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Fanfic por Ana-chan
Ela colocou as mãos na cabeça. Olhava para o chão com olhos fixos, como aqueles que perdem o rumo do dia para a noite. Não deixava se ser seu caso de certo modo. Estava perdida... completamente perdida. Teve ímpetos de revirar o quarto novamente. De passar mais uma tarde refazendo caminhos, vagando pelo pátio e pelos jardins com olhos pregados no chão e medo de erguer o rosto. Porque se encarasse alguém, se algum rosto conhecido ou não lhe desse a entender que sabiam... Como poderia ser ela mesma depois disso? Seria pior que se todos a vissem nua. Jogou a cabeça para trás. Não podia passar nem mais um dia assim. Tinha suas responsabilidades, a equipe de esgrima, as aulas, provas... Logo receberia alguma notificação ou pior, alguém iria bater em sua porta. Isso se a essa altura já não fosse o tema de piada favorito de todo os estudantes. Fazia uma semana. Uma semana que não sabia o que era a sua vida, do jeito que a conhecia. Uma semana sem seu precioso pingente. Mais do que uma jóia preciosa, ele era o seu segredo. Mais cedo ou mais tarde alguém o encontraria. Alguém o abriria. Alguém procuraria a menina cujo rosto era tão bem guardado em seu interior. Quando isso acontecesse, seus sentimentos mais secretos seriam expostos e se tornariam a sua ruína. Queria pensar... Queria acreditar que algum milagre a salvaria, mas milagres não existem. O pingente poderia muito bem estar perdido para sempre, tanto para ela quanto para qualquer outra pessoa. Só que se fosse para ser assim, ela mesmo teria decidido esse destino. A perda de tal objeto era como uma sina. Inevitável, hedionda como a verdade por trás daquela foto sem rostos. Se houvesse milagre, se isso realmente existisse, não haveria razão para segredos em primeiro lugar. Talvez, procurando mais um pouco... Ela saiu, antes que a idéia lhe escapasse. A esperança era algo patético mesmo. No meio do caminho lembrou que havia um serviço de achados e perdidos que poderia consultar. Certa vez havia perdido um par de luvas e as achara lá. Puro azar, já que as achava de um mau gosto indescritível. Tinham sido um presente, enfim, se julgou na obrigação de procurá-las. Caminhou por um tempo, ignorando os que lhe dirigiam a palavra. Provavelmente o pingente ainda não havia sido encontrado. Talvez valesse a pena dar mais uma olhada no vestiário. Quando passou pelo prédio da administração, acabou entrando. Conhecia a funcionária encarregada do setor, talvez, explicando bem, conseguisse sem que o pior acontecesse. “Tem alguém aí?” perguntou no balcão antes que mudasse de idéia. “Olá, Juri-senpai.” Era uma aluna mais nova. De uns anos pra cá haviam alguns encarregados dos mais variados serviços. Ela mesma era monitora de esgrima, praticamente a única professora desde que... Bem não ajudaria pensar nisso também. “Olá. Eu gostaria de saber se foi encontrado essa semana um pingente dourado.” “Um pingente de ouro, quer dizer. Sim, Mine, uma aula da classe especial de flauta o encontrou. Cheguei a vê-lo. Que lindo. É seu?” “Não, de uma amiga. E ele está aqui?” “Não. Como se tratava de uma peça de valor e nosso cofre está com problemas, a própria aluna que o encontrou se comprometeu a guardá-lo até que o dono o procurasse.” “Mas... E onde posso encontrá-la?” “Um momentinho que vou escrever o número do quarto e a localização. É bem perto, eu acho.” Juri a observou escrever calmamente. Pela sua expressão, nada indicava que havia visto o interior do pingente. Ela podia não ter entendido também, afinal, não era alguém que a conhecesse. Seu suplício estava chegando ao fim, só faltava pegar a peça com a tal Mine e tudo ficaria bem.” “Taqui.’ “Muito obrigada” E saiu sem dizer mais nada.
Bateu na porta. “Quem é?” “Meu nome é Juri, e eu procuro por Mine. É sobre um pingente perdido.” “Ah, sim, entre que está aberta.” Ela empurrou a porta. O quarto estava vazio. “Um instante que eu estou terminando de me enxugar. Fique a vontade, sim?” “Obrigada.” Ela sentou na beira de uma cama meio desarrumada. Ordem não deveria ser lá muito o ponto forte da tal Mine. “Então você é a dona do pingente?” “Sim...” respondeu timidamente. Será que ela o tinha aberto? “É muito lindo. Adoro essas peças que abrem para se por uma foto dentro. Parece relíquia de família. Quem é no retrato?” Juri petrificou. “Bem, é...” “Ah, não precisa dizer se não quiser. Já imagino tudo. Pode ficar sossegada.” “Olha, não é bem o que...” “Tudo bem, já disse. Também sou tímida com relação a essas coisas, sei como é.” Juri levou a mão ao coração sem nem mesmo perceber. Talvez a garota ainda não tivesse topado com a pessoa do retrato em algum corredor da escola, mas e no dia que isso acontecesse? Não poderia tirar dela o que tinha visto... Como podia confiar? Como? Milagres não existem e seria um milagre que a perda daquele pingente não lhe destruísse. Tola, como fora tão tola. E agora teria que pagar por isso. Talvez houvesse algum modo de fazer com que Mine... Mas como? Era apenas uma estudante, e pela voz e pelo jeito do quarto, dessas que não ligam pra nada. O que faria? “Ah, pode ir pegando o pingente. Está na escrivaninha, gaveta da direita bem na frente.” Ela foi até lá. Assim que teve nas mãos o objeto perdido sentiu o peito afrouxar, como se tivesse passado todos aqueles dias sem respirar direito. “Obrigada... Mine, eu...” “Sim?” A garota despontou na porta. Era bonita, de cabelos negros e muito lisos, pele muito clara e olhos castanho claros. Transmitia uma serenidade estranha, e ao mesmo tempo... Ela tinha um olhar vago, como se... A garota deu três passos e estendeu a mão, ligeiramente na direção errada. “Muito prazer, sou Mine.” Por um instante, Juri ficou estática. Estendeu-lhe a mão mecanicamente, como se sua mente precisasse de um tempo para processar a informação. “Prazer, Juri.” “Já pegou o pingente?” “Já sim, obrigada.” “Que bom.” “É...” “Hum, já sei! Deve estar pensando como logo eu que não enxergo fui achar seu pingente.” “Não, eu...” “Não tem importância, eu explico. Estava andando anteontem por aí quando o meu cachorro guia o encontrou e trouxe pra mim. Parece que estava no chão, perto do jardim das rosas. Acho que o fecho arrebentou. Bom, então eu fui direto ao achados e perdidos e o resto você já sabe.” Elas caminharam até a porta. “Eu não sei como te agradecer,” despediu-se Juri sem saber o que dizer “Esse pingente é muito importante para mim.” “Imagino... E como vê, eu nem pude descobrir o seu segredinho aí dentro. Não é um milagre?” Juri esboçou um sorriso, como se a jovem a sua frente pudesse vê-lo. Com certeza ela não tinha a mínima idéia do que estava falando. “Milagres não existem,” pensou. “Você é o milagre, Mine.”
~ Fim ~
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Fanfic por Ana-chan, outubro/2001 Copyright © 1997 B-Papas / Saito Chiho / Shogakukan / Shou Kaku Committee / TV Tokyo Glossário: -senpai: (sufixo) forma de se dirigir a um aluno mais adiantado, a um veterano Voltar ao Mundo da Lua |