| AVISO IMPORTANTE: Esta é uma fanfic Yaoi, com cenas Lemon, e contém relacionamento sexual entre pai e filho (incesto). Este conteúdo pode ser considerado pesado para certas pessoas. Se você achar esse assunto ofensivo ou não lhe agrada a idéia, sugiro que não continue sua leitura. |
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Fanfic por Ana-chan
Mal havia se desviado de seu último golpe, e já podia prever o próximo ataque tedioso, naquela velocidade ridícula da qual até mesmo um hanyou ordinário deveria se envergonhar. Contemplar aquele esforço inútil nem era a pior parte. Pior era constatar que aquele encontro malfadado só estava acontecendo porque havia cheiro de mulher humana por perto, uma com algum sangue correndo nas veias, pelo visto, e não uma boneca sem vida como fora sua mãe. Havia se enganado ao pensar que Inuyasha pudesse saber algo sobre o paradeiro da Tessaiga. Aquele pedaço de carne desengonçada além de parecer nunca ter ouvido falar do youkai que deveria chamar de pai, ainda por cima tinha a mesma expressão de desespero contínuo da mulher que lhe gerou. Quando pensou que um dia voltaria a se deparar com aqueles olhos assustados novamente? Inuyasha, esse é por me fazer lembrar daquela sua mãe patética... Agarrou-lhe o pescoço com uma das mãos, erguendo-o do chão apenas o suficiente para que seus pés descalços se debatessem no ar. Bastaria que apertasse mais um pouco, mas preferiu deixar que o veneno o queimasse antes. O grito previsível cortou o ar, ainda que um pouco abafado, mas suficientemente audível para que atraísse alguma atenção. Não o estava sufocando, embora a queimadura certamente devesse doer. Teria que fazer alguma outra coisa se pretendesse privá-lo de sua inútil vida. “Ki...ky...o...” Seus olhos começaram a se fechar, como se estivessem sendo vencidos por algo além de um golpe preciso. Suas mãos chegaram a se fechar ao redor do braço sob a manga branca, numa tentativa débil de ver-se livre daquela posição humilhante. No entanto, logo a compreensão de que seus esforços eram vãos lhe alcançou. Não era tão obtuso assim... Chamou novamente aquele nome idiota de mulher, como se fosse merecedor de um último desejo, ou como se repeti-lo fosse toda a ladainha que soubesse. A insistência aumentou o escárnio de seu agressor, instigando-o a acabar logo com tudo. “Morra...” o tom monocórdio do irmão mais velho anunciou o golpe de misericórdia. Os corpos deslocaram-se rapidamente pelo ar, como se não houvesse um mínimo de esforço por trás do movimento. A presa foi imprensada contra uma árvore, ainda sendo suspensa dolorosamente pelo pescoço. Se, naquele momento, estivesse com os olhos abertos, veria a garra da mão esquerda aproximando-se de seu peito, prestes a perfurar o exato ponto onde fica o coração. No entanto, tal momento se perdeu, desaparecendo diante dos olhos espremidos, emoldurados por cílios longos e negros que se pareciam se entrelaçar. Finalmente olhou para a frente. Estava certo então de que seria este o preço de ver aquele teatro concluído. Sesshoumaru não o mataria sem o deleite de ver medo em seus olhos, deleite esse que há muito decidira negá-lo. Apenas o encarou então, sentindo-se misteriosamente mais calmo do que instantes atrás, embora seu pescoço doesse miseravelmente, e não conseguisse respirar direito. Sim, ele estava esperando que se borrasse, ou era o que parecia. Os olhos dourados estavam fixos em seu rosto, com a mesma inexpressividade de sempre. Queria ainda ter forças para xingá-lo, mas deixá-lo frustrado em seus anseios já seria bom o suficiente. O rosto dele se aproximou do seu. Estava tentando amedrontá-lo, fazê-lo pedir ajuda ou implorar piedade. Foi quando captou um lance de curiosidade naqueles olhos sempre imutáveis, emoldurados pelo rosto que desde o primeiro dia lhe pareceu perfeito demais para ser verdadeiro. Então, a outra mão segurou seu queixo. Instintivamente fechou os olhos, um ato do qual se arrependeria bastante, já que foi durante sua cegueira que seu corpo foi libertado. Levou a mão imediatamente à lateral do rosto, embora o desconforto nas áreas mais maltratadas fosse sensação pior. Ainda podia sentir o calor e a umidade do contato dos lábios e da língua dele contra sua pele, queimando-o mais do que aquele veneno asqueroso. “... Bastardo...” Ainda o viu desaparecer ao longe, mas não
conseguiu dizer uma só palavra, qualquer ofensa que pudesse revidar
tamanha humilhação. Apenas permaneceu onde estava, desejando
que ela jamais o visse assim.
“Sesshoumaru-sama! Enfim o encontrei!” Jaken não esperou resposta ou cumprimento, pois há algum tempo havia assimilado que eles jamais viriam. “Estava preocupado com o senhor! Youkais da floresta me contaram que nessa região vive uma sacerdotisa muito poderosa!” “Jaken...” “Sim, senhor!” “Cale a boca.” O servo engoliu seco. Não que fosse a primeira vez que levava um fora ou algo assim, mas era difícil ver seu jovem amo tão visivelmente irritado. Talvez fosse o fato de ainda não ter encontrado a tal espada, era difícil adivinhar. De qualquer modo, a prudência recomendava que não abrisse a boca até ter algo de bom a dizer. “... Ai... Onde será que estamos
indo agora?...”
O nevoeiro estava denso agora. Mesmo se olhasse para trás, não poderia enxergar Jaken, embora seu olfato o informasse de que ele estava um pouco para trás. Às vezes se perguntava o porquê de ter permitido que aquele youkaizinho o seguisse. Era tão inútil quando um humano, se não fosse mais... Ao menos servia para carregar o cajado enfim. Desde que havia deixado as imediações do povoado humano, conseguira evitar em pensar na razão de ter falhado novamente em tirar a vida daquela aberração que seu pai fizera questão de proteger com a própria vida. Apertou o passo, satisfeito que a névoa o estivesse cobrindo até o último fio de cabelo. “Chichi-uê...”
“Então... está é a sua decisão.” “Hai.” A confirmação foi proferida com facilidade e firmeza, tanto quanto a comunicação de sua partida. “Não vou pedir que fique. Também não partirei com você. Viverá completamente sozinho. Sabe disso...” “Eu sei.” O vento cortou o espaço entre os dois, como se pretendesse lembrá-los da distância que os separavam. O daiyoukai continuava de frente para o nada, sem exibir qualquer intenção de ver o rosto de seu filho uma última vez. Tampouco o jovem esperava tal gesto. “Adeus, Sesshoumaru.” Olhos dourados ainda permaneceram fixos na figura paterna, desperdiçando os últimos instantes que precediam o inevitável fim. “Sayonara... chichi-uê.”
Não foi surpresa quando notou que estava parado no mesmo ponto onde, há tantos anos, o havia encontrado pela última vez antes de seguir seu próprio caminho. Nunca pensara antes em realizar tal percurso em particular, mas os anos de buscas frustradas pelo túmulo de seu pai e seu recente reencontro com seu meio-irmão despertaram-lhe a suspeita de que nunca poria as mãos na Tessaiga se não olhasse para o que havia deixado para trás. Jaken havia entendido a parada como uma chance de tirar um cochilo. Até que a preguiça dele lhe estava sendo oportuna desta vez. Distanciou-se, devagar, percorrendo a colina que conhecia tão bem. Do ponto mais alto, era fácil avistar a vila. Ao menos há certa distância, ainda parecia a mesma. Quantas vezes havia jurado que queimaria aquele lugar até as cinzas? No entanto, mais uma vez, limitou-se a virar-lhe as costas. Havia uma árvore solitária mais abaixo. Esta sim lhe pareceu uma novidade na paisagem, até concluir também era velha conhecida, com a diferença de que agora estava bem mais alta do que antes. Aproximou-se dela, deslizando a palma da mão pela superfície do tronco. Havia uma espécie de mossa ainda visível bem no meio, um formato que parecia se destoar do resto do conjunto. E, ainda que tal lembrança dificilmente
servisse à sua busca, foi impossível evitar que tomasse seus
pensamentos...
“Sesshoumaru-kun?!” a voz feminina chamou alto “Vamos, apareça, eu sei que está aqui!” “Tem certeza que é seguro?” indagou uma das meninas em quimonos floridos “É um youkai...” “Ora, se não quiserem conhecê-lo, podemos voltar!” retrucou em tom desafiante, sabendo de antemão que a curiosidade de suas primas falaria mais alto do que o medo. “É que eu nunca tinha tido permissão para me afastar tanto da vila assim antes” comentou uma delas, ainda meio hesitante. “Meu senhor diz que mesmo as mulheres devem se exercitar regularmente” afirmou a orgulhosa anfitriã, enquanto guiava as outras até a sombra de uma árvore, sob a qual se sentaram. “Izayoi-chan... Vai ter mesmo que se casar com um mononoke?” “Hai.” Ela sorriu, corando levemente. “E... não acha isso... estranho?” “Bom, quando eu era menor... Mas agora eu já tenho treze anos. Depois, ele é bem mais bonito do que os filhos de nobres que eu conheço. E mais gentil também. É uma pena que ele passe pouco tempo na vila. Eu sinto falta de conversar com ele.” “Ahn...” suspirou uma das jovens. “Ani-uê diz que é impossível que uma nobre ame um mononoke. Ele diz que só as camponesas se sentem atraídas por eles, porque têm a cabeça fraca.” “Que bobagem...” Izayoi torceu o nariz, divertindo-se com a afirmação. “Ani-uê diz essas coisas porque gosta...” Levou uma cotovelada da irmã, antes que completasse a frase. “Ah, ele está ali!” Izayoi se pôs de joelhos e acenou animadamente “Sesshoumaru-kun, venha até aqui, por favor!” De longe, era como se a jovem estivesse acenando para um irmão. Mesmo assim, as outras se retraíram um pouco a medida em que o youkai se aproximava. “Me chamou, Izayoi-sama.” “Sim. Por favor, sente-se conosco.” Embora a expressão tenha permanecido inalterada, era de se notar que o convite fora aceito a contragosto. Ele sentou-se sobre os calcanhares, como um aprendiz de samurai qualquer faria, sob os olhos fascinados das primas da futura esposa de seu pai. “Nossa...” “Youkai...” “Não precisam ter medo dele. Sesshoumaru-kun é filho do meu futuro esposo e meu protetor, ne?” “Quantos anos ele tem?” “Para um youkai isso não importa. O pai dele disse que se fosse um humano, teria mais ou menos a nossa idade.” “Ele parece gente de verdade...” corou uma delas. “Pensei que ele fosse ter um focinho ou coisa assim.” “Ele é manso?” “O que são esses desenhos no rosto dele?” “Bem...” Izayoi tomou a palavra, um pouquinho constrangida com os comentários, embora Sesshoumaru parecesse não estar prestando atenção “Não são desenhos, são mais como sinais de nascença.” “Ele sabe voar?” “Ele tem poderes?” “O que ele come?” “Aw, que cabelo legal...” “Izayoi-chan, ele não parece um pouquinho uma menina?” Sesshoumaru fixou os olhos num ponto da árvore enquanto as humanas prosseguiam suas observações aviltantes. Como odiava aquele lugar maldito... No entanto, desde que seu pai decidira tomar uma humana como esposa, sua vida havia se transformado numa eterna espera por seu retorno, misturada com uma ponta de esperança de que não fosse ser deixado ali na próxima vez. “Bom, minna, acho que já chega!” cortou Izayoi, com certa firmeza “É hora de voltarmos para casa...” “Oi! Olhem, as garotas estão ali!” As meninas desviaram o olhar para a direção do chamado. Era um dos rapazes da vila, guiando dois visitantes. Sesshoumaru ainda pensou em sair antes que chegassem mais perto, mas as recomendações ecoaram em sua mente mais uma vez, lembrando-o de que deveria ser tolerante com relação a visitantes de outras vilas. Estes, por serem homens, talvez não o importunassem com perguntinhas ridículas. “Ani-uê!!” se entusiasmaram as garotas “Venha só ver isso! O filhote de mononoke da Izayoi-chan!” “O que é isso?” se aproximou aquele que, do alto de seus dezesseis anos, posava de adulto entre os demais. “Takemaru-kun...” Izayoi se levantou, conhecendo o temperamento de seu primo. Quando sua vila fora salva pelo Inutaishou, há cinco anos atrás, o falecido pai de Takemaru provocara um rompimento familiar ao saber que havia sido prometida em casamento para um youkai. Desde então, era a primeira vez que os primos se visitavam, num sinal de reconciliação há muito esperado. Queria tanto que tudo corresse bem e que seu futuro esposo fosse compreendido por seus parentes que não hesitou em expor Sesshoumaru à curiosidade alheia, sem medir as conseqüências “Já estávamos voltando...” pôs-se de pé, no que foi seguida pelas garotas. “Mulheres como vocês não deveriam estar tão afastadas de casa, e muito menos sozinhas. Será que além de adular youkais, nessa vila não se tem compostura? Vocês dois, levem-nas de volta. Izayoi-sama, perdoe se lhe pareço rude, mas ao que parece minhas irmãs se esqueceram de onde vieram...” Ele teria continuado o discurso, se Sesshoumaru não tivesse se levantado. “Oi!” colocou-se no caminho dele “Onde pensa que vai?” “Takemaru-kun, deixe ele em paz, por favor!” “Esse que é o filho da besta com quem seu pai quer que se case? Pensei que fosse uma criada...” Olhos dourados se estreitaram um pouco, mas o youkai nem sequer piscou. Permaneceu impávido até mesmo enquanto era cercado pelos outros dois humanos. “Takemaru-kun...” Não chegou a dar um passo. As irmãs bloquearam seu caminho, temerosas de serem acusadas de permitir que Izayoi-sama tomasse alguma atitude não apropriada “Vai embora, Sesshoumaru-kun! Sai daqui!” ainda foi capaz de gritar. Seu comando teria sido prontamente obedecido
se o círculo ao redor do jovem youkai não tivesse se estreitado.
Um dos garotos desembainhou uma espada curta, e a apontou com toda a pose
para Sesshoumaru. Izayoi fechou os olhos, prevendo um confronto, afinal,
sabia que seu futuro enteado tinha força suficiente para ferir seu
primo, se quisesse. No entanto, a cena que se seguiu, para seu alívio,
foi quase cômica. O youkai limitou-se a dar um salto que o sobrepôs
facilmente ao bloqueio a sua frente, para em seguida sair caminhando, indiferente
aos protestos ultrajados dos jovens samurais.
Ele desviou os olhos da mossa na árvore,
assim que o desfecho daquele fatídico encontro cruzou sua mente.
Dois dias depois do encontro, fora atraído por aqueles humanos para
mais uma sessão de ameaças e gracinhas. Já estava
até esperando por algo assim. No entanto, a medida que as ofensas
foram passando a ser dirigidas a seu pai, começou a duvidar de seu
invejável senso de auto-controle. Mesmo que quisesse, não
conseguiria lembrar exatamente o que foi dito ou feito naquela noite. Só
sabia que algo o fez perder a cabeça, a ponto de esmagar a cabeça
de um daqueles humanos idiotas contra a árvore. Talvez tivesse perdido
a noção da própria força também. Até
então, passara a vida sentindo-se nada além de um sopro de
energia pairando ao redor da figura paterna. Por coincidência, aquele
havia sido o ano em que sentira sua força começar a aumentar,
sem que precisasse fazer algo para isso. E, por coincidência ou não,
aquele foi o ano que mudou a forma como viveria os anos a sua frente.
Abriu parcialmente os olhos quando sua audição captou os passos leves no chão de madeira. Era a humana idiota novamente. Ela ajoelhou-se ao seu lado. Continuou fitando a porta, como se não tivesse se dado conta de que não estava mais sozinho. “Sesshoumaru-kun... Olhe, eu trouxe isso para você...” colocou a tigela com seu lado, bem como um recipiente com água “São bolinhos de peixe... Eu sei que você não gosta de arroz...” Ele continuou imóvel, tentando não pensar na estupidez em que se traduzia estar recebendo ajuda daquela garota. Se não fosse por causa dela, nada daquilo estaria acontecendo para começar. “Eu contei para o seu pai que meu primo e os amigos dele estavam te perseguindo desde o dia em que eu...” “Não precisava. Eu desobedeci. Mereço estar aqui.” “Entendo...” “Não tem que me trazer comida. Não sou humano, não sinto fome como vocês.” Por baixo de uma camada fina de verniz, a afirmação era rude e direta o suficiente para que a jovem percebesse que suas boas intenções não eram bem vindas ali. “Tudo bem... Eu... vou te deixar em paz.” Antes que ela chegasse até a porta de correr, novos passos puderam ser ouvidos. O Inutaishou entrou, depois de dar passagem para que Izayoi saísse. A presença do daiyoukai impeliu o jovem a se por de pé, mas sua tentativa de erguer o corpo revelou-se ainda mais patética do que a situação em si. “Pode se levantar?” “Hai.” “Então venha comigo.” Tratou de obedecer prontamente, a despeito de estar se sentido como tivesse acabado de aprender a andar em duas pernas. Não que as pancadas que levara há uns dias atrás ainda estivessem incomodando tanto assim... Talvez fosse o fato de ter ficado tempo demais dentro de uma casa de humanos, quando raramente suportava lugares fechados. Talvez fosse a consciência de que tinha perdido o controle e criado um embaraço para seu pai, o que era grave o suficiente por mais que não conseguisse compreender o apego dele por aqueles humanos odiosos. Caminharam até um córrego que os humanos haviam represado com terra e pedras até formar uma espécie de lago pequeno. Era uma noite fria e apenas uns poucos vigias ainda podiam ser vistos fora de suas casas, só para constar, já que a presença de youkais no local era motivo de sobra para que não fossem importunados por pessoas de fora. Sesshoumaru seguiu seu pai até lá no mais respeitoso silêncio. “Lave-se. Está cheirando tão mal que até um humano pode sentir” comandou, ao parar, de costas para o filho. “Hai... chichi-uê...” a resposta veio num tom baixo, como se responder ou não não fizesse a menor diferença. De fato, não fazia. O youkai mais jovem tirou a parte de cima do traje que vestia. Não havia mais machucados, é claro, mas o sangue seco estava grudado na roupa e na pele, formando crostas onde antes havia sido atingido pelos golpes de seu pai. Havia sido a primeira vez que levara uma surra. Não que nunca o tivesse irritado antes, a despeito de seguir a risca tudo que lhe era imposto... Além de obediência, havia o pacto que regeria a convivência entre eles desde o primeiro instante: manter silêncio salvo em caso de solicitação em contrário. O Inutaishou jamais admitiria ser seguido por uma criança que o ocupasse com perguntas e palavras inúteis. Nada mais justo. Porém, como era obrigado a reconhecer, nem sempre falar só o necessário era suficiente para manter a postura adequada... Terminou de se despir, então, e deixou a pele que carregava ao redor do ombro direito no chão, junto das roupas. Ao menos seu pai ainda não o fazia banhar-se vestido, como os humanos daquele lugar. Entrou na represa, ignorando as pontadas de frio que subiam por sua espinha devido à temperatura nada aprazível da água. O Inutaishou continuava parado na mesma posição, de costas. Quando era menor chegou a associar a imagem do pai com a de um rabo de cavalo balançando ao vento, de tanto que o via por esse ângulo. Quis amarrar o cabelo também, mas seu pai vetou o penteado, dizendo que o deixava ainda mais parecido com a mãe. Ela devia usar o cabelo preso ou coisa do gênero. Realmente não se lembrava... Voltou os pensamentos para o que realmente tinha que fazer. No caso, remover o sangue do cabelo. Foi quando notou que as marcas que tinha na região dos pulsos estavam maiores do que antes, além de apresentarem uma umidade estranha que parecia vir de dentro delas. Tinham um cheiro diferente também, um que até então não tinha notado. “É veneno.” A informação a seco o fez arregalar os olhos, sem entender. “Não, você não foi envenenado. O veneno que está sentindo é seu e, portanto não pode te prejudicar.” “... Meu?” “Alguns pontos do seu corpo têm habilidade de purgar veneno. Sua mãe também era assim...” ele fez uma pausa, como se para pensar antes de prosseguir “Ao que parece, você está se tornando um youkai adulto.” As palavras caíram sobre o jovem como um ataque surpresa. “... Ainda demorará alguns anos até que possa controlar as funções de um youkai amadurecido... É de se estranhar que não tenha se apercebido” o pai continuou, com o tom contido. Sesshoumaru deu uma olhada nas próprias garras, como se só então estivesse caindo em si que, de fato, elas pareciam mais afiadas e fortes do que antes, embora suas mãos sempre tivessem sido consideradas pouco promissoras. “Antes de chegar aqui, senti que seu cheiro havia mudado. O ar das colinas ao redor da vila está impregnado dele. Ainda não é como o meu cheiro, mas senti-lo já é incômodo o bastante.” “Des...” “Não se desculpe. Não por isso.” “Eu... não tive a intenção de machucá-lo tanto... Ele...” “Izayoi me contou. Por algum motivo, ela se importa com você. Já está feito, e você já foi castigado.” “Chichi-uê... Os humanos...” “Já que começou, Sesshoumaru, termine.” “... eles não gostam de youkais como nós.” “Por acaso pensa que está me dando alguma notícia?” “Não...” “Termine de se lavar de uma vez e vista-se.” Ele fez como havia sido mandado. As marcas em seus pulsos pareciam queimar. “Tome.” Levantou o rosto, um tanto chocado. Seu pai estava parado bem a sua frente. Rasgara duas tiras de tecido de pele de rato de fogo e as estava estendendo para ele. “Use isso.” Teve que se concentrar para continuar respirando. Pegou as tiras, mas as mangas em contato com a pele molhada dificultavam a tarefa de erguê-las. Estava sendo desastrado bem diante dos olhos implacáveis de seu pai e mal conseguia atar uma simples faixa. Nem um humano era tão inábil... Uma mão forte e bem maior do que a sua segurou seu braço. O Inutaishou começou a enfaixar o pulso esquerdo, com calma e habilidade que seu filho nunca imaginou que lhe seria dispensada. “Por que o espanto? Não posso cuidar de você por acaso?” Ele passou para o outro braço. “A faixa não vai resolver o seu problema, mas vai conter a purgação até que a pele endureça.” Se endurecer... Os olhos dourados passaram dos pulsos para o rosto do youkai que agora revelava uma expressão levemente confusa. “Os anos só servem para te tornar mais e mais parecido com a sua mãe.” Tomou-lhe a ponta de uma mecha de cabelo “Às vezes me pergunto se realmente há sangue meu correndo em suas veias ou se você é algo que se desprendeu dela para testar o meu juízo...” Os dedos largaram a mecha e se fecharam na gola do yukata. A falta de uma faixa que firmasse o traje fez com que o tecido deslizasse, revelando o ombro pálido, cuja pele ainda não havia recobrado a temperatura normal. “Lembra-se de quando passou a me seguir?” “Hai...” “Tem idéia do que me fez permitir que isso acontecesse?” “... Não.” “Durante algum tempo, me perguntei isso todos os dias...” Era certo que impavidez de seu filho não resistiria à mão que deslizou pela curva do ombro, até alcançar o cotovelo, baixando ainda mais a manga. Ao menos foi o que pensou antes que restasse provado em contrário. Nem mesmo quando toda a parte de cima da roupa caiu no chão aos pés dele houve um movimento, pequeno que fosse, que exprimisse uma reação, boa ou ruim. Os lábios estavam quentes apesar do banho forçado e fora de hora, e eram mais macios do que quaisquer outros que já havia tocado. Tal constatação só serviu para que viesse a saboreá-los com maior deleite. Eram inebriantes, muito mais do que jamais poderia ter imaginado. Há quanto tempo não tomava um youkai para si como costumara fazer em sua juventude? Há quanto tempo não experimentava o vigor de um ser de sua própria espécie? Desde que... Nem uma palavra, ou mesmo um som. Enquanto se perdia naquele paladar agridoce, imaginou se estaria, finalmente, respondendo àquela velha indagação. Fora aquela maldita quem o insuflara de horror pela cartilha de youkai que lhe haviam incutido desde que nascera... Nada mais justo do que usar sua cria para consumar ânsias e desejos que há tanto vinha negligenciado. E se o jogo do silêncio continuasse, tanto melhor. O derrubou no chão sem esforço. Já não havia a mais remota possibilidade de que ele não estivesse compreendendo a situação. Quem sabe finalmente não se livraria dele desse modo? Seria como unir o útil ao agradável. E até lá... Segurou-lhe o cabelo farto, de modo não pudesse escapar de seu enlace a menos que usasse de força. Nesse caso, pensaria se o deixaria ir ou não. Por via das dúvidas, manteve o rosto dele colado ao chão. O resto da roupa ainda não tinha sido atado e não ofereceu empecilho a suas investidas. Não precisou despir-se mais do que o necessário tampouco. E assim que ultrapassados os parcos obstáculos, consumou seu intento, sem a menor hesitação. Na verdade, Sesshoumaru não era como a mãe. Era melhor. Havia mentido para ele quanto a seu cheiro recém temperado pelos sinais da maioridade... Não era de nada desagradável, ao contrário, o atraíra antes mesmo que atinasse onde seus atos o levariam. De uma próxima vez consideraria usar de alguma gentileza até. Tentaria fazer com que relaxasse e aprendesse. Isto se ele permanecesse, é claro. O que não vinha ao caso. A noite que poderia ser a última só estava começando. O jovem youkai ainda respirava pesadamente sob o corpo maior e mais pesado, de olhos fechados, o que salientava as marcas rosadas sobre as pálpebras. Havia transpirado a despeito do frio, e ainda estava um pouco trêmulo. Mas nem assim perdia seu ar de imutável indiferença, algo que certamente não havia herdado de nenhum de seus genitores. Sesshoumaru se agarrou à pele de cão. De algum modo, sabia de que o Inutaishou não estava satisfeito... ainda. Procurou deixar o corpo mais leve desta vez, o que coincidiu com o reinício do movimento das mãos em seus quadris. A dor pungente o mantinha consciente do que estava por vir, mas era o vazio na cabeça o que verdadeiramente incomodava, a sensação de que seu corpo estava prestes a escapar de seu comando. Foi mordido entre o ombro e o pescoço, aumentando o quinhão de seu próprio sangue no ar viciado ao seu redor. A queimação em seu baixo ventre reiniciou ainda mais urgente do que na vez anterior, forçando-o a se contorcer ridiculamente como uma presa espremida sob a pata do grande cão. E aos poucos o clamor da carne tornou-se maior do que a de sua mais arraigada determinação. Mordeu a pele, enquanto seu traseiro era rasgado pela força das estocadas de seu pai. Se pudesse ver seu rosto, saberia que, por trás dos olhos cor de sangue, ele também já havia sucumbido. E se seu último estratagema falhasse, o som de sua voz sequer seria notado. O grito em sua virilha calou-se logo após ter sido solto. Havia novos cheiros no ar, alguns desconhecidos, outros nem tanto. As faixas que seu pai atara ao redor de seus pulsos estavam viscosas, fumegantes como queimaduras. Sentia-se nauseado e ao mesmo tempo letárgico, como se tivesse perdido o controle dos braços e das pernas. Estava mais doído do que após a sova de alguns dias atrás, mas estranhamente, não chegava a ser ruim de todo. Foi virado de barriga para cima, mas sua visão parecia embaçada, como se houvesse uma névoa a frente de seus olhos. A lassidão o engoliu sem que pudesse oferecer resistência. Com um dedo, o daiyoukai enxugou o fio de
veneno esverdeado que escorria do canto dos lábios do rapaz adormecido.
O líquido reagiu dolorosamente contra a sua pele, mas ele não
a limpou. Manteve os olhos fixos na pequena ferida que ia se formando,
até que seus olhos se fechassem, e ele abaixasse a cabeça,
agora tão pesada quanto o resto do corpo estava leve.
Depois daquela noite, Sesshoumaru perdeu a conta de quantas vezes tais encontros se repetiram. Convenceu a si mesmo que não lhe cabia apreciá-los ou não. Poderia ir embora se quisesse. E se não conseguia sequer cogitar essa possibilidade, só lhe restava continuar a partida. Às vezes era acariciado como se fosse uma criança, às vezes era apenas segurado no mesmo lugar. Às vezes acordava enjoado, desejando fugir para um mundo onde fosse o único habitante. Às vezes amanhecia sozinho, desejando que houvesse duas peles de cão envolvendo seu corpo ao invés de apenas uma. De um modo ou de outro, o estranhamento que
sentia em relação àquela vila se aprofundou, como
um abismo ampliado após um terremoto. Os humanos lhe causavam asco,
e a idéia de que seu pai estava perto de tomar uma mulher banal
como esposa lhe soava como uma heresia sem precedentes.
Ele piscou uma ou duas vezes como se quisesse deixar o transe maldito que lhe empurrara memórias há muito deixadas para trás. Não seria desse jeito que encontraria o túmulo, ou o que realmente estava procurando, a Tessaiga. Estava obviamente perdendo tempo no lugar errado. Por outro lado, não queria ter que acordar Jaken ou pensar em que direção deveria seguir. Se afastar dali o resto da noite já seria um alívio momentâneo. Porém, antes que deixasse a colina, seus olhos caíram sobre um conjunto de pequenas pedras, empilhadas entre duas raízes mais expostas da árvore. Agachou-se perto das pedrinhas, um pouco surpreso
por elas ainda estarem ali, intocadas, há tanto tempo. Retirou-as
devagar, imaginando pôr um fim definitivo num objeto que, por alguma
razão maluca, não destruíra oportunamente. Ainda estava
inteiro, como se cento e cinqüenta anos não tivessem se passado,
o que era muito, considerado se tratar de um artefato humano... ou talvez...
“Oi! Youkai-sama!” o tom era arfante, meio desesperado. “Espere, onegaishimasu!” Olhou para trás, constatando que se tratava do mesmo humano confuso de alguns dias atrás, decerto para pedir mais algum favor idiota. Fechou os olhos de raiva, só de lembrar que seu pai o havia compelido a entregar-lhe uma mecha de seu próprio cabelo, para que o idiota usasse como remédio ou coisa do tipo. “Youkai-sama, fico contente de encontrá-lo finalmente. Não imagina quantas vezes eu subi essa colina à sua procura... Se importa se eu lhe falar um pouco?” Ele estava sorrindo, um sorrizinho tolo que não combinava com suas vestes. Era um samurai da vila, embora da outra vez estivesse usando apenas um traje de campo. Não tinha um tom de voz desagradável e falava com modos, o que era raro entre humanos. Desde que ferira o visitante, nenhuma pessoa daquele vilarejo lhe dirigia o olhar. Alguns viravam de costas quando passava, as mulheres tapavam os olhos das crianças. Não que se importasse. “O que quer?” Ele fez uma reverência amistosa. “Agradecer! Meu irmão voltou a andar hoje pela manhã. A perna está quase como era antes. Fico muito agradecido.” Permaneceu olhando para aquele homem, como se fosse um louco delirante. “Ah... Não sabe. Perdoe-me. Sou mesmo rude, nem sequer me apresentei. Sou Watanabe Tama. Meu pai era um dos líderes da vila quando seu pai nos salvou. Ele faleceu há três anos e eu tomei o seu lugar porque sou seu filho mais velho. Lembra-se que eu fui a seu pai para pedir a mecha de cabelo?” Como poderia esquecer tamanha humilhação? “Desde que meu pai morreu, me tornei responsável pela casa de minha mãe. Um dos meus irmãos menores se acidentou com o cavalo recentemente, e machucou a perna. O monge disse que ele nunca mais voltaria a andar sem ajuda. Um dos anciões da vila, no entanto, me contou que uma mecha de cabelo de youkai bem apertada endireita qualquer osso. Fico muito honrado que tenha me concedido uma mecha de seu belo cabelo, pois graças a ela, meu irmão está se recuperando. Por favor...” fez outra reverência, e lhe estendendo um objeto, como uma caixinha de madeira. “É um presente. Em agradecimento” insistiu. Já tinha uma resposta mais do que pronta, mas seus lábios se recusaram a pronunciar a frase feita. Pegou a caixa das mãos dele, um pouco incrédulo de sua própria atitude. Talvez fosse aquele sorrizinho irritante, bobalhão, como os que as humanas saúdam as crianças pequenas. Abriu a caixa, sem a menor pista do que poderia haver em seu interior além do cheiro de madeira, cerejeira para ser mais exato. “Olhe, veja se gosta.” O humano insistiu, se aproximando dele como se pudesse ter certeza de que tal ato não representaria perigo. Eram pedacinhos de madeira, esculpidos em formas conhecidas, como a de um homem, de um cavalo e de um cão. Não deixava de ser curioso, já que as peças eram bem pequenas e detalhadas. “Sou eu que faço, quando não estou treinando ou trabalhando. Meus irmãos as acham divertidas. Eu sei que é um grande guerreiro youkai, e que pode matar um sujeito feito eu com um pensamento se quiser. No entanto, quando eu o vi da outra vez, junto de seu pai, não consegui evitar de notar o quanto é jovem. Então imaginei que pudesse gostar das figuras, embora mereça presentes mais valiosos, é claro.” Olhou para o interior da caixa novamente, sentindo uma vontade inexplicável de ficar com o tal presente, embora fosse obviamente inútil. “Bom, eu tenho que ir agora. Sayonara, youkai-sama.” Estava anoitecendo, e seu pai logo voltaria. Estava passando mais tempo na vila, já que em breve formalizaria seu enlace com a humana. Com isso, havia ficado decidido que não poderia mais passar a noite acordado, andando por aí como sempre fizera. Teria que comer comida de humanos também. Essa era a pior parte já que seu estômago doía praticamente o tempo todo. Naquela noite, Sesshoumaru retornou com o seu presente. Aproveitou que o pai não estava para dispensar a refeição. Trocou as faixas ao redor dos braços, que estavam semi-destruídas pelo veneno que ainda purgava de seus pulsos. Depois, sentou para olhar melhor o conteúdo da caixa. Ouviu quando seu pai chegou e fez a refeição junto com Izayoi. Esperou mais algum tempo, e depois foi até ele. Parou junto à entrada do cômodo que ele vinha ocupando. O Inutaishou estava sentado num canto, devorando uma lebre recém caçada. É claro que a regra quanto a só comer comida de humanos não se aplicava a ele. O cheiro do sangue ainda quente do animal bem lhe era tentador, mas esse não foi o único aspecto da cena que atraiu sua atenção. Seu pai havia tirado a armadura. Podia contar nos dedos as vezes que o vira sem ela. “O que veio fazer aqui? O chamei, por acaso?” Virou-se. De fato, não tinha sido chamado. “Mas já que está aqui...” Voltou-se novamente em sua direção. “... Se livre dessa carcaça” atirou o resto da presa em sua direção “Depois, volte.” “Hai, chichi-uê.” Teve ímpetos de lamber o que restava de carne junto ao bolo de ossos e pêlo que lhe foi jogado. Só que se fizesse isso seu pai saberia. Então, enterrou as reminiscências do animal e voltou, como lhe havia sido ordenado. Assim que entrou, teve o corpo envolvido pelos
braços dele, o que não chegou a ser uma surpresa. Mesmo assim,
deixou a caixa de madeira se espatifar no assoalho, espalhando seu conteúdo
pelo chão. Seus lábios foram tomados, a roupa arrancada de
seu corpo, como o vigor habitual. Desferiu uma lambida no rosto dele, da
mandíbula até o lóbulo da orelha, gesto que se perdeu
na agonia que precedia as primeiras ondas de prazer. Por alguma razão,
não gostaria de ficar sozinho naquela noite.
Enterrou a caixa, exatamente onde estava, levantando-se depressa. Por que não matara aquele maldito hanyou afinal? Ainda estava em tempo... Deixou que a energia o envolvesse, arrebatando-o
do chão. Nunca era tarde para terminar o que havia começado.
Agradeceu quando teve os lábios tampados, pois os sons já deixavam sua boca sem que pudesse contê-los com a eficiência habitual. Seu corpo era arremessado pelas investidas dele num vai e vem brutal, que esfolaria até mesmo a pele de um dragão, se não estivesse deitado sobre a pele de seu pai e a sua própria. As unhas, cravadas no chão, abriam fendas nas tábuas de madeira corrida. O suor dele tinha um cheiro inebriante, um sabor único... Os dedos que há pouco se ocuparam de massacrar seu peito, agora se ocupavam de sua virilha, dando-lhe atenção até então inédita. Tal iniciativa foi seguida de uma sucessão de estocadas mais violentas que lhe arrancou lágrimas, e um grito que, por sorte, foi contido pela mordaça premeditada. Logo, contudo, a dor excruciante deu lugar ao espasmo que fez seu corpo ondular sob o peso do outro... Estava exausto. Mal deu conta quando o clímax chegou para o Inutaishou, pela terceira vez naquela noite. Provavelmente caiu no sono em seguida, como sempre acontecia. Só que dessa vez, o prazer que narcotizava seu corpo a ponto de deixá-lo sem ação ou vontade, foi consumido enquanto ainda dormia, dissipado pela dor e mal estar que o vinham assombrando desde que ferira o humano. Do contrário, teria sido um despertar surpreendente. Seu pai estava adormecido ao seu lado, com os cabelos soltos e quase nenhuma roupa. A preciosidade do momento o impeliu a ignorar seu estado, e encolher-se junto a ele, na esperança de pegar no sono novamente. Nenhum aroma no mundo poderia ser melhor do que o que o corpo de seu pai exalava depois do sexo. No entanto, nem mesmo ele foi capaz de aplacar a aflição crescente que parecia brotar nas profundezas de seu peito e contaminar o resto do corpo. “Sesshoumaru... o que foi?” “... dor...” Não conseguia falar... Era como se o queixo estivesse paralisado. Não conseguiu compreender muito bem o que se passou então. Seu pai o levou de onde estavam, na vivenda dos humanos, até o corregozinho esquecido onde haviam estado juntos pela primeira vez e o fez beber água até vomitar, sabe-se lá quantas vezes. Só permitiu que dormisse muito depois, quando já era quase dia, e não tinha forças nem para manter os olhos abertos. Quando voltou a si, lembrava-se da noite como um pesadelo inexplicável, em que a imagem mais nítida era a visão do daiyoukai que dormia ao seu lado. Seu pai não lhe explicou o que se passou.
Ele tampouco perguntou.
A esfera reluzente parou abruptamente, rachando o solo e fazendo a terra se espalhar como sangue de uma vítima de suas garras. Por que hesitava tanto afinal? Ele não passava de um hanyou imundo, a materialização carnal da obsessão de seu pai por aquela figura desagradável e patética. De uma coisa, aquele Inuyasha poderia ter certeza. Nenhum desprezo que alimentasse por ele um dia poderia se tornar maior do que o que havia sentido por sua mãe. Izayoi. Matá-la quase sempre era o conteúdo de seus devaneios mais aprazíveis... Mataria aquela aberração e jogaria parte da carcaça em seu túmulo, sempre tão bem cuidado. A outra parte guardaria para quando encontrasse o túmulo de seu pai. Quase foi capaz de sorrir.
“Me chamou, chichi-uê.” “Hai. Feche a porta. Sente-se.” “Izayoi estava chorando hoje pela manhã. Tem idéia do que possa ter havido?” Desviou os olhos. “Responda.” “Eu não sei porque uma mulher choraria, chichi-uê.” O safanão o atingiu em velocidade tal que seria impossível se defender. Levou a mão ao rosto, sentindo uma queimação por dentro capaz de levá-lo às lágrimas. “Sente-se.” Voltou para a posição inicial, sobre os calcanhares. Algumas gotas de sangue escorreriam do nariz, mas foram ignoradas. “Por que a ofendeu? Que mal ela lhe fez, Sesshoumaru?” “Eu não a ofendi.” Dessa vez, julgou que sua cabeça seria arremessada para longe do corpo. O sangue escorreu em um filete em direção ao chão, enquanto lutava para se recompor. “Se continuar mentindo, estará ofendendo a mim. Recomponha-se. Quero ouvir de você. Já chega saber do seu comportamento indigno pelas criadas de minha futura esposa.” “Izayoi-sama me perguntou se eu gostaria de ter um irmão...” “Continue.” “Eu disse a ela que não me importava em ter ou não um...” continuou com alguma dificuldade “Izayoi-sama disse que gostaria muito lhe dar um filho, um outro menino. Então eu disse a ela que um hanyou é uma aberração.” “E por que disse uma coisa dessas?” “Porque é verdade.” Os olhos penetrantes se estreitaram, severos. “Olhe para mim. Quero que escute muito bem o que vou lhe dizer, porque vai ser a última. Izayoi é a mulher que eu amo, a que eu escolhi para ser a minha esposa. Não admitirei que a ofenda ou que a magoe, só porque pensa que tem algum direito por ser meu filho. Amanhã de manhã, quero que vá até ela e implore humildemente seu perdão.” “Hai, chichi-uê.” “Ainda não acabei. Desde que eu o encontrei, naquele antro dos horrores que a sua mãe governava, eu venho tolerando a sua presença. O reconheci como meu filho e procurei ser condescendente com sua arrogância e desobediência. Mas se sua inteligência não foi suficiente para que aprendesse por si mesmo, eu serei bem claro desta vez: Izayoi é a pessoa mais importante da minha vida. Dê-se por satisfeito por ela lhe ter simpatia, porque se não fosse por ela, eu já teria te tocado para longe daqui há muito tempo.” Fez uma pausa, como se para ter certeza que ainda estava sendo ouvido. “Espero que tenha compreendido desta vez.” “Hai...” “Eu quero que você pegue aquelas coisinhas de madeira e se livre delas. Agora.” “... Hai.” Ele se levantou, parecendo ligeiramente sem coordenação. Já estava abrindo a porta de correr quando foi chamado novamente. “Depois, volte.”
Foi forçado a interromper sua trajetória mais uma vez, não por hesitação e sim ao identificar o cheiro no ar, muito diferente do que esperava encontrar. Anoitecia, o que era até melhor. Sabia que Inuyasha devia ficar vagando sozinho ao redor do vilarejo, o que facilitaria sua tarefa. Não se perderia em pensamentos tolos... Fecharia os olhos para não encarar a face que tanto o lembrava a de seu pai se preciso fosse. No entanto, havia algo de diferente dessa vez. E antes mesmo que chegasse perto o suficiente para ver, já começara a ter uma vaga idéia do que se tratava, afinal, já tinha estado em um festejo de humanos antes... Os instantes que se seguiram só serviram para confirmar sua suspeita. A vila onde Inuyasha vivia estava imersa em algum tipo de comemoração estúpida. E sim, não custou a sentir o aroma desagradável de seu meio-irmão em meio àquela confusão de gente. Talvez fosse a oportunidade perfeita de vingar a morte patética de seu pai com um só golpe. Mataria o hanyou imundo e reduziria a pó um vilarejo de humanos, como sua mãe costumava fazer. Não que se lembrasse. De onde estava, podia ouvir os ruídos que produziam com tambores, as vozes das crianças... risadas idiotas, que cortavam o ar como uma ofensa à natureza ao redor. Fechou as mãos em punho, desejando
que, uma vez na vida, a lembrança dos dias ao lado de seu pai não
fossem a única que habitasse seus pensamentos.
Passou a noite encostado na árvore onde enfiara a cabeça daquele humano insolente. Decerto seu pai não prestaria atenção no fato de que não havia se recolhido à casa, como lhe havia sido ordenado. Naquela noite em especial, uma pequena desobediência não seria um ato a ser levado em consideração. Voltou os olhos de relance para a vila. Estava contra o vento, felizmente, o que minimizava seu incômodo, mas não podia deixar de ver o festejo em andamento... a celebração de um casamento. O enlace entre a filha do líder local e o mais forte dos youkais. Um grupo de humanos faziam gestos estranhos, e entoavam palavras ritmadas. As pessoas ao redor riam-se dos gracejos. Seu pai estava entre eles, acompanhado pela cândida Izayoi, como era de se esperar. Sempre acreditou que quando esse dia chegasse, partiria para bem longe dali. Já tinha mais do que idade para viver por conta própria, fazendo o que bem entendesse, ao invés se submeter a um martírio diário, cuja finalidade parecia há muito ter escapado de seu alcance. No entanto, na véspera do famigerado dia, simplesmente deixara que as palavras morressem antes de serem proferidas. Sabia que seu pai não deixaria a humana. Sabia que ele nada faria para que ficasse. Não era tolo a ponto de ignorar o que lhe esperava. Voltou sua atenção para o céu, como se este pudesse sugá-lo para longe, para uma realidade alternativa em que aquela mulher nunca tivesse nascido... Permaneceu onde estava, no entanto, imóvel, até que os sons vindo da vila se esvaecessem, reduzindo-se a não mais do que muxoxos de alguns homens embriagados. Amanhecia quando se levantou. Estava com os braços em frangalhos. Surpreendentemente, nem se dera conta de quando o veneno corroera por completo as faixas de pêlo de rato de fogo, como se fosse um tecido comum. Às vezes tinha a sensação de que nunca melhoraria. O veneno que seu corpo produzia era como a afeição de seu pai pelo mundo dos humanos: inexplicável e em vias de conquistar sua mais patética resignação. Caminhou um pouco a esmo. Estava frio, e meio chuvoso, não o suficiente para incomodá-lo. Foi até o córrego, ergueu as mangas já meio puídas e enfiou os braços n’água, até os cotovelos, na esperança que a queimação diminuísse. Estava com a cabeça pesada, e o estômago revirado, embora não tivesse comido nada desde o dia anterior. “Então, veio se esconder aqui...” Teria caído sentado se não tivesse recuperado o equilíbrio a tempo. Como não fora capaz de sentir o cheiro dele? “Siga-me.” Não estava com a menor vontade de andar por aí, embora até ansiasse por tais oportunidades. Obedeceu, contudo. Entraram na floresta logo adiante. Só pararam após terem se distanciado do vilarejo. “O que pretendia me dizer ontem?” o perguntou o daiyoukai, como se estivesse tecendo um preâmbulo para o ponto em que queria chegar. Abaixou a cabeça, incapaz de reter o último resquício de dignidade que possuía. “... Nandemonai.” O Inutaishou sorriu. “Venha até aqui.” Teve a cintura enlaçada por um braço forte, capaz mantê-lo de pé mesmo que seus pés descalços resvalassem sobre a grama molhada. Sentiu a faixa ao redor de seu traje ser desatada com a facilidade de sempre. Fechou os olhos, procurando esvaziar o pensamento e deixar-se ser envolvido pelo calor habitual, a energia que parecia reaquecer o sangue em suas veias. O cheiro dele, contudo. Era desagradável mistura de sake com o suor daquela mulher. Era impossível deixar de senti-lo com toda a intensidade agora. Os braços voltaram a doer. Foi jogado no chão, de barriga para cima. Teve os lábios cobertos pelos dele. A boca entreaberta ofereceu passagem para que a língua áspera se introduzisse, explorando seu interior. Não era uma carícia comum entre youkais e talvez por isso algo tenha se limitado a permitir que prosseguisse, esforçando-se para que o odor corrompido não o deixasse mais enjoado. Algo, no entanto, fez o daiyoukai parar abruptamente. Ele cuspiu. Tal ato foi seguido por uma breve, porém indisfarçável expressão de frustração. Teve as pernas suspensas. A posição agravou o mal estar em seu estômago. Tentou se virar algumas vezes, sem que lhe fosse permitido. Acabou desistindo, e procurando em vão se adaptar. Fechou os olhos novamente, com força, tomado por uma sensação de embaraço que até então desconhecia. Virou o rosto de modo que seu cabelo o encobrisse, enquanto era arremessado como de costume. Nunca havia sentido de forma tão categórica o peso de sua própria submissão. E a despeito do vigor despendido, era como se seu corpo estivesse bem longe dali. Recomeçou a chover, uma chuva fininha, mas fria, dessas capazes de encharcar uma pessoa sem que ela se dê conta. Seu pai já se dera por satisfeito, mas continuava ali, a encará-lo silenciosamente. “O veneno que seu corpo produz está cada vez mais forte,” comentou, como quem quer apenas quebrar o silêncio. “Eu sei.” “Sabe o que vai acontecer se não dominá-lo?” “Hai.” “É por isso que permanece aqui? Tem medo de morrer sozinho?” “... Não.” “Por que fica então? Me diga, Sesshoumaru. É evidente que essa não é vida para você.” “...” Abaixou a cabeça. Apenas o suficiente para desviar o olhar. “Eu... voltarei para junto da minha esposa agora.” “... Porque é o único jeito...” “Único jeito?” “Eu não quero viver longe do senhor, enquanto suportar a minha presença. Mas quando desejar que eu parta, eu obedecerei.” O Inutaishou o encarou fixamente. “Não vou ajudá-lo se adoecer. Não sei nada sobre essa maldição estranha que traz no corpo. De hoje em diante, poderá ficar na floresta se preferir, e se alimentar como bem entender, mas estará por conta própria. Estamos entendidos?” “Hai, chichi-uê.” “Não o tocarei mais. Seu corpo só sabe a veneno.” Se virou, deixando a pequena clareira onde estavam em passos largos. Parou. Voltou-se para o youkai ainda sentado no chão. “Recomponha-se ao menos. E a propósito, por esses dias, um youkai virá me ver, um ferreiro chamado Toutousai. Se sentir sua presença, afaste-se. O assunto que tenho a tratar com ele não lhe diz respeito.” O Inutaishou seguiu em frente. Ainda não
fora dessa vez que expulsara Sesshoumaru definitivamente de sua vida. Não
se recriminou, contudo. Sabia que tal atitude se provaria desnecessária
em menos tempo do que julgava.
Do que adiantaria, pensou, ainda observando os humanos que se amontoavam no centro do vilarejo. Já tivera inúmeras provas de que a espada que seu pai lhe deixara era incapaz de tirar uma única vida. Havia sim, as garras venenosas, o chicote de youki... Mas levaria muito tempo para rasgar aquelas pessoas uma a uma, isso fora duas ou três sacerdotisas, alguns monges e, é claro, seu meio-irmão. Começou a voltar pelo mesmo caminho, caminhando desta vez. Uma bela noite, sem dúvida. Bela demais para se cuidar de tarefa tão imunda. Um grupo de homens bem armados, porém andrajosos cruzou seu caminho, em cavalos surrados. Não chegaram a vê-lo em meio a escuridão, o que foi uma sorte... para eles. Bandidos. Mesmo um youkai com aversão a humanos de qualquer espécie sabia diferenciá-los de um grupo de soldados. Provavelmente estavam se dirigindo para o vilarejo em festa. Se Inuyasha tivesse mesmo uma gota de sangue
de seu pai correndo nas veias, aquelas criaturas desprezíveis estariam
cavalgando pela última vez.
De onde vinha vivendo, pôde sentir a aproximação do ataque. Fazia sentido até, já que seu pai deixara o vilarejo, sem previsão de volta. Não eram bandidos. Tinha que admitir que aquele lugar era bem fortificado demais para que meros vagabundos se arriscassem a invadi-lo. Era o ataque de outro país, igualmente bem estruturado. Deviam ter informantes também, já que era coincidência demais pensar que, por sorte, estavam avançando na ausência do daiyoukai. Desde a última vez que vira seu pai, estava com certa dificuldade de se mover. Chegara à conclusão de que seu veneno era do tipo paralisante. Seria uma grande arma, se soubesse controlá-lo é claro, e se seu corpo fosse capaz de resistir a ele. Segurou a ferida que há alguns dias se formara bem no meio de sua barriga, sinal de que seu estômago havia finalmente desistido. Estava sendo carcomido de dentro para fora e não resistiria muito mais. Talvez não chegasse a ver seu pai novamente. Estranhamente, já não se importava tanto. Sua indiferença ao ataque que se aproximava, contudo, calou ante à lembrança das condições que precediam sua estadia nas proximidades, a obediência silenciosa que prometera manter a todo custo enquanto seguisse seu pai. No entanto, não havia muito o que pudesse fazer, havia? Levantou-se com alguma dificuldade. Caminhou na direção oposta, para o miolo da floresta. Concentrou-se no olfato que lhe restara, que o levou até uma árvore grande e velha, com uma fenda em seu tronco. Deu um bote certeiro em seu interior, usando a garra da mão direita. De dentro do espaço vazio, retirou um youkaizinho que se debatia, mal-humorado. “Ak, me solte... seu, seu... Ah, Sesshoumaru-sama! É o senhor. Desculpe, não reconheci seu cheiro...” O lagarto arregalou os olhos, e fechou a boca, subitamente consternado ao constatar a razão de não ter reconhecido o odor do filho do Inutaishou. “... Eh... Sesshoumaru-sama? O senhor está bem?” “Quero que vá procurar o meu pai, está entendendo? Diga a ele que retorne, pois os humanos estão sendo atacados.” “Estão? Ah... Mas mas.... Sesshoumaru-sama! Como farei para encontrar seu respeitável pai?” “Isso é problema seu. Vai de uma vez e não falhe, ou eu te mato.” Foi solto. “Meu pai deixou a vila com um youkai chamado Toutousai. Agora vá.” “Sim, Sesshoumaru-sama! Já estou indo...” De suas costas escamosas, surgiram um par de asinhas translúcidas e longas como as de um pernilongo. Em velocidade surpreendente, ele rasgou o céu em direção às montanhas. Agora que seu mensageiro havia partido, só lhe restava cumprir a última ordem de seu pai. Fechou os olhos, por apenas um instante. Ao
abri-los, exibiam a cor do sangue youkai que corria em suas veias... o
sangue do líder de todos os cães. A energia que manifestou
o envolveu, libertando seu corpo da forma humanóide que continha
o poder latente de um futuro daiyoukai. Se aqueles humanos estúpidos
estavam atacando com a certeza de que seu pai estava longe, em breve teriam
uma notícia bastante desagradável...
Passou-lhe pela cabeça o que Jaken faria quando acordasse de sua soneca e se descobrisse sozinho. Voltaria para sua terra ou o procuraria? Possivelmente ficaria no mesmo lugar durante alguns dias, até que outras idéias começassem a rondá-lo. Por alguma razão, passou para buscá-lo antes de seguir em frente. Havia o cajado que, para sua máxima frustração, ainda era sua melhor pisca na busca pelo túmulo. E quanto à seu meio-irmão...
O deixaria viver mais algum tempo. Mesmo para um meio-youkai, não
era inteiramente seguro se aliar a humanos. Talvez não fosse mesmo
necessário matá-lo afinal...
Abriu os olhos ao sentir seu cheiro. Só mesmo se já estivesse morto não seria capaz de fazê-lo. Porém, apenas o olfato ainda era eficiente na identificação. A paisagem ao seu redor havia se transformado em algo disforme, com cores mais berrantes do que o normal. Não sentiu quando o daiyoukai se ajoelhou ao seu lado. Ouviu sua voz, contudo, embora as palavras fossem difíceis de compreender. Teve as costas erguidas do chão e a cabeça amparada em uma superfície macia e familiar. Fechou os olhos pela última vez. O cheiro dele voltara a ser agradável,
como sempre havia sido.
“Sesshoumaru-sama, para onde estamos indo?” indagou Jaken em tom ansioso “O cajado está apontado para o outro lado.” “O cajado pode esperar. Faça silêncio.” Era doloroso segui-lo naquele terreno pedregoso, subindo sem parar, ao invés de simplesmente contornar as montanhas. E pensar que teriam que fazer o caminho todo de volta, já que o cajado das cabeças apontava para outra direção. Seu amo sempre ficava estranho depois de se deparar com seu meio-irmão imundo. Afinal, que espécie de pai seria capaz de lançar tamanha vergonha sobre seu próprio clã, e ainda merecer tanta consideração por parte de seu descendente legítimo? Quase tropeçou quando Sesshoumaru parou, sem aviso. Forçou a vista, querendo ver o que tanto ele contemplava de onde estava. “Ah...” espremeu os olhos já meio cansados “Um dragão?” “Ryuukossei.” “Ahn?? E por que estamos indo para lá? Parece perigoso.” “Está selado.” “Bem, se é assim...” “Vamos.” Continuou a segui-lo, evitando pensar na dor
em seus pés. Só esperava que o tal dragão estivesse
mesmo fora de combate...
O cheiro de veneno... tinha desaparecido. Despertou como quem cochila na hora errada e teme ser surpreendido por alguém. O Inutaishou estava de costas, sentado no chão, a frente de uma espada. Parecia um simples aprendiz, a despeito da armadura imponente. “Vista-se.” Só então percebeu que estava nu, ou quase, e com a pele úmida, como se tivesse tomado banho há pouco tempo. Olhou para os lados, mas o único traje a vista certamente não era o seu. A enorme ferida em sua barriga havia desaparecido, como se nunca tivesse existido. Os braços pareciam curados das queimaduras, a única diferença é que agora ostentavam duas faixas rosadas bem visíveis junto aos pulsos. “Minha roupa...” disse, em tom de indagação. “Foram reduzidas a trapos. De qualquer modo, já passou da idade de usar um traje de campo. Vista aquelas. São mais adequadas.” Levantou-se com insuspeita facilidade. A nova veste não estava longe. “Armadura...” “Já me viu vestir e despir vezes suficientes para que saiba o que fazer.” Saiu-se bem com as duas camadas de roupa, mas teve que se sentar para calçar os pés. Na verdade, não se lembrava de já ter visto seu pai ponto ou tirando as botas. “Vai se acostumar com o calçado” o daiyoukai afirmou, como se pudesse ler a dificuldade do filho “Eu tirei uma das ombreiras, para que possa continuar usando a pele sobre o ombro.” Levantou-se, testando os movimentos dos pés. Cobri-los era incômodo, mas crescera sabendo que seria inevitável, já que parte do costume de um youkai de sua espécie. Antes de colocar a armadura, voltou-se para o youkai imóvel, um pouco adiante. “Chichi-uê... O que aconteceu?” “Não pense nisso, por enquanto. Está curado. Se tiver força de vontade, até poderá tirar proveito do veneno que produz.” “... Disse que não me ajudaria.” “Eu não ajudei. Pode ter certeza que seus problemas só estão começando.” “O vilarejo... eu não lembro do que aconteceu depois...” “O ataque foi repelido pelos próprios samurais da vila. Quando os homens do inimigo o viram, pensaram que eu estava de volta. Muitos desistiram.” “Eles sabiam que o senhor não estava. Chichi-uê, eu acho que pessoas desse vilarejo estavam colaborando com eles... Eu cheguei a ver um parente de Izayoi-sama. Ele estava liderando o ataque.” “Sesshoumaru... sempre pensando que me traz notícias.” “Por que não deixa esse lugar? Leve a maldita mulher, se ela te faz tão feliz, mas não lute mais por eles. Vão traí-lo, chichi-uê. Mais cedo ou mais tarde...” “Hn... Mal vestiu as calças e já pensa que pode falar como um adulto.” Sesshoumaru terminou de se vestir. Apesar da inexperiência, sabia que tinha feito um bom trabalho. Foi até seu pai e sentou-se um pouco atrás dele, ainda estranhando seu próprio vigor. Há muito não se sentia tão bem. “Quando partirá?” o tom de voz dele mudou, tornando-se mais pesado e contido. “Hoje.” “Eu imaginei...” O silêncio entre eles era como a mais perfeita despedida. Não restava muito mais a ser dito. Mesmo assim, seu pai continuou. “... Você era tão pequeno... Eu ainda estava admirando o cadáver da sua mãe, quando percebi que meus auxiliares estavam disputando quem o devoraria. Soube de imediato que era meu filho, mas permiti que fossem em frente porque não desejava que parte daquela youkai sobrevivesse. Mas assim que me aproximei, você veio até mim e segurou a minha mão, como se em algum lugar da minha testa estivesse escrito que eu não agiria como os outros. E como tremia... Eu não consegui te empurrar de volta. Permiti que me seguisse desde então, como um cão ordinário segue o dono. Desejava que acordasse morto por alguma causa natural ou atacado por um animal furtivo. Me recusei a te aquecer quando sentia frio porque queria que fosse embora. Me recusei e ensiná-lo, como um pai faria. Sempre preferi ver em você a imagem da sua mãe do que a imagem do meu filho. Mas nem assim você se foi. E eu nunca consegui entender por que...” “Gomenassai, chichi-uê.” O Inutaishou se levantou, mantendo-se de costas, aprumado e imponente, como somente um youkai de sangue nobre saberia ser. O gesto foi repetido pelo filho. “Então... esta é a sua decisão.” “Hai.” “Não vou pedir que fique. Também não partirei com você. Viverá completamente sozinho. Sabe disso...” “Eu sei.” “Adeus, Sesshoumaru.” “Sayonara... chichi-uê.”
“Está mesmo petrificado” resmungou Jaken, um pouco impressionado com o tamanho da criatura incrustada na montanha, como uma escultura. Demorou um pouco ate que o pequeno servo notasse o que havia de realmente impressionante ali: a expressão do youkai a quem seguia. Jamais vira o jovem amo admirando algo ou alguém, como se a indiferença pelo mundo ao seu redor fosse o traço mais arraigado de sua personalidade. Naquele momento, porém, havia algo de diferente em sua expressão sempre tão gélida e distante. Um “que” de tristeza ou saudosismo que não combinava com sua cartilha de daiyoukai em ascensão. Será que seu mestre sentia falta de alguém? E o que aquele dragão morto poderia ter com isso? “Sesshoumaru-sama,” iniciou, mesmo prevendo levar um fora “Esse Ryuukossei é o tal dragão do leste que foi derrotado por um dos seus antepassados, não é?” Não houve resposta, nem reprovação. Possivelmente sua pergunta não havia sequer sido ouvida. Tanto melhor, estava apenas sendo inconveniente e, de mais a mais, poderia buscar suas respostas com youkais da região. Anoitecia quando deixaram a região montanhosa. Jaken estava exausto, e não muito satisfeito já que Sesshoumaru havia lhe dito que voltariam a seguir o caminho indicado pelo cajado. Nem sequer percebeu que fora deixado para trás mais uma vez. Em uma colina mais adiante, o daiyoukai recostara-se no tronco de uma árvore. Não descansava desde a luta com seu meio-irmão, e talvez por isso estivesse com os pensamentos pesados, tomados por lembranças inúteis de um passado que há muito deveria ter esquecido. Sem querer, sua mão esquerda pousou
sobre o cabo da Tenseiga. Uma espada que não servia para matar,
tão inútil quando uma boca sem dentes. E ainda sim, não
conseguia simplesmente se livrar dela.
Aproximou-se, caminhando pela areia da praia. Parou um pouco depois de avistá-lo ainda distante. Sentiu o cheiro forte de sangue. Havia sido informado sobre a luta com o dragão, mas não imaginava que estivesse ferido a esse ponto. Seu pai era corajoso de convocá-lo estando tão debilitado. Sua confiança podia até ser encarada como uma afronta, em outras circunstâncias. “Pensei que não atenderia o chamado de seu pai.” “Estou aqui, chichi-uê.” “Sesshoumaru... seu poder aumentou bastante desde que partiu. Apenas oito anos se passaram, e sua presença me faz sentir um velho.” “O que deseja de mim?” “Lembra-se de quando disse que os humanos me trairiam?” “...” “Não importa. Quero que saiba por mim que Izayoi espera um filho.” Dessa vez, o daiyoukai resolveu aguardar até que o jovem respondesse, ainda que levasse a noite inteira. “Foi para dar essa notícia que me chamou?” “Quando parti para as montanhas, o vilarejo foi tomado. Os invasores planejavam matar a minha cria quando nascesse e forçar Izayoi a tomar um humano como esposo. Porém ela conseguiu me enviar uma mensagem. Assim que retornei, soube que a gestação está chegando ao fim, e que o humano que liderou o ataque a levou para sua própria vila, do outro lado dessa floresta. Na verdade, não tenho muito tempo.” “Ainda não me disse porque estou aqui.” “Tenho recebido notícias suas nos últimos anos. Vejo que tem se preparado. Será um grande oponente em alguns anos. O chamei porque quero que saiba que caso eu tenha que enfrentá-lo pelas espadas um dia, será um privilégio,” sua voz soava cada vez mais contida “... Ultimamente, tenho me lembrado muito de você. Sinto falta do som dos seus passos sobre o assoalho da casa. Do tom de sua voz... Não que eu ache ruim como ela soa agora. Decerto combina mais com a sua personalidade...” fez uma pausa, como se precisasse encurtar o assunto “Eu... queria que tudo tivesse sido diferente... bem, quase tudo.” “Eu mudei mais do que pensa.” “Eu sei.” “Está indo agora, não está, chichi-uê?” “Vai me impedir, Sesshoumaru?” “Não vou impedi-lo. Porém, antes que vá, deixe a Soun’ga e a Tessaiga comigo.” “Se eu lhe disser que não farei isso, matará seu próprio pai?” “...” “Passou a desejar o poder tanto assim?” “...” “Por que?” “Eu sigo pelo caminho da conquista. Este é meu objetivo. E para alcançá-lo, o poder é necessário.” “Conquista...? Sesshoumaru, existe alguém que deseje proteger?” “Proteger alguém...? Eu dispenso tal
aborrecimento.”
Então, ele se foi, como disse que faria. Sempre que sonhava com seu pai, as imagens da última vez que o vira se repetiam em sua mente, como um castigo mais do que merecido. Ao deixá-lo partir, perdera a chance de conseguir as espadas... Perdera a chance de evitar tamanha... Estupidez. O mais forte youkai que já conhecera, reduzido a um simples escravo, disposto a dar a vida por uma humana e sua aberração recém-nascida. Fechou os olhos. Mesmo depois de tantos anos, a morte de seu pai ainda o assombrava. Com ela havia sido privado de seu direito a desafiá-lo e derrotá-lo. Havia sido privado do direito de tentar com que voltasse à razão. De nada adiantava lamentar, no entanto. Só lhe restava seguir em frente. Um dia seria superior a tudo isso. Um dia. Forçou-se a abriu os olhos para encarar a lua a sua frente, única testemunha de seus sonhos conturbados. Ainda estava alta no céu. Puxou a pele de cão, de modo que servisse de anteparo entre suas costas e o caule nodoso. Tessaiga... não importa que eu tenha te perdido uma vez. Você será minha. Um dia. Deixou-se guiar novamente para o mundo dos
sonhos. Duvidava que seria desagradável dessa vez. Estava farto
de revisar seus erros, sem poder corrigi-los. Tudo que queria era que o
céu o sugasse para longe, como tantas vezes desejou no passado.
Para o quarto de paredes de madeira, onde seu corpo era envolvido pelo
calor da pele de seu pai, e, em meio ao mais perfeito silêncio, desejava
não ter que acordar nunca mais.
~ Fim ~
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Fanfic por Ana-chan, setembro/2004 Copyright: Rumiko Takahashi/Yomiuri TV/Sunrise/Shounen Sunday Glossário: Ani-uê: irmão mais velho, forma de japonês antigo -chan- (sufixo) um diminutivo carinhoso, usado com quem é mais jovem que você, garotas ou amigos próximos. Chichi-uê: forma antiga e respeitosa de se dirigir ao pai, quer dizer algo mais ou menos como: "papai que está acima de mim" ^_^ Daiyoukai: como são chamados os youkais mais poderosos. -kun: (sufixo) diminutivo usado com homens jovens,(forma de tratamento mais íntimo) Hai: sim Hanyou: meio-youkai Minna: forma de se dirigir a um grupo; pessoal, todo mundo. Mononoke: outra forma de denominar um youkai Nandemonai: nada Onegaishimasu: por favor, forma polida -sama: sufixo após o nome que indica uma forma muito respeitosa de se dirigir à pessoa, geralmente com alguém de hierarquia superior, como por exemplo os senhores feudais, imperadores, príncipes, princesas, monges, sacerdotisas, etc. Sayonara: Adeus Youkai: criatura sobrenatural da mitologia japonesa, um tipo de espírito da natureza, que pode derivar de figuras de animais ou plantas. Youki: energia sobrenatural dos youkais Yukata: traje japonês (kimono) de algodão usado no verão. Voltar a Inuyasha Fanfics |