiu da floresta para um descampado enorme. Olhou para o céu como fazia todas as noites. Nada de lua... estava escondida e assim ficaria ainda por alguns dias. Era estranho ver apenas a trilha de estrelas que atravessava o céu, sem seu círculo prateado reinante para roubar a atenção do olhar. 

Não olhou para trás para averiguar se seu seguidor continuava em seu intento. Não era preciso já que seu olfato continuava captando o cheiro fraco, enjoativo de seu perseguidor. Esperava que a criatura se cansasse logo de ficar em seu encalço. Causava-lhe um certo desagrado imaginar que teria que fazer uso de suas garras para acabar com o incômodo. Bem melhor se ele resolvesse ser mais esperto e desaparecesse.

Quando deu por si já estava parado no mesmo lugar pensando na criatura humana estúpida há algum tempo. Que havia com ele? Recomeçou a andar, ainda sentindo o cheiro irritante atrás de si. Como a criança faria agora para continuar sua perseguição discreta, já que não havia mais árvores para lhe acobertarem? De qualquer forma já se arrependera de ter tomado aquela direção... não por causa disso é claro, mas porque talvez tomar aquele caminho acabasse mais uma vez resultando em nada. 

Mas tudo bem. Ele era paciente, afinal. Procuraria cada canto do país se fosse preciso. Até mesmo as regiões mais habitadas por humanos. Não deixaria nem um pedaço de terra sem verificar. 

Encontraria o túmulo secreto de seu pai nem que fosse a última coisa que fizesse na vida.
 
 
 
 
 

Seus pés já protestavam, mas ele ignorou a dor. Agora era mais difícil continuar pois tinha que andar agachado, às vezes rastejando em meio ao mato alto. Não podia ser visto ainda. Não nesse estado. Queria causar uma boa impressão, pois agora era diferente. Estava prestes a ter um contato com o outro lado

Nem como humano jamais conseguira que o olhassem como algo que não uma aberração ambulante. Não se lembrava de uma só ocasião em que recebera um olhar normal das pessoas. Sua mãe não contava, afinal uma mãe acha bonito mesmo o mais feio dos filhotes, apenas porque saiu de dentro dela e por causa do instinto de proteção. A súbita lembrança da mãe apertou-lhe o peito um pouco, mesmo que já fizesse um certo tempo desde que ela se fora. E depois disso aprendera o significado de estar realmente sozinho. 

E da palavra medo. Essa última era preciso que aprendesse o quanto antes a ignorar. Chegaria o momento em que se apresentaria. Estava só esperando passar esta noite. Não queria ser visto por ele assim.

Finalmente o youkai que estava seguindo parou de andar, e ele fez o mesmo. Tudo indicava que ele resolvera parar para descansar, embora seu porte tão altivo não sugerisse o menor cansaço. Ótimo, pois isso lhe daria uma chance de descansar um pouco também. Erguendo um pouco a cabeça acima da vegetação, pôde ver que ele se sentara em uma grande rocha no meio do mato, e parecia observar o céu calmamente. 

Olhou para ele com mais atenção agora que não precisava se concentrar tanto em manter-se escondido. Ainda estava curioso sobre o monte de pêlo, provavelmente de cão, que ele levava no ombro direito. Aquela pele felpuda parecia macia, e chegava até o chão. Deveria ser bom descansar a cabeça ali. Será que ele a usava de travesseiro? Era o que faria se tivesse uma igual. Seu pai deveria ter uma também... O rosto tinha traços perfeitos e nunca alterava a expressão. Havia um sinal que ainda não conseguira distinguir em sua testa. A pele era bem alva, e os cabelos lisos muito longos, quase da mesma côr dos seus quando estava como meio-youkai. Não conseguira ainda chegar perto o suficiente para ver-lhe a côr dos olhos, mas tinha certeza que eram dourados como os seus.

Não fosse a roupa e a armadura talvez o confundisse com uma mulher. Quase riu do pensamento. Aquela face calma deveria enganar bem os inimigos. Sabia que ele era muito forte.  Talvez o youkai mais forte que jamais tivesse a chance de cruzar. 

Não havia chances de estar enganado. E ainda havia o cheiro que sentira, antes do pôr do sol lhe roubar a energia de youkai até o amanhecer.

Só podia ser ele. 

Dando-se por satisfeito com a observação, ele deitou-se cuidadosamente de costas no chão e também olhou para o céu. Estava bem escondido pela vegetação alta e embora não pudesse nesse estado sentir o cheiro daquele youkai que era seu meio-irmão, podia pelo menos ouvir. Se o youkai se movesse e voltasse a andar ele recomeçaria a segui-lo. Tinha que tomar o máximo de cuidado já que não podia contar com seu olfato aquela noite. E logo nesta noite tinha que encontrá-lo... entre tantas outras.

A linda trilha de estrelas cruzando o céu negro não foi capaz de manter seus olhos abertos por muito mais tempo e sem agüentar o cansaço ele finalmente rendeu-se ao sono. Antes de resvalar para os sonhos teve a sensação tranqüilizadora de que não estava sozinho. Os olhos castanhos de sua mãe estavam sobre ele, tão cheios de amor e carinho que ele quase se sentiu feliz de novo depois de tanto tempo.
 
 
 
 

Tentou se concentrar nas últimas palavras da mãe antes que ela o deixasse. Suspiros fracos de alguém que já é capaz de ver a outra vida acenando-lhe. Tristeza de saber que não pode mais se prender a esta vida. Ele não chorara. Já era quase um homem, sua mãe mesma lhe dissera isso uma vez. Então apenas segurara sua mão muito forte, com uma esperança bem fraquinha na alma de que talvez isso fosse o suficiente para que ela não se fosse. 

Mas não foi suficiente. 

- Inuyasha, escute com muita atenção o que vou dizer. Já lhe contei sobre seu pai, lembra-se?

- Sim. – respondeu apertando sua mão com mais força ainda.

- O que nunca lhe contei é que você tem um irmão. Um meio-irmão. Ele é seu único parente vivo. Quando eu me for... – ela fechou os olhos por um momento.

- Mãe!! – quase gritou, algo desesperado, mas os olhos castanhos muito tristes voltaram a se abrir, enevoados. Talvez já estivesse espiando a outra vida e não pudesse se segurar muito mais tempo ali. Engoliu em seco tentando ser o mais forte possível, mas as malditas lágrimas ameaçavam despontar antes do tempo. 

- Quando eu me for, você deve procurá-lo. Não sei como fará isso, mas sei que o encontrará. É natural que dois irmãos se encontrem mesmo que demore muito tempo. Promete que fará isso, Inuyasha?

Ele apenas assentiu, não confiando na própria voz. Não entendia porque era tão importante para ela que fosse atrás de um irmão cuja existência acabara de ser informado, mas faria qualquer coisa que ela pedisse. Nem que morresse tentando. 

- Mãe... como vou reconhecê-lo? Como ele é?

Ela voltara a fechar os olhos, e a angústia assaltou-lhe de novo. Era mesmo possível que sua  mãe estivesse ali, morrendo diante de seus olhos? 

Antes que protestasse de novo, e dessa vez não estava bem certo de ser capaz de segurar as lágrimas, ela abriu os olhos e encarou-o, parecendo um pouco melhor. Pelo menos aqueles olhos já não pareciam tão tristes. 

- O nome dele é Sesshoumaru. Eu nunca o conheci. Mas você o achará. Porque ele se parece com seu pai, e por causa do cheiro em comum que vocês dois têm. O que há do seu pai nele, também há em você, filho... – uma mão pálida pousou em seu peito – quando encontrar com ele, saberá que é seu irmão... 

Inuyasha segurou a mão da mãe que estava em seu peito e abaixou a cabeça para que ela não lhe visse as lágrimas. Seu corpo pequeno se sacudiu um pouco com os soluços que ele estivera segurando todo o tempo. 

- Amo você... – foi o último sussurro, e então a mão já sem vida escorregou por entre as suas, levando um pouco dele junto. Nunca mais seria o mesmo. 

Mas cumpriria a promessa. Encontraria esse tal Sesshoumaru, pensou, limpando as próprias lágrimas nervosamente. Depositou as mãos dela sobre seu peito, cruzadas delicadamente uma sobre a outra. 

- Mãe... – sussurrou – vou encontrá-lo, não se preocupe. Não fique mais triste por minha causa. Também a amo muito. – beijou-lhe a testa suavemente, já ouvindo ruídos no cômodo ao lado. Estavam vindo levá-la para cuidar do corpo e... Droga, não iria chorar de novo!

Quando as pessoas detestáveis que não gostavam dele entraram ele já desaparecera pela outra porta de correr. Não ficaria ali esperando que o colocassem para fora. Iria embora por conta própria antes. Só precisava de uma coisa antes de fugir definitivamente dali. Sua roupa de pele de rato de fogo. Aquele estranho tecido que parecia acompanhar seu crescimento mas que o deixava com uma sensação esquisita quando a vestia. Era como se vestir aquilo o tornasse mais estranho do que já era. Mas precisava daquilo, pois sabia que era um traje de youkai. 

Quando encontrasse seu irmão, estaria vestido como um. E talvez, não precisasse mais se sentir tão estranho... ou tão sozinho.
 
 
 
 

Sesshoumaru aproximou-se mais do vulto deitado no meio do mato, sem saber ao certo o porque de se dar esse trabalho. Fazia tanto tempo que não encontrava com um humano que talvez fosse sua curiosidade falando mais alto. Também nunca vira uma criança humana antes. Deveriam ser incrivelmente mais fracas que os adultos, pela lógica. Parou bem em frente ao corpo no chão, surpreendendo-se de ver como era pequeno. Um simples youkai lagarto inferior que surgisse em meio à vegetação seria capaz de destruí-lo antes mesmo que sequer acordasse. 

Ajoelhou uma perna no chão para observá-lo melhor. Não era tão diferente assim de um humano adulto. Os cabelos negros no entanto eram longos, talvez esse fosse o hábito para filhotes humanos. E daí? O sexo não era aparente, mas desconfiava tratar-se de um menino, pelos trajes, que mesmo estando um pouco sujos, indicavam alguém de posses. Não eram trajes de camponeses ou pescadores, pelo que se lembrava do pouco contato que tivera com estes. Roupas boas, embora não calçasse sapatos. Ele se encontrava em posição encolhida, deitado de lado, os braços agarrados com um monte de pano, talvez uma trouxa de roupa extra. Estranho que houvesse energia youkai emanando dali...

Se fosse dado a comer humanos isso poderia justificar um pouco a observação de sua possível presa. Mas isso nunca lhe agradara. Talvez precisasse admitir que o que o levara a observar de perto essa criança humana fora o simples fato de querer ver de perto a face da criatura que ousava se aproximar tanto assim dele, Sesshoumaru. 

Abaixou-se um pouco, olhando bem de perto a face adormecida da criança. O menino ressonava levemente, completamente alheio a tudo a sua volta. Divertiu-se por um instante com a facilidade que seria simplesmente matá-lo. Ele nem saberia o que o atingira. Nem teria chance de abrir os olhos. Iria diretamente do mundo dos sonhos para a outra vida.

Resolveu que essa idéia não tinha graça afinal. Era como desprender energia demais para tão pouco. Talvez fosse suficiente apenas sacudi-lo, acordando-o e fazendo-o morrer de medo.

Antes que se decidisse do que fazer a seguir, sons vindos do vulto adormecido chegaram aos seus ouvidos. Franziu a testa. Seu rosto estava úmido... lágrimas? Obviamente um pesadelo. Ouviu-o soluçar baixinho enquanto se levantava lentamente. Por um estranho momento não soube o que fazer, então ficou na mesma posição para ver o que o menino ia fazer, mas logo os soluços cessaram e o silêncio voltou a reinar. Ele continuou parado ali, a espera de algo que não sabia bem o que era. Se iria matar o humano era melhor fazê-lo logo. 

Sua face se ergueu captando um cheiro diferente no ar. Era hora de sair dali e procurar um abrigo, antes que os pingos de água que já começava a sentir caindo sobre si aumentassem de intensidade. Começou a virar-se para ir embora mas lembrou-se da criança adormecida. Voltou-se e viu que o menino não parecia afetado pelos pingos de chuva que caíam em seu rosto. Mas logo acordaria, quando a chuva desabasse. 

Desta vez realmente soltou um suspiro irritadiço ao abaixar-se ao lado da criança humana sem que esta acordasse do seu sono profundo.
 
 
 
 

O barulho distante porém insistente da chuva conseguiu trazê-lo de volta ao mundo dos despertos finalmente. Inuyasha abriu os olhos sonolentos, estranhando o ambiente ao seu redor. Após alguns momentos ele sentou-se de supetão, os olhos arregalados, as mãos tateando pela trouxa de roupa de pele de rato de fogo que lhe servira de travesseiro. O pânico ameaçou dominar-lhe já que não enxergava coisa alguma. Pensamentos mil lhe passaram pela cabeça, um pior que o outro. Fora capturado por youkais para servir de comida... fora atacado por algum youkai e este o deixara cego... Maldição, como fora capaz de adormecer naquela forma? Será que nunca aprendia? Engatinhou pelo chão, tentando controlar o medo, encontrando finalmente a trouxa de roupa e agarrando-a como um náufrago agarra um pedaço de madeira. 

Não estava sozinho ali.

O pensamento congelou-o no lugar. Devia ser a mesma pessoa (mais provavelmente youkai) que o trouxera até ali. Não ouvia nem via coisa alguma, mas podia sentir a presença de alguém. Encostou-se de encontro a algo frio, duro atrás de si... a parede de uma rocha. Estava dentro de uma caverna. O barulho da chuva ecoava de muito longe... deveria estar em uma câmara muito profunda e longe da saída. 

- Para quem estava me seguindo com tanta coragem, agora você parece meio amedrontado demais. – veio a voz grave da escuridão, algo sarcástica. Inuyasha prendeu a respiração. Seria possível que...?

- Eu não estou com medo, só não gosto de cavernas. – mal podia acreditar que falara aquilo. Mas podia sentir sua coragem voltando rapidamente, agora que sabia que era seu meio-irmão quem estava ali no escuro com ele.

- Eu também não. Mas elas servem para abrigar da chuva. – foi a resposta seca.

O menino engoliu em seco, sem saber o que dizer. Não queria que o irmão o conhecesse desse jeito. Como um humano... agora pensando com calma podia compreender o que acontecera. Adormecera vergonhosamente, e seu irmão o encontrara. Começara a chover e o youkai cujas pegadas seguira durante aquela noite o trouxera até esta caverna escura, porém seca. Só então lembrou-se.

- Obrigado por me tirar da chuva. – fez questão de agradecer, como sua mãe lhe ensinara. Mas não houve resposta. Essa era a primeira vez que ouvia a voz do meio-irmão mas já podia ver que ele gostava de poupar palavras.

Bom, mas afinal, isso se justificava. Ele era um humano agora. Porque um youkai tão forte quanto seu irmão Sesshoumaru perderia tempo conversando com uma criança fraca como ele? 

- Por que estava chorando? – foi a pergunta repentina que quase o matou de susto, tão absorto estava em pensamentos. Simples e direto. E cada momento que demorasse mais a responder parecia mais longo na escuridão silenciosa daquela caverna. Podia esperar qualquer pergunta, tipo “Por que está me seguindo?”, “O que você quer de mim?” ou “Qual seu nome?”.... tudo menos aquilo. 

- Não precisa contar se não quiser. – ele acrescentou, mas Inuyasha resolveu ser honesto.

- Estava sonhando com minha mãe. Com o momento que ela morreu. Sinto falta dela. – disse simplesmente, perguntando-se se a mãe de seu meio-irmão estava viva, e se não, se ele se sentia da mesma forma em relação à própria mãe. Mas não podia fazer essas perguntas. Aquele youkai nem sabia que eram irmãos ainda. Queria contar-lhe, mas pretendia adiar este momento até o amanhecer pelo menos. Definitivamente nada estava acontecendo da forma como imaginara. E tudo por causa de um cochilinho à toa...

Piscou os olhos no escuro, que já não era tão escuro assim, agora que seus olhos se acostumaram melhor à escuridão. Podia quase distinguir o vulto do irmão no canto oposto da caverna. Ele também estava sentado no chão. O branco de sua roupa parecia reluzir um pouco em meio à penumbra.

Um silêncio tão pesado quanto as gotas de chuva que caíam do lado de fora se instalou. Inuyasha chegou a abrir a boca várias vezes para falar algo mas sempre desistia antes. 

Estava seguindo você porque sou seu meio-irmão. Minha mãe me contou que sou filho de Inu no Taishou, um grande youkai cachorro. Estou como humano agora, mas ao amanhecer virarei meio-youkai, e ficarei parecido com você. Quero ficar com você, e aprender a ser um youkai de verdade. Minha mãe disse que você se parece muito com meu pai, que morreu quando eu nasci. Quero que goste de mim, pois eu já gosto um pouco de você só do pouco que o venho seguindo e observando. Você é forte. Eu também vou ser. E você vai ser orgulhoso de mim. Como meu pai seria.

Claro que nenhuma dessas palavras jamais saiu de seus lábios, mas se sentia um pouco melhor apenas em imaginá-las, e claro que em sua imaginação a resposta de seu irmão seria positiva. Claro que ele aceitaria cuidar do meio-irmão. Claro que ensinaria a ele tudo que precisasse. Claro que ele ficaria muito feliz em conhecer o irmão menor. Claro...

Sorriu bobamente na penumbra. Quase se sentiu tentado a de fato contar a Sesshoumaru a verdade, mas ele descobriria logo, então para que a pressa? Até que era gostoso ficar sentado naquela caverna junto com ele, compartilhando o silêncio como se isso fosse o bastante e não precisassem nunca de palavras para se entenderem. Estava seco, quentinho e sentia-se seguro como há muito não se sentia, pelo menos quando estava em forma humana.

Se seu irmão era capaz de indiretamente cuidar de uma criança humana que nunca vira antes, sem dúvida o aceitaria de braços abertos. Era tudo uma questão de esperar pelo raiar do sol. Sabia que uma nova vida começaria para ele a partir de então.
 
 
 
 

Não estranhou quando o viu adormecer novamente, a cabeça apoiada na trouxa de roupa um pouco amarfanhada. Uma coisa aprendera sobre humanos embora o assunto lhe interessasse minimamente... eram dados a dormir muito mais que qualquer outra criatura vivente.

Não podia negar que o leve fascínio inicial crescera um pouco depois que se dera conta que a criança humana se sentia segura perto dele. Francamente, o que o impedia de cortar-lhe a garganta ali mesmo, deixando o corpo para servir de comida aos morcegos? Nada. No entanto ao invés disso chegara a tirá-lo da chuva e trazê-lo até ali, a salvo do tempo ruim e de youkais predadores.

Era quase como se o menino soubesse que nada lhe aconteceria. A pergunta crucial era: como poderia saber?

Chegara a vê-lo acordar em pânico, sem saber onde estava ou como chegara ali. No entanto ao reconhecer-lhe ele se acalmara no mesmo instante. 

Era loucura, é verdade, mas o humano confiava nele, Sesshoumaru. Loucura e tolice. E poderia abreviar ambas quando quisesse. Não sabia porque não o fazia. 

Levantou-se e cruzando a câmara larga da caverna sentou-se mais perto dele. Ele não acordou. Parecia muito confortável. Só queria ser capaz de entender porque aquele humano decidira entregar a própria vida em suas mãos desta forma. Mesmo que ali não houvesse luz, sua visão era aguçada e podia ver no escuro. A face do menino estava tranqüila, ele dormia profundamente. Quase sorria em seu sono, na verdade.

Olhou para a frente, em seguida fechou os olhos lentamente. Aquilo tudo na verdade não passava de uma indesejável distração de seus objetivos. Não podia se desviar deles para ficar tomando conta de uma reles criança humana. 

Ao amanhecer, deixaria bem claro ao humano que ele deveria tomar outros rumos. Sempre andava sozinho e pretendia continuar assim. 

Que o menino encontrasse outro youkai para seguir-lhe as pegadas.
 
 
 
 

Abriu os olhos para descobrir que algo estava diferente. Claro, agora conseguia enxergar! A caverna não era mais um poço de escuridão, uma réstia de luz iluminava a câmara vinda do corredor que levava a saída. Era dia!

E isso significava que...

Levantou-se num pulo, olhando primeiro para as mãos. As garras despontaram de seus dedos. Seu cabelo voltara a ficar prateado. Ele era um youkai de novo! Enfim a noite do medo chegara ao fim. O que o lembrou... onde estava seu meio-irmão?

Logo captou seu cheiro. Ele saíra da caverna mas estava próximo à entrada. Como era bom ter seu olfato de youkai cachorro de volta. Ia sair também mas lembrou-se de algo importante. Pegou a trouxa do chão e abriu-a, revelando o haori feito com pele de rato de fogo. Uma herança de seu pai. Rapidamente despiu-se e vestiu o traje. Deixou as outras roupas na caverna. Não precisaria mais delas. Dirigiu-se à saída da caverna, confiante, pronto para olhar nos olhos dourados do meio-irmão finalmente.

Encontrou-o parado de pé a uma certa distância. Ele não se voltou quando se aproximou mais. Uma expectativa tomava-lhe o peito sem deixar-lhe quase respirar. Parou ao lado do irmão, e olhou para cima, sentindo-se muito pequenino e vulnerável, apesar de se encontrar em uma forma mais confiante. Não era mais um humano fraco. Era um meio-youkai de novo. Era um youkai, ora. Sentia-se mais perto daquele youkai alto e tão poderoso que felizmente poderia agora chamar de irmão.

Ia abrir a boca para falar e ninguém jamais saberia o que teria dito, pois a voz fria e recheada de desprezo de Sesshoumaru chegou-lhe aos ouvidos antes.

- Senti seu cheiro mudar enquanto estava amanhecendo. Agora posso ver porquê. 

Ele não o encarava enquanto falava, continuava olhando para uma direção qualquer, como se não houvesse mais ninguém ali e estivesse falando consigo mesmo. Inuyasha teve um pressentimento ruim sobre o que estava por vir, mas agora era tarde demais para voltar atrás. Mas algo lhe dizia que não seria da forma como pensara. 

Sesshoumaru finalmente abaixou o olhar para Inuyasha, parecendo relutante em fazê-lo. Estavam agora frente a frente. Inuyasha sustentou o olhar no do irmão, embora sentisse como se não devesse fazer aquilo. 

- Você é um meio-youkai. – foi a acusação em tom gelado, como quem constata: “Você é um verme.”

- Sim. Sou filho de Inu no Taishou. E você é Sesshoumaru, meu meio-irmão. – Inuyasha respondeu com toda a coragem de que foi capaz. Ainda estava tentando descobrir o que dera errado em tão pouco tempo. Por que os olhos de seu irmão pareciam tão cheios de ódio? Não entendia... E não sabia mais o que dizer. Era como se o youkai à sua frente tivesse se transformado em outro youkai. Não se tratava mais do mesmo ser que na noite anterior o trouxera em seus braços e o abrigara da chuva, inclusive ficara protegendo-o mesmo que involuntariamente. Tudo que ensaiara na mente para falar ao irmão se perdera e o medo voltara com força poderosa, um intruso inadmissível para alguém que já não estava mais na forma fraca de um humano.

A dor atingiu-o com toda a força e fez com que caísse no chão tamanho o impacto da bofetada. Levou a mão ao rosto, os olhos arregalados grudados no meio-irmão que subitamente se tornara mais alto agora que se encontrava sentado no chão. Sesshoumaru o olhava de cima como se olhasse para o mais asqueroso dos insetos. 

- Nunca mais diga o nome de meu pai. Você não tem esse direito. Não passa de um meio youkai imundo. E eu não sou seu irmão. – declarou calmamente, como se não houvesse acabado de ter lhe dado a maior bofetada. Inuyasha nem vira seu braço chegando. Ainda com a mão na mancha vermelha da face, sentiu os olhos se encherem de lágrimas.

Lágrimas de ódio. De onde elas vieram? Deviam ter vindo junto com o tapa injusto e violento. Não desviava o olhar daqueles olhos dourados faiscantes no entanto. Pois mesmo assim, ainda eram olhos iguais aos seus. E agora, ambos queimavam no mesmo ressentimento. Inuyasha já começava a aprender uma coisa com o irmão, embora provavelmente fosse a primeira e a última. 

Não confie em ninguém, seja humano ou youkai. De agora em diante, confiaria apenas em si mesmo. E esqueceria de vez que já pensara ter um irmão. Só esperava que sua mãe o compreendesse onde quer que estivesse.

Sesshoumaru o viu levantar-se um pouco vacilante nas pernas, como se o tapa forte houvesse roubado um pouco suas forças, mas sem jamais desviar o olhar dele. Na certa esperava por outro tapa. E que esperasse mesmo, se ele não saísse logo da sua frente. Não agüentava mais ter que olhar para aquela criatura que ousara chamar-lhe de irmão. 

Que lástima que o filho bastardo de seu pai tivesse mesmo sobrevivido. Agora podia entender o porque de uma criança humana estar andando com uma trouxa de roupa youkai. Na verdade deveria ter desconfiado, mas a face humana causada pela fraqueza dos meio-youkai o enganara. 

A afronta de ter que olhar para o fruto da união indesejada de seu pai com uma humana subia-lhe pela garganta como uma ânsia de vômito. E pensar que carregara aquela criatura nos braços até a caverna, inclusive chegara ao displante de velar seu sono! Na verdade deveria ter dado o tapa em si mesmo. 

O pequeno meio-youkai já de pé encarou-o com determinação. Lágrimas escorriam por suas faces, uma delas muito avermelhada pela bofetada, mas os olhos dourados iguais aos seus e por incrível que parecesse... iguais também aos do seu pai, o olhavam com raiva desmedida. Teria esbofeteado o meio-youkai novamente não fosse por aqueles olhos. O vermezinho que agradecesse ao pai por isso depois.

- Eu sou Inuyasha, filho de Inu no Taishou. E você ainda vai ouvir falar de mim. Pois quando eu estiver muito forte, eu volto para acabar com você, Sesshoumaru. – declarou, a voz falseando um pouco no final, em seguida ele deu-lhe as costas e saiu correndo, logo se tornando um ponto vermelho ao longe, se afastando cada vez mais.

- Estarei esperando, seu bastardo. Estarei esperando... – disse em voz baixa, a frieza em seu tom jamais sendo aquecido pelos primeiros raios de sol que inundavam a manhã.
 
 
 
 
 

Alguns séculos depois...
 

- Sesshoumaru-sama! Por que viemos nessa direção, senhor? Há uma vila de humanos perto daqui... será que o que o senhor procura está por aqui? Sesshou...

- Jaken, fique calado. – ordenou, não conseguindo controlar a irritação no tom de voz. Ainda estava decidindo se permitia que aquele youkai inferior continuasse seguindo-o ou não, mas acabava que nunca o despachava de fato. E quanto mais tempo se passava, mais falante ele se tornava. Às vezes tinha ânsias de estrangulá-lo, mas felizmente ele até que era obediente. Prova disso é que não mais deu palavra enquanto eles se aproximavam mais dos arredores daquele vilarejo de  humanos. Estavam atravessando uma floresta densa próxima a ela. As copas das árvores quase que tapavam toda a visão do céu, mas Sesshoumaru sabia que não havia lua no céu aquela noite.

Seu servo continuou seguindo-o em silêncio pelo que ele sentiu-se realmente aliviado. Há muito que não sabia o que era silêncio total, e como apreciava a quietude... Parou de andar e Jaken deu de cara com suas pernas, se desculpando muito sem jeito logo em seguida.

Sesshoumaru não suspirou, pois nunca fora dado a suspiros de insatisfação. Mas bem que poderia tê-lo feito. O pensamento no entanto despertou-lhe uma nostalgia inexplicável. 

Mas não demorou a saber porque. Estivera inconscientemente seguindo a trilha de um cheiro há muito esquecido em sua memória.

Infelizmente, não esquecido totalmente. Deu mais alguns passos até chegar perto de uma grossa e antiga árvore. Logo sentiu Jaken ao seu lado, curioso.

- Ohh... é uma árvore muito velha, Sesshoumaru-sama! Deve até ser sagrada para o povo dessa vila. Deve ter séculos de idade...

Sesshoumaru não respondeu. Começou a dar a volta na árvore até chegar ao outro lado. Jaken continuou divagando sobre as características da árvore até se dar conta que estava sozinho atrás da mesma.

- Sesshoumaru-sama? – deu a volta na árvore também encontrando seu mestre do outro lado, olhando para cima. Acompanhando a direção, finalmente viu o que atraíra seu olhar. 

- Inuyasha... – ouviu-o pronunciar vagarosamente em voz muito baixa, mas o desprezo era explícito em seu tom.

Havia um rapaz humano inconsciente preso àquela árvore secular. Possuía cabelos negros longos e pele morena clara. Uma flecha pregada diretamente em seu coração o prendia ao tronco grosso, e trepadeiras se enrolavam por seu corpo ajudando a mantê-lo no lugar. Não que fosse necessário algo para impedi-lo de sair dali... deveria estar selado. Mas Jaken nunca ouvira falar em seres humanos selados por flechas sagradas. Que lhe constasse aquilo só podia ser feito em youkais. 

- Sesshoumaru-sama... – o pequeno youkai arriscou, já que o silêncio já estava se tornando meio desconfortável. – O senhor conhece esse humano?

Não houve resposta. Seu mestre continuava olhando fixamente para cima, para o rosto adormecido do ningen. Achava que nada poderia desviar seu olhar dali. Não entendia porque ele parecia tão interessado no humano selado. 

- Não. – disse Sesshoumaru finalmente, dando as costas à figura adormecida pregada na arvore. – é apenas um meio-youkai inferior. Vamos.

Afastou-se daquele lugar, sentindo o servo youkai seguindo-o de perto. Parecia que estava destinado mesmo a ter alguém seguindo seus passos. Oh bem, ficaria com o idiota do Jaken, mal não faria. Mesmo que ele pudesse ser tão insistente às vezes. Não parava de fazer perguntas sobre o humano selado na árvore antiga. Ela se tornara seu túmulo. Que ironia... Fora tão arrogante em afirmar que se tornaria forte a ponto de enfrentá-lo um dia... no entanto terminara por ser derrotado por uma simples miko. Uma humana, como parte dele mesmo era. Nada mais apropriado para o filho bastardo de seu pai. 

Continuaria sua busca pelo seu maior objetivo, e dessa vez, dificilmente se deixaria distrair pela face frágil de um humano novamente.
 
 
 
 
 

Enquanto isso Inuyasha continuava preso em um sonho muito longo, onde o tempo se arrastava indefinidamente e rostos conhecidos de seu passado iam e vinham a ponto de uns se confundirem com os outros, mas mergulhado na inconsciência como se encontrava isso não chegava a perturbá-lo. Afinal suponha-se que permanecesse assim para sempre. Jamais se lembraria de nada do tempo em que ficou preso àquela árvore, fossem cinco ou quinhentos anos. Ou a eternidade. 

Aquela noite terminaria e depois ainda viriam muitas outras. Muitas luas novas, ocultas pela escuridão do céu pontuado por infinitas estrelas, mas mesmo seu estado momentâneo como humano não alterava o fato de que ficaria pregado àquela arvore até o fim dos tempos. 

Quem olhasse para seu rosto poderia dizer por sua expressão tranqüila que ele estava em paz. Ninguém nunca se aproximava daquele lugar que diziam ser amaldiçoado. Ninguém nunca perturbaria seu sono tão pesado. Inuyasha poderia continuar sonhando com as faces que lhe trouxeram dor ou alegria pelo período em que esteve vivo antes de ser selado.

Mas somente um desses rostos parecia esperar por ele. Eram olhos dourados ainda cheios de ressentimento e desprezo. Olhos que ainda o assombravam mesmo mergulhado no sonho mais profundo dos quase-mortos. 

Uma chuva fina começou a cair, apagando as pegadas dos dois youkais que estiveram diante da árvore onde Inuyasha dormia, e logo não haveria mais sinal de que alguém havia estado ali. Até mesmo esse rastro do cheiro dos dois youkais seria logo levado pelo vento e pela chuva fraca... mas talvez ainda sobrasse algum resquício que pudesse inspirar no meio-youkai adormecido mais sonhos quando a madrugada encontrasse seu fim. 

Não muito longe dali, havia um poço muito antigo onde os moradores do vilarejo próximo costumavam depositar ossos de youkais mortos. O quadrado escuro no meio da vegetação, aberto para o céu negro sem lua e repleto de estrelas, também parecia esperar por algo. Era como um convite através dos tempos para perturbar o silêncio e a paz daquele lugar esquecido por humanos ou youkais.

Para esse meio-youkai, agora um simples humano, para aquela árvore sagrada de incontáveis séculos e para o poço misterioso onde youkais encontravam um repouso para seus ossos... era tudo uma questão de esperar até que mesmo o tempo implacável os deixasse para trás.

Então, eles apenas aguardaram.
 
 


~ Fim ~


 


Fanfic por Lalachan, julho/2004
Copyright Rumiko Takahashi/Yomiuri TV/Sunrise/Shounen Sunday
Glossário:

Hanyou: meio-youkai
Haori: traje japonês; casaco bem largo
Miko: sacerdotisa
-sama: sufixo após o nome que indica uma forma muito respeitosa de se dirigir à pessoa, geralmente com alguém de hierarquia superior, como por exemplo os senhores feudais, imperadores, príncipes, princesas, monges, sacerdotisas, etc.
Youkai: criatura sobrenatural da mitologia japonesa, um tipo de espírito da natureza, que pode derivar de figuras de animais ou plantas.
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