Não Olhe para Trás

Fanfic por Ana-chan



“Sesshoumaru-sama!! Espere por mim...”

O grito de seu tolo servo Jaken foi a última coisa de que conseguiu se aperceber antes que perdesse o controle de seus movimentos. Não era sua intenção fugir. No entanto, quando deu por si, já estava preso no vácuo que o sugara de volta ao mundo dos vivos, incapaz de controlar a rota em que fora arremessado. Pouco depois, sentiu-se chocar contra o que quer que surgisse a sua frente e, pela primeira vez na vida, desejou que estivesse em condições de se desviar. Um tronco de árvore mais grosso e resistente conseguiu parar seu corpo recém destransformado, que insistia em reagir sem sua permissão. A dor lancinante em seu braço esquerdo não o deixava pensar, na verdade, mesmo que reunisse toda a força de vontade que lhe restara, não havia muito mais a fazer além de rosnar e se contorcer, como o mais patético dos animais feridos.

Não conseguia enxergar muito bem, mas podia sentir um tênue aroma de floresta por trás do cheiro forte de sangue, seu sangue e do veneno misturado com suor que minava de sua pele.

Havia sido tão rápido que mal podia lembrar... ou talvez simplesmente não quisesse fazê-lo.

Tentou mais uma vez recobrar algum domínio sobre si mesmo a despeito da dor implacável que arrancava grunhidos do fundo de sua garganta que nem sabia ser capaz de emitir. A mata ao seu redor havia assumido a forma de múltiplos borrões verdes que pareciam mover-se em direções contrárias. Pensou que fosse desmaiar, chegou a desejar que isso acontecesse, mas, num último e ultrajante acesso de rebeldia, seu corpo reagiu à miséria a que foi subjugado. Vomitou seu próprio veneno, e o que mais houvesse em sua barriga. Apenas quando a ânsia aplacou deu conta que havia sujado o cabelo, além de partes da roupa antes tão impecavelmente branca. Estava imundo até os ossos, com a armadura semi-destroçada, afundado naquele cheiro insuportável e sentindo como se tivesse tido o braço esquerdo rasgado de cima a baixo, reduzido a dois ou três pedaços de carne imprestáveis.

Não tinha a mais remota idéia de onde podia estar.

Tentou se arrastar para longe de sua própria sujeira, por receio de acabar desabando sobre ela. No segundo movimento, contudo, seu corpo falhou, e ele bateu com o queixo no chão. Um impacto insignificante que, no entanto, foi sentido como se tivesse caído de um penhasco. Por instantes, não pôde entender o que se passara, até que um lance de memória mortificante cruzou seu pensamento, a ponto do sangue que ainda corria em suas veias congelar...

Suspendeu o corpo, escorando as costas no tronco danificado pelo impacto anterior. Fechou os olhos. Levou a mão direita ao ombro esquerdo, sentindo-o latejar. Talvez estivesse apenas fora do lugar. Havia sido um golpe da Tessaiga afinal... Mas o persistente cheiro de sangue o alertava de que não era bem assim.

O braço que doía a ponto de lhe roubar o juízo não havia sido apenas despedaçado. Ele não existia mais.

Seus dedos alcançaram a manga vazia, empapada de sangue. Achou que fosse gritar ou ter mais algum tipo de reação ridícula, mas, felizmente, permaneceu inerte, olhos semi abertos fitando a paisagem fora de foco a sua frente. Não havia nada mais a ser feito.

Ao menos havia conseguido superar seu pai em uma coisa. Havia conquistado para si uma morte mais idiota do que a dele.
 
 
 
 
 
 

Anoitecia. Continuava no mesmo lugar, na mesma posição, mas não estava morto. Ainda. Não era inverno, mas sentia como se o vento frio da noite pudesse atravessar suas roupas. Não que pensasse em fazer algo a respeito... Já não se importava mais com a dor, pois já havia assimilado que, de certo modo, ela não se justificava. Tampouco se importava com o sangue que ainda escorria do ferimento, ou com o fato de que ainda viria a se tornar piada pior do que seu pai. Afinal, tudo havia se dado conforme a vontade dele. A distribuição das espadas era a prova definitiva, se é que precisava de mais alguma, de quem era o verdadeiro herdeiro do Inutaishou. Agora que havia cumprido a sua parte, não era mais necessário do que uma manga de quimono vazia.

Não estava mais sozinho. Incrivelmente não foi o cheiro que o alertou para esse fato, embora o olfato fosse, disparado, o seu melhor sentido. Viu os olhos deles, pequeninos e brilhantes, ávidos. Não tinham cheiro algum, o que seria de estranhar, se estivesse em condições de estranhar alguma coisa. Algo havia mudado também. Já não sentia tanta dor, apenas o formigamento de um braço perdido, e no peito, onde Inuyasha o cortara pela última vez.

A espada inútil em sua cintura pulsou. Era só o que lhe faltava, ter que ser lembrado da existência daquele pedaço de metal inútil, feito do outro canino de seu pai. Seu prêmio de consolação, que não serviria sequer para evitar que fosse depredado vivo pelas criaturas que se aproximavam, cada vez mais interessadas. Podia vê-las claramente agora, serezinhos pequenos e insignificantes, que em outra situação, nem sequer se atreveriam a se aproximar. O instinto o fez crispar as garras, mas logo abandonou tal estratégia. Talvez aqueles carniceiros tivessem a sua utilidade afinal...

Não demorou para perceber que não sairia ataque algum dali, e que tudo se resumiria a uma espera, longa ou breve, tanto faz. As criaturinhas se dispuseram à sua volta, distantes o suficiente para que não as alcançasse com as garras. A espada idiota ainda pulsava, como se pudesse fazer algo a respeito. Logo ela, a arma patética que não servia para matar ou ferir. O exato oposto daquela que desejava, a sua Tessaiga, capaz de abater cem vidas com um único golpe.

Não queria mais pensar na razão daquilo, porque se existisse alguma, com certeza seria tão desprezível quanto a origem da insanidade que dominou seu pai em seus últimos anos de vida. É certo que já não se davam tão bem naquela época, afinal, desde que tomara para si o direito de ser considerado um adulto, haviam se tornado, em teoria, rivais. Esse fora o entendimento geral, ou ao menos o dele. Jamais fora perdoado por não compreender seu espírito complacente assim como jamais o perdoaria pelo mesmo motivo. Há muito decidira parar de olhar para trás. Era inútil de qualquer jeito.

A silhueta imponente se formou diante de seus olhos, surgindo por entre os arbustos da floresta como se estes se desviassem para dar-lhe passagem. As criaturas que espreitavam foram ignoradas, mas tampouco abandonaram sua vigília.

“Chichi-uê...”

Só podia ser alguma alucinação, ou sonho. Havia acabado de lutar no interior de seu esqueleto...

O olhar dele era severo, como sempre. Reprovador. O encarava de cima, como costumava fazer quando desejava fazê-lo se sentir um aprendiz tolo.

Teria dormido sem se dar conta?

“O que faz aqui? Está morto.”

“Eu que deveria fazer essa pergunta. Por acaso sabe onde está?”

“Vai embora... Eu sei muito bem onde estou. Sua presença é desnecessária.”

“Isso é jeito de cumprimentar seu pai... Depois de tanto tempo. Achei que fosse ao menos sentir minha falta...”

“Acha que eu sentiria falta de ouvir suas tolices?”

“Teimoso. Arrogante. Rude. Nunca vai mudar, Sesshoumaru?” Ele se aproximou, até parar bem a sua frente. “Por que se deixou chegar nesse ponto? De perder um braço?... Por que não aceita a espada que eu deixei para você? Vejo que nunca a usou...”

“Aproveite que está aqui e a leve de volta para o inferno.”

“Você mesmo poderá levá-la em pouco tempo. O que houve com você afinal? Se é que vai me contar...”

“Tessaiga... por que?”

Não era sua intenção fazer perguntas para as quais já sabia as respostas.

“Tessaiga?”

“Colocou um selo nela...”

“Eu lhe disse que não teria essa espada. A Tessaiga é a herança do seu irmão, Inuyasha.”

“Meio-irmão.”

Só o som daquele nome já fazia a dor aumentar. Ouvi-la entoada com orgulho por seu próprio pai, era pior do que levar uma bofetada.

“Que seja.”

“Um hanyou...”

“Nunca se conformou de eu ter escolhido uma mulher humana...”

“Vai embora...”

“Acha mesmo que eu vou te abandonar nesse estado?”

“Faça o que quiser.”

... Você já me abandonou, chichi-uê.

“Por que age assim, Sesshoumaru? Me odeia tanto só porque não entende as escolhas que eu fiz?”

Só um sonho... não preciso conversar com uma droga de sonho.

O youkai a sua frente se abaixou, de modo que pudesse estar frente a frente. Era difícil ignorar o rosto que não via há tantos anos, o rosto do único youkai que respeitara em sua vida.

“Lembra-se de quando veio viver comigo? Costumávamos ser amigos então. O que pode ter nos feito mudar tanto? Izayoi? Seu pequeno irmão que eu só vi uma vez?”

Sentiu os olhos queimarem. Ainda havia energia em corpo afinal, ou apenas desprezo suficiente para que a simples menção àqueles seres lhe despertasse ímpetos dos mais furiosos.

“Pegue a sua espada inútil e vá assombrar os sonhos do seu outro filho... Ensine-o a usar a Tessaiga, porque se eu me levantar daqui, não desistirei enquanto não tomá-la de volta.”

O youkai não desviou o olhar. Era como se bebesse cada uma de suas palavras, aceitando-as como uma punição inevitável. Depois se pôs de pé.

“Muito bem, Sesshoumaru. Se é isso que quer, não o perturbarei mais. A Tenseiga é sua. Se quer tanto assim se livrar dela, faça isso você mesmo. E não se preocupe, você tem meu sangue, não vai morrer porque teve um dos braços cortado, a menos que queira que isso aconteça.”

E desapareceu, como se nunca estivesse estado ali.

“Chichi-uê...”

... Por que o senhor me esqueceu?

Mas seu pai partira novamente. Apenas as criaturinhas de olhos fixos, porém estranhamente pacientes, permaneciam, como se fossem capazes de esperar por toda a eternidade se fosse necessário. Alguns portavam estacas pequenas, como se pretendessem cutucá-lo com elas, ou coisa do tipo.

Pela primeira vez ousou tocar a ponta do braço cortado, ainda que por cima da roupa. Pressionou o que pôde, concentrando-se em conter o sangramento que persistia, não tão abundante, mas perigosamente insistente.

Cerrou os olhos, deixando-se dominar pela energia que ainda era capaz de emanar. Seu pai tinha razão. Não seria a falta de um braço que lhe mataria. Podia destruir a inútil Tenseiga sozinho, ou apenas livrar-se dela. O que o impedia afinal?

A espada pulsou, como se adivinhasse seus pensamentos, só que dessa vez, era como emitisse uma luz. Os seres ficaram inquietos, começaram a se retirar, confusos. Uma simples luz? O pulsar mudou de ritmo, diminuir de freqüência, mas aumentou de intensidade.

Foi assim que, do nada, enxergou seu pai outra vez. Não como da última, quando teve a sensação quase nítida de estarem sua presença novamente, e sim como se estivesse atrás de uma névoa, que tomava tudo a seu redor...
 
 
 

“O que pensa que estava fazendo? Ainda não tomou o meu lugar para achar que pode lutar as minhas batalhas. Eu deveria castigá-lo.”

Ao mesmo tempo em que ralhava, ele puxava os espinhos cravados no braço do filho. Por sorte, o golpe que ele recebera havia se concentrado em só uma parte do corpo. Seria bem mais complicado se os espinhos tivessem se espalhado mais.

“Não vai me dizer nada?”

“Me desculpe, chichi-uê.”

“Quantas vezes vou ter que te dizer que não quero que lute? É um pirralho ainda, pode ser morto! Você é meu único filho, Sesshoumaru. Será que nada disso passou pela sua cabeça?”

 “Eu venci.”

“Isso não importa!”

“Sim senhor.”

O youkai olhou para cima, aliviado por ter retirado o último espinho. O braço estava meio arroxeado, mas nada que justificasse maiores preocupações.

“Está doendo?”

“Não.”

“Vamos, eu sei que está.”

“Não está...”

Estava sim, e muito. Seus olhos se fecharam, sucumbindo ao cansaço, ou talvez ao efeito do remédio que seu pai lhe dera. Sabia que ele não estava tão zangado assim. Sabia que seu braço ficaria bom e que nada lhe aconteceria enquanto não conseguisse usá-lo. Recostou-se ainda mais sobre a pele de cão que ele havia estendido sobre seu colo, sentindo a mão dele tocar de leve sua cabeça.

“Durma bem, filho.”

Não seria deixado sozinho tampouco. Não sabia bem como definir o que sentia... só sabia que, mesmo depois que fosse um youkai adulto e tivesse o direito de lutar suas próprias guerras, mesmo depois que fosse grande demais para dormir encostado em outra pele que não fosse a sua própria,  jamais desejaria se separar dele.
 
 
 
 
 

“Sesshoumaru-sama!! O senhor está aí??”

Aquela voz era estridente demais para que fosse ignorada.

Abriu os olhos devagar, a claridade era como um castigo a mais a ser encarado. Como se Jaken não fosse o bastante.

“Jaken...”

“Sesshoumaru-sama!! Enfim o encontrei!! Estou procurando pelo senhor há quatro dias!! Sesshoumaru-sama, o seu braço... Não pode ser!!” Ele secou as lágrimas em uma das mangas “Estou tão contente que esteja vivo”.

“Os youkais...”

“Youkais? Que youkais, Sesshoumaru-sama?”

“Pequenos... Vários deles...”

Jaken olhou ao redor, procurou puxar pelo nariz. Não havia visto um youkai sequer naquela região. Talvez ele estivera sonhando, não que fosse levantar a hipótese. Lágrimas se formavam no canto de seus olhos cada vez que olhava para ele, o traje imundo de pó e sangue, a armadura praticamente destruída... Era demais para seu coração ver Sesshoumaru-sama daquele jeito.

“Há um riacho aqui perto. Buscarei água para o senhor.”

Jaken se afastou. Foi quando notou que a Tenseiga não estava mais em sua cinta, e sim sobre seu peito. A mão que lhe restava estava sobre a bainha. Aproveitou e usou a espada como apoio para se erguer um pouco.

Seu estado ainda era dos mais lastimáveis. Certamente ainda levaria alguns dias para se levantar dali. Quanto ao braço... Podia passar sem ele... ou arranjar um substituto. Não voltaria para procurá-lo, isso nunca. Jamais olharia para trás. E se não fosse capaz de tomar a Tessaiga de volta com um braço só, era porque não a merecia.

Maldito hanyou... maldito selo... maldito...

Um sonho, só podia ser...

Tudo era diferente... as árvores a sua volta, os cheiros que agora podia melhor distinguir... Até chegara a conclusão de onde poderia estar. Tão diferente de quando fora parar ali...

Fechou os olhos. Sabia que seria impossível, mas não se importaria de voltar, apenas mais um pouco, para o onde estava antes.
 
 



~ Fim ~

 


Fanfic por Ana-chan, agosto/2004
Copyright Rumiko Takahashi/Yomiuri TV/Sunrise/Shounen Sunday
Glossário:

Chichi-uê: forma antiga e respeitosa de se dirigir ao pai, quer dizer algo mais ou menos como: "papai que está acima de mim" ^_^
Hanyou: meio-youkai
-sama: sufixo após o nome que indica uma forma muito respeitosa de se dirigir à pessoa, geralmente com alguém de hierarquia superior, como por exemplo os senhores feudais, imperadores, príncipes, princesas, monges, sacerdotisas, etc.
Youkai: criatura sobrenatural da mitologia japonesa, um tipo de espírito da natureza, que pode derivar de figuras de animais ou plantas.
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