A Manhã sem Fim

Fanfic por Ana-chan



Aquela manhã parecia não ter fim. O tempo estava assustadoramente quente. Gatts não se lembrava de algum dia já ter sentido tanto calor. Se pudesse, andaria nu pelo acampamento dos Falcões, sem se importar com mais nada. Por todos os lados, não havia quem não buscasse a sombra de alguma árvore ou o interior das barracas. É claro que isso só duraria até Griffith resolver que devessem continuar. Também ninguém desejava ficar ali pra sempre. Não agora que tinham tantos planos pela frente.

Recentemente, Griffith havia feito um acordo com Midland, um dos maiores reinos do continente. Os Falcões estavam prestes a deixar de ser um simples grupo de mercenários para se tornar um exército oficial. Bom demais pra ser verdade? Talvez, mas desde que havia conhecido aquela gente a palavra impossível havia perdido o significado. Havia se tornado apenas um sinônimo de desafio, e não havia desafio que parecesse suficientemente grande para Griffith e seu invencível Taka no Dan.

Quanto a ele, pagaria pra ver. Já que estava ali, já que de algum modo havia se acostumado, já que de algum modo havia até tomado gosto... ou não. Como poderia saber? Às vezes era estranho viver cercado de gente o tempo inteiro. Há tantos anos não sabia o que era isso. Era como fazer parte de algo maior, e ao mesmo tempo estar tão deslocado quanto no primeiro dia.

Balançou a cabeça. Todos aqueles pensamentos só podiam ser o calor cozinhando os seus miolos.

Foi até o rio. Havia muita gente lá, o que era de se esperar. Se o vissem, não teria como escapar de se juntar a eles e no momento, não era isso que procurava. O grupo ainda era jovem, e a maré de sorte dava a todos a confiança de que precisavam para aproveitar um dia de sol como se fossem crianças despreocupadas.

Passou ao longe, seguindo o rio até algum ponto mais afastado. Havia um ponto mais adiante em que a vegetação era mais espessa, perfeita para que pudesse tomar um banho sem nenhum pirralho metido a soldado tagarelando em seus ouvidos.

Sentou, tirou as botas, a camisa, e já estava a ponto de se livrar das calças quando percebeu que não tinha sido o único a ter tido a idéia de se refrescar com um pouco mais de privacidade.

Olhou para o chão. Não, não podia... Caska estava lá, tinha acabado de ver a moça nua como veio ao mundo. Um acidente, é claro, como ia saber? Por sorte ela não o havia visto ou seria uma briga dos infernos na certa. Aquela mulher já o detestava o suficiente sem se sentir espionada por ele...

Mal se deu conta, e já estava lá de novo, olhos pregados sobre o corpo dela, só que dessa vez completamente consciente do que estava fazendo. Já a havia visto nua afinal... Haviam dormido juntos três dias. Diabo de mulher, por que tinha que ser tão megera?

Ela virou-se e ele se abaixou rápido, bem a tempo de se ocultar atrás de um arbusto como um idiota qualquer. Podia muito bem aparecer bem na frente dela e fazer o que bem entendesse. O que ela era? A dona do rio? Se achava bem viver entre homens como soldado que direito ela tinha de exigir tratamento de donzela?

No entanto, permaneceu abaixado, relutando entre uma espiadela e outra. Pior, não sabia como sair dali sem ser visto e se fosse visto, ela saberia que tinha sido espiada e...

“Ohayo, Gatts.”

Quase caiu sentando de susto.

“Desculpe, não pretendia te assustar.”

“Er... Griffith...” sussurrou completamente desarmado.

“Não se preocupe. Ela não vai nos ouvir daqui,” disse calmamente, sentando-se ao lado dele. Seu sorriso trazia a mesma jovialidade de sempre, e, devido às circunstâncias, uma ponta de malícia. Não gostava de quando recebia esse tipo de olhar, mas no momento quem era ele pra reclamar de alguma coisa.

“Eu só estava...”

“Deixa eu adivinhar. Estava indo nadar no rio quando encontrou Caska. Acertei?”

“Hn...” Claro que ele estava certo. Quando não estava?

“Então, o que te fez mudar de idéia?”

“Mudar? Sobre o que?”

“Sobre nadar. Desistiu pelo que estou vendo.”

Griffith estava provocando, como sempre. Nunca sabia ao certo se ele estava falando algo de jeito ou apenas testando suas reações. Talvez só pudesse mesmo confiar nele quando lutavam e mesmo assim não com a cegueira de todos os outros ali que o veneravam como um deus. Era só um rapaz, enfim, e do tipo que evitaria até a morte se não tivesse calhado de conhecê-lo do jeito que conheceu.

“Hn, não vou atrapalhar o banho dela. Aquela mulher é louca, vai achar que eu estou aqui pra espiar.”

“Ela não acharia isso se você tivesse simplesmente aparecido. Sabe que Caska não tem privilégios de mulher aqui. Agora, te descobrindo aqui escondido... até eu teria que concordar com ela.”

“Não esquece que você também está aqui.”

“É... você tem razão.” Coçou a cabeça, distraído “Então, gosta do que vê?”

“Quer dizer, dela?”

“Está bem diferente agora do que quando chegou aqui. Se fosse uma garota comum, morando numa vila, certamente já teria um marido.”

“Eu sei. Só que pra isso seria preciso que você também fosse um sujeito comum, morando numa vila.”

Griffith riu. Detestava que rissem do que falava, sobretudo quando dizia algo supostamente sério.

“Você gosta dela,” afirmou.

“Eeeu? Que o inferno me sugue. Preferia gostar de uma serpente...” resmungou bastante incisivo. Depois, de que adiantaria? – pensou – se só existe você no mundo em que ela vive?

“É... está mesmo quente.” Griffith se deitou bem ao seu lado, espalhando aqueles cabelos tão claros sobre a relva batida “Até que sem querer você descobriu uma boa sombra.”

“Griffith... Por que você não a toma pra ser sua mulher?”

“Você quer dizer Caska? Só pode estar brincando...”

“Qual é o problema? Ela agüenta essa vida, é leal a você... e... ela até que não é... feia.”

“E você acha que combinamos?”

“Não acho nada. Só seria prático, talvez.”

“Hum... Não. Talvez, se fossemos pessoas comuns, morando numa vila, como você mesmo disse.”

“Não sei qual é a diferença.”

“Claro que não... Mas isso não importa. Em breve, daremos o nosso maior passo. Nenhuma mulher me faria olhar para trás. Você vai ver, Gatts, quando chegarmos a Midland.”

Ele fechou os olhos, como se estivesse cochilando. Gatts sabia que estava bem acordado, mas entendeu aquilo como uma salutar interrupção no rumo daquela conversa. Havia sido mesmo muito estúpido da sua parte perguntar aquelas coisas sobre Caska... e sem cabimento nenhum. Eles podiam estar juntos de certo modo, mas não combinavam nem um pouco. Seria no mínimo estranho um casal em que a mulher tivesse mais cicatrizes de batalha do que o homem. E Griffith era refinado demais para ela. Não que ela estivesse errada, ele é que não parecia ser deste mundo. Depois de semanas de caminhada rumo a Midland naquele verão escaldante, estavam todos fedendo a suor, com a pele esfolada pelo sol... No entanto o rapaz ao seu lado lhe parecia imune a qualquer efeito da natureza ou da vida que levavam. Seria assustador se não fosse tão...

Mas que merda! Precisava mesmo esfriar a cabeça!

Levantou do jeito que estava, deu três passos e...

“Ei!!!”

E Caska lhe surgiu estatelada no chão. Havia batido de frente. Ao menos ela já estava vestida.. ou quase.

“Seu idiota, onde está com a cabeça, hein?!”

“Eh... Caska. Eu...”

“Sai da minha frente, anda.” Ela levantou num pulo, sem ligar a mínima para os trajes de ambos, ou a falta deles. Passou por Gatts que nem um furacão, resmungando sem parar, deixando-o sem fala, como sempre.

“Mulher maluca...” disse entredentes, antes de seguir em frente.

“Oi Gatts!”

Mal tinha enfiado um pé na água e já tinha sido encontrado.

“Se escondendo de nós, né?” brincou Judeau.

Nem teve tempo de responder. Num instante estava cercado dos comandantes dos Falcões, envolvido a contragosto naquela barulheira infame. No entanto, aquela água tão fresca era como um pedaço do céu a disposição de qualquer um. E estavam todos tão alegres que mal evitou de sorrir. Uma pena que Caska fosse mulher e esquisita demais para estar ali com eles, e Griffith...

Saiu do rio rapidamente.

“Oi, Griffith...”

Só que ele não estava mais ali.

“Gatts! Volta aqui!” gritou alguém dentro do rio.

Para onde ele teria ido? – pensou Gatts, olhando em volta.

“Gatts!!!”

Nem um, nem outro. Era estranho que tivesse que ser sempre assim.

Olhou para cima. Ainda não era nem meio-dia.

“Gaaaaatts!!!”

Voltou-se para o grupo que aproveitava o banho. Estavam tão satisfeitos que poderia se sentir do mesmo jeito só de olhar.

“Já vou.”

Como era estranho viver cercado de gente o tempo todo.

Mas até que não era ruim.
 
 



~ Fim ~

 


Fanfic por Ana-chan, outubro/2001
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Glossário:

Ohayo: bom dia
Taka no Dan: Bando dos Falcões
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