AVISO IMPORTANTE: Esta é uma fanfic Yaoi, com cenas Lemon, e contém relacionamento sexual entre pai e filho (incesto). Este conteúdo pode ser considerado pesado para certas pessoas. Se você achar esse assunto ofensivo ou não lhe agrada a idéia, sugiro que não continue sua leitura.
Perfeição

Fanfic por Lalachan



Finalmente o cheiro salgado do mar atinge minhas narinas, como o cheiro de um velho conhecido há tanto esquecido. Cada passo que dou através da floresta que terminará à beira deste pedaço de praia escondido do resto do mundo, o torna mais forte, mais pungente ao meu olfato tão apurado. E justamente por ser tão apurado também já sei que não serei o único ocupante deste pedaço de areia a esta hora da noite. 

Ele já chegou. Sempre pontual...

Uma pontada me atinge o estômago, e aperto a mão por cima da armadura embora saiba que isto de nada adiantará para estancar o sangue que corre continuamente. Atrás de mim sei que há uma trilha vermelha desenhada em linhas irregulares, muito embora meu passo ainda seja firme. Gostaria de poder dizer a mim mesmo que não é tão grave assim, que o maldito dragão não me atingiu tão fatalmente, mas mentir para si mesmo é somente para os tolos. 

Não me resta muito tempo. Mas terá que ser suficiente para um último encontro com ele. Sesshoumaru... a perfeição que traz a morte. Seguindo a sina de seu próprio nome, ele assim já se tornou conhecido por todos os cantos dessas terras, este youkai que um dia já pude chamar de filho. Com tanta facilidade, aquele menino de olhos dourados sempre erguidos buscando meu rosto... transformou-se em um estranho de quem não saberia mais o que esperar. É incrível que de fato tenha atendido ao meu chamado, e de repente, me dou conta do quão estúpido pode ter sido este último ato de consciência em relação ao meu primogênito. Sei que poderei morrer aqui, nesta praia, antes de cumprir meu último objetivo. Salvar minha cria humana, o meio-youkai que herdará minha Tessaiga.

Por que tal pensamento não me causa nenhum pavor? Terei eu algum dia, previsto isso, ao nomear meu filho mais velho com um nome tão significativo?

Não sei quem me espera nesta praia. De qualquer forma, não preciso aparecer como um moribundo diante dele ou de quem for. Uma outra pontada repuxa fortemente o meu estômago e eu paro de andar, fechando os olhos. Sinto vontade de me encostar por alguns momentos em uma árvore mas não o faço. Não posso me encostar em coisa alguma sob o risco de não conseguir mais levantar. Tenho que me manter de pé. Sesshoumaru me verá de pé e de cabeça erguida. Eu o olharei nos olhos, talvez pela primeira vez. Faz tanto tempo que não o vejo que é provável que já esteja tão alto quanto eu. 

Mesmo sabendo disso, sempre que sua imagem me vem à lembrança, estou olhando para baixo, para sua face alva e perfeita, e seus olhos estão sempre me fitando como que constantemente à espera de algo. É desta imagem que gosto de me lembrar quando penso nele... mas logo ela é substituída por outra, bem menos agradável. Sua expressão quando lhe contei que estava envolvido com uma mulher humana, e que pretendia gerar um filho com ela. 

Se já pude ver dor alguma vez em seus olhos, creio ter sido neste momento. Dor e um som surdo que somente eu era capaz de ouvir: o grito silencioso de revolta que queria explodir de dentro dele, mas que ele nunca o permitiria. Porque então, feria tanto meus ouvidos, aquele silêncio acusador que se seguiu, como se a ausência de palavras pudesse pesar mais do que mil ofensas?

Naquele momento eu o perdera. Se já o tive antes, foi ali que ele se foi, definitivamente. Ainda em silêncio ele apenas virou-me as costas, e partiu. Fiquei parado no mesmo lugar, olhando sua silhueta se tornando cada vez menor, até sumir de minha vista. 

Não consigo mais resgatar seu rosto de antes, com os olhos dourados tão brilhantes me encarando e esperando tudo e ao mesmo tempo, nada de mim. 

Abro os olhos. Se fechá-los por um momento é capaz de me tornar este ser patético que se revolve em lembranças, então os manterei bem abertos daqui por diante. Levanto a cabeça e continuo avançando pela floresta. Já vejo a areia da praia por entre as árvores que se tornaram mais esparsas. Eu abandono a floresta finalmente e caminho pela areia, em passos que continuam firmes não sei como. A lua cheia que estivera se escondendo atrás de uma nuvem, se mostra inteira, reinando no céu negro, iluminando tudo como se fosse dia, proporcionando-me toda a luz para vê-lo, à medida que vou me aproximando mais de sua figura parada em uma duna mais à frente.

Ele se encontra de costas para mim, fitando o mar. Vou encurtando a distância mas ele permanece imóvel. Eu paro a alguns metros, e aguardo para ver que tipo de criatura vai se voltar para me olhar, este estranho youkai que cheira igual ao filho que há tanto tempo não vejo.

Antes que se volte, vejo sua figura de costas, os cabelos tão mais longos, talvez mais do que os meus, soltos ao sabor do vento que vem do mar, um intruso frio e salgado que se infiltra por entre os fios prateados como se desejasse tocá-los. Também ele veste uma armadura imponente, e seu traje branco também é castigado pelo vento do oceano, mas ele parece não se importar. Finalmente, vira-se lentamente, ficando de frente para mim. 

O vento frio do mar agora castiga ambos nossos cabelos, enquanto ele me olha fixamente. Sim, esse rosto. Eu me lembro agora... essa expressão séria, quase melancólica, sempre lhe foi inerente, mesmo antes de receber as notícias sobre Izayoi, e sobre o que ela significaria em nossas vidas dali para a frente. No entanto, algo está diferente agora.

Esse estranho youkai adulto que me encara sem expressão é mesmo meu filho? Esses olhos dourados são puro gelo enquanto me olham sem piscarem. Não há mais ódio neles. Não consigo ouvir o grito silencioso que antes feria meus ouvidos. Somente o triste silêncio do vazio.

Um estranho chamado Sesshoumaru. Meu filho... a imagem da perfeição cruel. Perecerei sob essas garras que se escondem nas mangas de seu kimono? Estará neste exato momento imaginando a melhor maneira de abreviar meu fim já próximo? Sem dúvida deve já ter sentido há muito o cheiro de meu sangue do ferimento. Um estranho bolo me sobe a garganta e meus olhos começam a embaçar. Não tenho a menor idéia do que acontecerá daqui para a frente. No entanto, agora que estou aqui frente a frente com ele, me dou conta que estive todo este tempo apenas esperando para ter esse par de olhos dourados olhando para mim mais uma vez. A última vez.

Começo a mover os lábios. Não sei o que sairá deles. Mas nada falo pois a voz dele, grave, algo sombria, me chega aos ouvidos antes, me calando fundo e despertando-me a energia novamente.

- Chichi-uê...

Como um estranho feitiço... essa única palavra foi capaz de transformar o estranho a minha frente em meu filho há muito perdido. As forças me fogem e sinto meus joelhos tocarem a areia da praia. Incapaz de reagir, sei que logo meu corpo desabará também. Ao invés disso, sou amparado por braços longos e fortes que me seguram, minha cabeça é apoiada em algo macio... seu pêlo de cão. Ele me chama mais uma vez, antes que a escuridão me puxe poderosamente e eu não seja capaz de ouvir mais nada.
 
 
 
 
 

Não é dessa vez que deixo este mundo. Talvez porque as obrigações pendentes aqui ainda não queiram deixar que eu me desprenda definitivamente. Ou talvez, eu ainda não queira fazê-lo. Não quando posso abrir os olhos e deparar com sua face tão próxima, ainda me segurando junto a seu peito, como se assim fosse capaz de impedir que eu deixe esta vida... ou seus braços.

- Sesshoumaru... – sou capaz de murmurar, antes que um ataque de tosse me interrompa e me faça curvar o corpo dolorosamente, e sinto o gosto acre de meu próprio sangue nos lábios. Ele não se afasta, continuando na mesma posição, apenas aguardando que eu me recomponha e seja capaz de sentar-me sozinho. Mesmo que esse rosto imaculadamente perfeito seja quase irresistível de se desviar o olhar, não consigo encará-lo, e somente neste momento desejaria não usar rabo de cavalo... talvez assim meu longo cabelo pudesse me esconder desse par de olhos de âmbar que me olham tão fixamente. No entanto o que passeia neles é o mais profundo dos mistérios. Não está ao meu alcance desvendá-lo, se é que jamais esteve...

Finalmente me sinto seguro para me sentar na areia úmida da praia, e quando ele percebe isso, sinto a mão que apoiava minhas costas delicadamente se retirar delas. Mas continuamos próximos, e posso sentir seu cheiro tão fortemente que é quase doloroso, pois sem dúvida, ele cheira agora como um youkai adulto. Quando o vi pela última vez, estava começando ainda a amadurecer, embora já pudesse se virar sozinho, o que de fato fez, muito bem por sinal, todos esses anos... mas seu cheiro ainda era o de um menino, então.

Imagino o quanto, para ele, o quão deve lhe parecer patético o meu próprio cheiro, cheiro de sangue e morte, cheiro de um perdedor. Sei que sou uma presa fácil para ele, e neste exato momento, não seria nem necessário lutar. Ele já é o herdeiro natural das minhas três espadas. Basta que assim o deseje. Quase espero por isso, a chegada de seu golpe de misericórdia, antes que se abaixe ao lado de meu corpo e proclame para si as katanas. Tão fácil quanto tirar um osso de um cachorro velho e cansado.

O golpe fatal nunca chega, a não ser que ele esteja pretendendo me matar apenas com o poder de seu olhar. Ainda com receio de encarar seus belos olhos dourados, não chego a duvidar totalmente desse poder, mas enfim eu olho para seu rosto. 

Ele nada fala. Palavras nunca foram seu forte. Palavras de dor ou de felicidade, sempre as guardou profundamente só para si, deixando à mostra apenas uma sombra de sua expressão. A mesma que me olha neste momento. Não há desprezo, mas também, não há mais nada. Sinto como se olhasse para uma estátua. A impressão se desfaz quando os olhos piscam, interrompendo o encanto e me lembrando das minhas próprias palavras que eu não deveria estar guardando agora.

Tanto por falar. É como se ele esperasse por ouvir-me, placidamente, enquanto ainda mantém o corpo tão junto ao meu, como se receasse que eu desmaie novamente. Não vou fazê-lo. Não conseguiria fechar mais os olhos e me separar de semelhante visão. Seu olhar me mantém vivo, enquanto o momento de reclamar as espadas vai ficando cada vez mais distante e improvável.

Eu abro levemente os lábios, mas não sei ao certo o que sairá deles. Preciso lhe falar... sobre tudo que culminou ate este momento. Sobre o que ainda me espera. Mas será que desejo mesmo falar? Admitir tantos erros diante da única pessoa que previu todos eles, mesmo sem me dar uma palavra sobre isso? 

Tudo me vem à mente agora, embora meus lábios ainda pairem entreabertos sem nenhum som sair por eles. O momento em que meu destino mudou, ao me envolver, a princípio tão levianamente, com uma mulher humana. A leviandade rapidamente se transformou em algo até então desconhecido para mim, mas fascinante demais para que eu conseguisse evitar seu desfecho. Desde o começo, sempre soube que nossos mundos sempre seriam diferentes demais para uma relação de verdade, mas simplesmente rendi-me a minha própria arrogância de achar que podia cuidar de tudo. 

O fato é que não pude. Não pude proteger Izayoi nos tempos finais de sua gestação, muito menos evitar que fosse seqüestrada por Takemaru. Enquanto eu lutava incansavelmente com Ryuukosei por longos cem dias e cem noites, o destino da mulher que escolhi para ser mãe de meu segundo filho estava nas mãos de um inimigo muito mais cruel do que o dragão que me causou este ferimento. Preso no combate cujas seqüelas certamente ainda levarão minha vida, eu nada podia fazer além de lutar ferozmente e confiar no poder magnífico de minha espada Tenseiga. E, é claro, não pensar. Não pensar no sofrimento que causei àquela de quem deveria ser o protetor, e  no futuro sofrimento do meio-youkai que ela carrega em seu ventre. 

Quero lhe falar tudo isso. Sei que jamais entenderia, sei que sua expressão não mudará, nem mesmo me brindará com seu desprezo. Sinto como se ele já tivesse alcançado um nível superior onde não precisa sequer me odiar. Mesmo assim, tenho essa necessidade de lhe contar, uma ínfima esperança de que ainda seja possível alcançar aquele rosto de olhos dourados, brilhantes, erguidos atentos em minha direção. Esperando tudo ou não esperando nada de mim. 

- Sesshoumaru... – tento comecar, a voz rouca, o gosto amargo de meu próprio sangue temperando seu nome em meus lábios como um doce veneno. Mas as palavras travam, ao vê-lo balançando levemente a cabeça, com os olhos fechados. 

Ele já sabe.

Um certo alívio me invade. É claro que sim. Como eu pude mesmo esperar que estivesse lhe trazendo alguma novidade? De repente, me dou conta que nada disso importa realmente. O que importa é que estou aqui, com ele, agora. Quem me dera poder ficar aqui para sempre, mas ainda há obrigações me esperando antes da hora final. E eu tenho que cumpri-las.

Tento me levantar, mas uma pontada de dor lancinante no estômago não permite, me fazendo sentar de volta, com os olhos apertados de dor, sem a menor necessidade de disfarçar meu estado decadente diante dele. Meu filho, que sempre previu isto, e para quem nada é surpresa. Permaneço de olhos fechados, e sinto a mão que antes saíra de minhas costas retornar, mais firme que antes, me trazendo para mais perto, até meu rosto mergulhar novamente na maciez do pêlo branco sobre seu ombro.

Eu aperto os olhos com mais força, para evitar que lágrimas saiam deles. Se é que eu seria capaz de chorar. Neste momento, tudo foi deixado de lado... orgulho, dignidade, honra, poder... tudo desapareceu no meio desses fios brancos de seus cabelos, que se misturam com o pêlo macio onde repouso minha face. Seu cheiro me envolve inteiramente agora, como uma aura protetora e quente, e sinto que nem mesmo a morte que já me acena seria capaz de me arrancar daqui.

Uma eternidade se esvai e tudo que rompe o silêncio são as ondas estourando na praia, deixando na beira da areia molhada uma trilha de espuma, antes de retornarem para o mar. 

Antes que eu volte a abrir os olhos, sinto algo quente e úmido tocando minhas palbebras fechadas, então decido por permanecer assim mais um pouco, para que tal contato se prolongue, mesmo que não tenha certeza do que seja, apenas que é agradável. Então me dou conta que são seus lábios. Eles beijam meus olhos fechados suavemente, primeiro um, depois o outro, sua língua começa a percorrer minha face, lentamente, traçando um caminho úmido ate chegar aos meus lábios, que já estão entreabertos, prontos para receber seu beijo.

Não há espaço para pensar que seus braços voltaram a envolver meu corpo por debaixo da minha armadura, só que agora não protetoramente, mas ansiosamente, querendo diminuir a distância entre nós. O beijo se aprofunda, longo, sôfrego, molhado... como nunca imaginado nem nos mais improváveis sonhos. Eu me perco nos seus lábios macios, rendendo-me ao mistério que se esconde neles, e a sede que despertou nos meus, que parece não ter fim nem mesmo quando nossos lábios se separam. 

Eu fui deitado na areia sem que percebesse. Continuo de olhos fechados, quase com medo de abri-los e me descobrir sozinho na areia da praia, e durante um tempo, não fosse por seu cheiro ainda próximo a mim, quase poderia acreditar que é verdade. Quando finalmente tenho coragem de abrir os olhos, vejo que ele já se desvencilhou da própria armadura, e sentado entre seu pêlo de cão, veste somente o kimono, mas este também já largo e solto, deixando a mostra os ombros bem torneados e parte do peito tão alvo. A luz generosa da lua cheia empresta-lhe um brilho pálido, e tenho a impressão de que posso ver cada pedaço de pele, cada fio prateado de seu cabelo, levemente balançado pelo vento que vem do mar... As duas pedras de âmbar me encaram a espera de algo que nem tenho mesmo certeza de saber o que seja. Talvez a única certeza que ainda me reste são esses olhos dourados que não se desviam dos meus. O que eles querem? O que eu quero afinal?

Meus olhos devoram seu corpo com uma fome que eu nem sabia que possuía. Talvez estivesse muito bem escondida no lado mais profundo de minha alma, aquela que nunca quis realmente me separar dele. Eu preciso tocá-lo. Preciso saber que é real, que não desaparecerá como uma ilusão, ou um delírio de quem está as portas da morte. Meu braço começa a se levantar para tocar sua face, mas ele pega minha mão no meio do caminho e a conduz para o próprio rosto. Sua língua quente lambe meus dedos, em seguida, ele beija a palma de minha mão, brindando-me com a visão de seus olhos fechados, as pálpebras rosadas à mostra, iguais às minhas. 

Relutante eu puxo minha mão de dentre as suas, e tento me sentar, mas rapidamente sua mão se dirige ao meu peito, me impedindo. Eu não insisto. Não tinha certeza de conseguir ir ate o fim com meu intento. Fecho os olhos de novo. Na nova escuridão, que digo a mim mesmo ser apenas para recuperar parte de minhas forças, sou despido de minha armadura e parte do meu kimono, e quando olho para ele novamente, estamos ambos livres de qualquer empecilho que possa separar nossos corpos.

Seus lábios se aproximam de mim mais uma vez. Eu anseio pelo beijo, por tocá-lo novamente, como se o primeiro beijo não fosse suficiente para me convencer que isto está mesmo acontecendo. Com mais beijos, carícias com sua língua em meu rosto e pescoço, ele me mostra que sim, está de fato acontecendo. Em algum momento meu cabelo foi solto por ele e agora se espalhou a minha volta, se misturando com o dele, os fios prateados de ambos se misturando juntamente com nossos corpos. 

Sesshoumaru... quero falar, mas as palavras estão presas na minha garganta, e não saberia o que dizer. Talvez nunca tenha havido espaço para elas. 

Um intruso se interpõe entre nós de repente... é a dor latente do ferimento em meu estômago, que agora volta a pulsar loucamente. Ao notar meu rosto franzido com o incômodo, ele começa a descer a língua por meu peito até alcançar o lugar do corte. Em movimentos suaves ele lambe a área em volta, continuamente, até que a dor se transforme em algo suportável. O sangue, no entanto, continua a fluir, em menor quantidade, quase como para lembrar que o ferimento ainda está ali. Ele se afasta, talvez consternado em continuar. Eu não quero que se afaste de mim e em um ímpeto de coragem, o puxo para mais perto, até nossos corpos ficarem novamente colados, e nossos lábios se tocarem com mais ânsia do que antes.

Este é um mundo onde jamais havia pisado... e também um mundo ao qual certamente não pertenço. Sou um infeliz intruso, tragado pela maciez dos seus longos cabelos, pelo aroma instigante de seu corpo quente, pelo toque suave de seus lábios... Minha mão passeia por seu peito, onde debaixo dessa pele tão alva bate um coração vigoroso em ritmo acelerado, quase tanto quanto o meu. O youkai com expressão de gelo tem rios de fogo lhe correndo por dentro. Quero me queimar neles, até minha vida se esgotar completamente...

Como se ouvisse minha silenciosa prece, seus lábios começam a descer por meu pescoço, peito, descendo mais... até se concentrarem no lugar mais abaixo onde uma explosão surpreendente de vida quer ser libertada a qualquer custo. Inclino minha cabeça para trás, afundando nos pêlos de cão que formam nosso leito, fecho os olhos em deliciosa agonia quando seus lábios me envolvem, sua língua me toma de assalto, em movimentos lentos e enlouquecedores, se de fato ainda restar alguma sanidade em mim neste momento.

Eu ofego, indefeso, completo refém de suas carícias, até elas cessarem de repente. Abro os olhos, indolente, e vejo imediatamente sua face bem acima de mim, tapando a visão da lua no céu negro acima de nós. Curvo o corpo dolorosamente quando sinto sua perfeita entrega, seu corpo quente a minha volta, um túnel de fogo onde serei devorado por minha própria luxúria. Um mar de cabelos prateados me rodeia enquanto capto sua face pairando a minha frente, movimentando-se no mesmo ritmo que seu corpo, cada vez mais rápido... Tenho uma vaga consciência do sangue que voltou a correr do ferimento mas em meio a semelhante redemoinho de sensações, isso se perde de vez. 

Ainda encontro forças para puxar seu rosto corado para perto e beijar-lhe os lábios ofegantes, enquanto o inevitável orgasmo se aproxima em velocidade assustadora. 

Seus olhos... agora vermelhos como sangue, eles me anunciam que o fim está próximo também para ele. Nossas energias estão no máximo, posso ver seus caninos maiores que o normal por cima dos lábios finos, e sei que meu rosto deve estar do mesmo jeito. Quero continuar olhando para ele, mas a visão de sua face começa a embaçar em uma nuvem vermelha e confusa, a medida que nossos movimentos ficam mais selvagens e incontroláveis, como se nossos corpos tivessem adquirido vida própria. Um rugido indecifrável escapa de meus lábios e ecoa na noite, sendo acompanhado pelo dele, quando chegamos ao orgasmo quase simultaneamente. 

Um pensamento consciente flutua em minha mente... Eu nunca me senti tão vivo quanto neste momento. Talvez a morte seja isso: Uma explosão de vida antes da escuridão final. 

De olhos fechados, sinto seu corpo desabar sobre o meu. Permanecemos assim por um tempo que parece interminável, enquanto nossas respirações voltam ao normal. Ele desliza para o lado, sem no entanto se afastar de mim, e descansa a cabeça em meu ombro, os olhos novamente dourados e ainda embaçados me fitando... esperando tudo ou nada de mim. 

Acima de nós, a lua continua reinando soberana, única testemunha do encontro de dois corpos abraçados, das pernas e braços entrelaçados em um leito de pêlo de cão, suor, areia e sangue. Se a lua pudesse contar sua estória sobre os amantes sobre a areia da praia, que segredos revelaria? 

Quando eu fechar meus olhos, levarei esta última visão comigo para o outro mundo: Sua face me fitando, seu corpo deitado ao lado do meu, lânguido, os cabelos longos e prateados espalhados a sua volta. Seus olhos dourados pousados sobre mim, para sempre.

Meus olhos se fecham, e sei que pela última vez. Ouço sua voz me chamando, mas essa voz vem de cada vez mais longe, até sumir por completo, restando apenas o vazio da total escuridão da morte.
 
 
 
 

- Chichi-uê...

A voz não foi embora, ela continua me assombrando ainda que pareça tão distante. Abro os olhos lentamente e a primeira coisa que vejo é a lua cheia, parecendo enorme e solitária no céu sem estrelas. Eu ainda estou vivo... mas uma pontada horrível de dor em meu estômago me lembra que não por muito tempo. 

Ainda deitado de costas na areia da praia, tenho consciência do cheiro dele ainda próximo, mas não no meu campo de visão. Tentando ignorar a dor lancinante eu tento me sentar, sentindo mais do que nunca o peso da minha armadura. 

Agora posso vê-lo novamente. Continua na mesma posição de quando cheguei aqui, de costas para mim, de pé em uma duna mais alta, observando o mar sem fim. Se tivesse tempo para isso, talvez me questionasse se ele realmente me amparou antes que eu desmaiasse ou se isso também foi um delírio provocado pela morte próxima.

Ele não se moveu até que eu estivesse novamente de pé. Minhas três espadas ainda estão em meu poder, e sinto um leve peso na consciência por me preocupar com isto neste momento. Terei eu jamais tido o direito de duvidar de sua dignidade e honra? Ele não me atacou enquanto estava desacordado, e mais do que isso, ainda espera que eu me recomponha e volte a parecer novamente com o youkai mais poderoso, e não o perdedor moribundo que se arrastou até aqui nessas condições execráveis.

Quando ele se volta, ficando de frente para mim, já estou completamente de pé. Os olhos dourados me encaram, frios e inexpressivos, como não poderia deixar de ser. Se eu fitar esses olhos de gelo por mais tempo, talvez não tenha mais forças para continuar, então, dou alguns passos a frente, me aproximando mais dele. Ele apenas espera.

- Obrigado por ter vindo até aqui, Sesshoumaru.

Nenhuma resposta. Eu sabia que não haveria uma. Sentindo uma poça de sangue se formar aos meus pés, eu me forço a continuar.

- Não tenho muito tempo, por isso terei que ser prático. Chamei você aqui para lhe falar de sua herança, caso eu não volte do que terei que fazer.

- Minha herança? – finalmente ouço sua voz, levemente interessada. – está falando da Tessaiga? – era mais uma afirmação do que uma pergunta.

Eu contenho um suspiro porque não há tempo nem mesmo para isso. Agora posso ver o que esses incríveis olhos dourados esperam de mim. Tudo o que não posso e nunca poderei dar.

- Você não ficará com a Tessaiga. Sua herança é minha espada Tenseiga, sua espada irmã. Escute com atenção: Caso eu não volte, reclame a espada ao Toutousai. Ele será capaz de entregá-la a você. 

- Não quero essa espada. Essa “herança” não me interessa.  – sua voz segue no mesmo tom, não há raiva nem emoção, somente a frieza de uma constatação. - Não é assim que youkais ficam com as armas de seus pais. Quero derrotá-lo em combate por elas, como o senhor mesmo derrotou seu próprio pai pelo título de Inutaishou.

É incrível como ele ainda se lembra de coisas que lhe contei em tão tenra idade. Por um breve instante, quase posso ver por detrás dessa bela face de gelo, aquele rosto que se perdeu no passado, aqueles olhos brilhantes esperando que eu lhe mostre que caminho trilhar. 

Não posso mais fazer isso, filho. Não posso mais lhe mostrar que caminho seguir, se meu próprio caminho me parece estranho demais e fora de propósito, mas não posso mais me desviar dele, é tarde mais para mim agora.

- Sesshoumaru, não lhe devo satisfações do que faço. Se quiser lutar comigo agora, tudo bem, mas você sabe que ainda não tem poder suficiente para isto. Já lhe falei o que precisava, agora devo partir. 

- Vai salvar a mulher humana de seus raptores? Por que se importar com tão pouco? 

Incrível como fala tais coisas com um quê de leve sarcasmo disfarçado pelo tom gelado de sua voz. Fossem outras as circunstâncias, eu o desafiaria aqui mesmo por tal arrogância. Mas o tempo se esgota tão rapidamente quanto o sangue que esvai de meu corpo. 

- Não pergunte sobre o que não poderia entender, Sesshoumaru.

Eu dou alguns passos em direção ao mar, e passo por ele sem encará-lo. Subo em uma duna mais alta, e agora estamos em posições contrárias... sinto-o ainda parado na mesma posição, agora atrás de mim, enquanto olho para o mar calmo da madrugada. O luar forma um reflexo brilhante na água escura, e à distância, não é possível determinar onde termina o mar e onde começa o céu. Lanço um último olhar ao horizonte, e quando uma onda arrebenta na margem mais abaixo, sou tomado por uma desconcertante lembrança... olhos dourados tingidos de sangue, o bater acelerado de um coração capturado pela paixão, o toque quente de uma pele feita de gelo e fogo... Eu fecho os olhos dolorosamente, querendo expulsar tais pensamentos incoerentes de dentro de mim, sem sucesso. 

Eu sei o que seria perfeito para mim. Poder morrer aqui, nesta praia, entre seus braços, sentir o cheiro do mar misturado ao cheiro de sua pele, ter seus lábios colados aos meus, em um beijo de despedida que selaria para sempre minha alma em um eterno e doce-amargo arrependimento. 

Mais uma pontada aguda de dor me faz acordar deste sonho impossível, me deixando mais desperto para o que ainda preciso fazer. À minha frente, somente o mar parece aguardar minhas palavras que nunca serão pronunciadas. Quem sabe, um dia, você não será capaz de ouvi-las em seus sonhos mais profundos?

Ainda trocamos mais algumas frases rudes. O vento forte que vem do mar embala nossos cabelos enquanto falamos. A rispidez em nossas vozes é como um último elo que ainda nos mantém ligados, mas em breve, nem mesmo isso haverá.

O tempo todo, seu cheiro dança à minha volta, como uma serpente insinuante que me tenta a desviar-me do caminho. Um caminho desenhado com meu sangue, que aumenta cada vez mais a nova poça que já tinge a areia aos meus pés . 

Minha energia sobe e suas últimas palavras acompanham minha transformação. Finalmente o deixo para trás. Atrás de mim, sei que um par de olhos dourados que vão ficando cada vez mais distantes continuam me fitando até que eu desapareça totalmente de sua visão. Seu cheiro, no entanto, não desaparecerá tão cedo dos meus sentidos. Ele me acompanhará até o fim, seja ele qual for.

Até em meu último momento, não poderia desejar nada menos do que a perfeição.
 
 





~ Fim ~

 


Fanfic por Lalachan, julho/2005
Copyright: Rumiko Takahashi/Yomiuri TV/Sunrise/Shounen Sunday
Glossário:

Chichi-uê: forma antiga e respeitosa de se dirigir ao pai, quer dizer algo mais ou menos como: "papai que está acima de mim" ^_^
Katana: espada
Youkai: criatura sobrenatural da mitologia japonesa, um tipo de espírito da natureza, que pode derivar de figuras de animais ou plantas.
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