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(Densa Floresta) Songfic por Lalachan
Quando abro os olhos ela não está mais lá. Chego a duvidar que de fato esteve. Mas isso não importa. Posso me mover agora. É o que faço, ainda sentindo os efeitos do golpe que poderia ter sido mortal repercutir em todo meu corpo. Quanto tempo fiquei preso nesse recanto da floresta, imóvel, escondido, humilhado... refém de minha própria vergonha e desonra? Ser derrotado pelo hanyou que sou obrigado a chamar de irmão, mesmo que essa palavra me custe a sair dos lábios sem que soe como uma ofensa. Para mim mesmo. Enquanto sigo a trilha para fora da floresta, pela primeira vez em dias apalpo a região do meu peito, sentindo os resquícios de armadura quebrada, feita em pedaços pelo mesmo golpe que poderia ter acabado comigo. Durante o tempo em que fiquei cativo da escuridão da floresta, somente o ressentimento e perplexidade me fizeram companhia, como um manto indesejável pairando sobre mim juntamente com as estrelas e o luar... Não, espere, houve mais alguma coisa. Mais alguém. A menina humana...Certamente um sinal do destino para me alertar que naquele momento, eu me encontrava tão fraco quanto essa criatura patética que ousou se aproximar de mim desconhecendo talvez os limites entre o perigo e a curiosidade. Onde estará a criatura fraca agora? Certamente não viverá muito, se é que ainda vive. Na verdade, posso sentir ainda seu cheiro, não muito próximo. Talvez acabe por viver. Talvez, acabe por contar aos netos humanos o quanto arriscou a vida ao se aproximar de mim. Isso também não me importa. Esqueço-a imediatamente, enquanto a brisa do campo aberto me recepciona, e meu olhar e meu nariz procuram por Jaken... Jaken, servo inútil que não pôde me encontrar mas que certamente deve estar à minha procura. De repente paro sem
saber exatamente porque. Olho para trás, para a escuridão
da floresta da qual emergi há pouco, com uma sensação
de ter deixado algo para trás. Mas logo passa. A minha frente, a
relva alta parece dançar ao sabor do vento, e isso é quase
tranquilizador. Mais ao longe, vejo Jaken em cima do lagarto de duas cabeças.
Sem que percebam me abaixo para catar uma ou duas pedras.
Quase me divirto ao castigar-lhe levemente com as pedras. Servo idiota, porém não posso dizer que estou totalmente insatisfeito por tê-lo encontrado. Deve ser o poder de me mover novamente fortalecendo minhas veias. Jaken começa a murmurar desculpas intermináveis mas ao mesmo tempo parece contente em me ver. Só por isso lhe atiro outra pedra, derrubando-o de cima do lagarto. Logo o momento de diversão se esvanece, pois coisas mais práticas exigem minha atenção. Sinto-me tão incompleto, tão estranho sem minha armadura inteira. Tenho que providenciar isso o mais cedo possível. Inevitavelmente, a imagem da Tessaiga me vem a mente, a herança tão poderosa que foi cruelmente destinada a outras mãos. Será que um dia conseguirei pensar nisso sem sentir tanta raiva? Quanto poder mais terei que conseguir para compensar esse erro terrível de meu pai? Ainda que consiga todo
o poder do qual nem necessito, nunca poderei ter a única coisa que
mais quero. A única que importa. Chichi-uê, espero que esteja
satisfeito com sua decisão. Você decidiu trazê-lo para
a luz, e me jogar nas sombras. Procurar sair delas é o caminho que
persigo. Mas mesmo que consiga... esta escuridão eu sempre levarei
comigo. Você a deixou para mim, afinal.
Quero deixar este lugar. Me preparo para partir. Jaken e o lagarto já estão prontos. Então, algo me faz parar. Não é qualquer coisa que me faz parar. Mas somente este... cheiro? Sim, reconheço. A criaturinha. A menina humana... Jaken fica reclamando atrás de mim mas o ignoro, entrando novamente na floresta escura. O odor pungente do sangue dela me atinge com mais força. Nem está tão longe assim agora. Certamente mais perto do que da última vez. Será que estava vindo atrás de mim? Menina tola. Acho que preciso apenas me certificar do seu triste destino, o que o cheiro do sangue já me revelou, mas quem sabe apenas comprovar com os próprios olhos até onde a fraqueza de um ser humano pode chegar. Mais uma prova de que meu pai cometeu o maior erro de sua vida, e também o último, simplesmente por apreciar essa fraqueza. Por que alguém preferirá ser fraco se pode ser o mais forte de todos? Quando me aproximo do
pequeno corpo jogado no chão, quase não é possível
vê-lo, com os lobos atracados por cima como se entretidos em um grande
banquete. Na verdade, nem tão grande assim. Não havia reparado
antes em como a menina era pequena. Não irá sobrar nada dela
nos ossos quando eles terminarem. Ela também parece menor em meio
a enorme poça de sangue ao seu redor. Mesmo em meio a tanto sangue
que chega quase a ferir minhas narinas... posso ver que um olho seu continua
inchado e fechado e o outro aberto, como se vigiando do além o que
ainda acontece com seu corpo. Em breve... não haverá mais
nada para se olhar.
Me irrito com os lobos. Eles rosnam para mim e eu os assusto apenas com um leve aumento de energia. Eles fogem apavorados sem terminar seu banquete. O corpo da menina continua lá, em meio ao sangue, como uma trouxa de pano encharcada e esquecida. Olho para ela durante um tempo, até Jaken finalmente me alcançar, soltando elogios exagerados como sempre. Não lhe dou atenção. Afinal, que faço aqui? Já vi que a humana está mesmo morta, talvez fosse melhor ter deixado os lobos terminarem o serviço. Não sei porque me irritei com essa idéia. Jaken pergunta o que eu quero com a humana. Respondo que nada e dou as costas. Hora de seguir meu caminho. Sem olhar para trás. Mas eu paro de novo.
Vejo-a sorrindo. Ainda não tem todos os dentes da frente, por isso
o sorriso é falho. Os dois olhos agora estão fechados no
sorriso, um sorriso tão alegre embora seu rosto ainda esteja inchado
de uma surra anterior. Quando ela tenta falar, não consegue, aperta
a garganta, tenta... mas nada. Mesmo assim parece contente. Nunca entendi
realmente porque. Também não entendo porque essa imagem do
rosto dela me assombra nesse momento e me congelou no lugar tão
poderosamente. Quando me viro, a idéia já está fixa
em minha mente.
Jaken não entende nada. Eu prefiro não pensar no porque de estar fazendo isso. O motivo que me levou a esta decisão. Murmuro alguma coisa sobre testar a espada que meu pai deixou para mim. Quando me aproximo novamente do corpo da menina, a Tenseiga já está em minha mão. Sinto-a vibrar de repente, um poderoso pulsar que me é ligeiramente familiar. Enfim entendo. Enfim vejo-os... os emissários da fronteira entre a vida e a morte. Tais quais os lobos, eles cercam a menina não para devorar sua carne, e sim para levar sua alma para o mundo dos mortos. Meu braço brande a espada em golpes rápidos e certeiros. Logo não há mais emissários em cima dela. Fecho os olhos. Uma energia estranha percorre a espada, sobe por meu braço e pelo resto do meu corpo. Imediatamente, várias imagens me assaltam poderosamente, mas é tudo muito rápido. Cenas de uma vida... uma curta vida humana ceifada antes do tempo mas que deixaram uma marca na alma dessa criança humana. São imagens desconexas, algumas incompreensíveis para mim. Imagens que parecem tão felizes quanto tristes... Dias comuns com outras crianças debaixo de um céu muito azul, onde há um sorriso puro dançando em seu rosto, os dois olhos abertos e a face limpa e corada. Dias sombrios com morte e violência vinda de sua própria gente, o que a deixou sozinha. O que a deixou... na escuridão. E por fim, a última imagem que sobrou em sua alma. Uma imagem minha, partindo, sem olhar para trás, sem dar atenção aos seus apelos silenciosos por ajuda. E logo, nem isso havia mais, e abrindo os olhos, deixei que as imagens de sua alma escapulissem de volta para seu corpo ainda estendido no chão. Imagens e cores de uma vida curta, mas que agora... continuaria. Fui eu ou foi a Tenseiga
que ouviu seu silencioso apelo afinal?
Me abaixo e ajoelhando-me, levanto seu corpo fragilizado apoiando-a em minha perna. Jaken passou da confusão para o choque, mas continuo ignorando-o. Apenas espero. Logo, posso ouvir... o som de seu coração novamente, voltando à vida, sua alma tomando posse do corpo e recomeçando a viver. O som fica mais forte. As batidas parecem encher o mundo, vigorosas. Não posso deixar de me maravilhar secretamente com o poder que reside nesta espada. Mas talvez, esteja mais maravilhado ainda com o som desse coração tão pequeno e fraco batendo novamente. Um par de olhos castanhos se abre lentamente, encontrando meu olhar mas sem demonstrar medo, talvez só um pouco de confusão. Ela não fala nada, nem eu espero que o faça. A Tenseiga pode tê-la feito reviver mas não curou os ferimentos mais profundos de sua alma. Aqueles que a impedem de falar. Acho que começo a compreender. Em meio a tantas imagens desconexas, encontrei algo na alma dessa menina que me fez lembrar do que é realmente importante. Talvez a Tenseiga quisesse me mostrar isso. Não importa. Algo nesse momento fez alguma diferença para mim. Trazer essa humana de volta a vida pode acabar mudando meu destino, afinal. Ainda não compreendo meu pai. Ainda me sinto nas sombras. Mas é hora de deixar tudo para trás. É hora de, assim como essa menina humana, abandonar todos os laços que me ferem e me impedem de seguir em frente. Os olhos castanhos piscam uma, duas vezes, ainda me encarando. Agora que ela pode ficar de pé, eu me levanto. Ela fica parada, o rosto redondo acompanhando meus movimentos quase em transe. Dou-lhe as costas, continuando a não dar a menor atenção a Jaken que parece estar à beira de um ataque nervoso. Será que perceberia o que acabou de acontecer aqui, se tivesse a capacidade pelo menos? Enquanto me afasto, ainda posso ouvir vividamente o som de seu coração. E ele parece acompanhar o som de meus passos como se de alguma maneira, nossos caminhos estivessem entrelaçados daqui por diante. Não fico nem
um pouco surpreso quando a sinto me acompanhando logo depois.
Depois de vários dias... esses caminhos já ficaram para trás. Agora quero trilhar novos caminhos. A menina humana continua me seguindo. Por isso diminuo meu passo, para que ela possa me acompanhar. A vida que a Tenseiga devolveu-lhe parece dar-lhe coragem para continuar em frente. Quando ela me alcançar, perguntarei seu nome. Não me ocorre qualquer idéia de fazer algo a respeito, embora Jaken esteja quase me deixando louco com tantas indagações do porque eu estar permitindo tal coisa. Mando-o ficar quieto, e mais uma vez paro por um tempo para que ela possa chegar mais perto. Para que ela possa encontrar
seu próprio ritmo mais uma vez.
Nunca tive dúvidas sobre meus atos em relação a ela. Simplesmente me parece o certo a fazer. Jaken parece já ter se acostumado à presença dela. Já se passaram vários meses, e ela já reaprendeu a falar. Seu nome é Rin. Um nome tão curto quanto sua vida devolvida pela minha espada. Ela agora me acompanha em minha jornada, às vezes andando ao meu lado, ou à nossa frente, outras, montada no lagarto que ela mesma batizou de Ah-Un. Durante o dia andamos e paramos quando é hora de comer, mas ela parece sentir muito mais fome do que eu, Jaken e Ah-Un juntos. A noite procuramos por abrigo, mas é raro que eu adormeça. Aprecio mais olhar para as estrelas nas longas horas da noite que passo acordado. Elas preenchem o céu inteiro como um véu. Muitas vezes ela fica acordada olhando também. Senta-se ao meu lado e as observa em silêncio contemplativo. Nesses momentos tenho
a incrível e perturbadora sensação de que apenas isto
poderia ser o suficiente para mim.
Às vezes custo a acreditar que uma menina humana se tornou minha responsabilidade. Não foram poucas vezes em que tive que livrá-la do perigo. Em outras, Jaken se mostrou totalmente ineficaz em protegê-la no meu lugar. Protegê-la... Penso no que já perdi. A luz que era minha por direito, a espada mais poderosa, e tão dolorosamente, um braço, cortado pelo dente de meu próprio pai que ainda vive dentro da Tessaiga. Tudo isso consegui superar ou pelo menos gosto de acreditar que sim. Porém, o pensamento de perdê-la... Sesshoumaru... você tem alguém que queira proteger? Chichi-uê... Sua
voz forte e grossa ainda ecoa em minha memória me fazendo a pergunta
que lutei tanto para esquecer. Mas o destino não deixou que essa
pergunta me deixasse em paz. Ela ainda tenta ter uma resposta de mim, a
todo custo.
Mais uma vez a noite
cai, e Jaken se afasta com Ah-Un para procurar um lugar que possa servir
de abrigo. Mas a noite está tão fresca que dificilmente me
enfiarei em alguma caverna quando posso sentir a brisa noturna tão
completamente por toda a madrugada... Mas Rin, ela certamente apreciará
dormir embaixo de um teto, algo a que não deve mais estar acostumada.
Incrível como essa menina humana foi capaz de cortar os laços
anteriores tão completamente e me seguir dessa forma. Mesmo agora,
quando poderia estar mais aquecida do ar frio da noite no abrigo que Jaken
encontrar... ela prefere ficar aqui, os pés descalços na
relva molhada de orvalho, a brisa dançando com seus cabelos e passando
por entre seu kimono amarelo, os braços abertos em uma estranha
felicidade, como se estivesse pronta para qualquer coisa que o destino
lhe reservar.
Mais uma noite perfeita.
O céu adornado com seu véu de estrelas brilhando tão
fortemente por toda a abóbada celeste. Assim como eu, Rin também
aprecia as estrelas em silêncio. Em dado momento eu flagro
seu rosto pequeno, sério, observador, centrado em mim. Os olhos
enormes, castanhos e tão brilhantes quanto as estrelas acima de
nós, estão fixos em meu rosto, e um sorriso satisfeito toma
seus lábios, antes que ela volte a olhar para o céu estrelado.
Eu faço o mesmo.
Eu continuo à procura daquela luz que irá me tirar das sombras, chichi-uê. Mas talvez... eu realmente
não precise mais procurar.
~Fim ~ |
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Songfic por Lalachan, março/2004 Música por "Do as Infinity" (trilha sonora de Inuyasha) Dedicada à minha amiga, Ana-chan, minha primeira songfic, e também minha primeira fic de “volta no tempo”. ^_^ Copyright Rumiko Takahashi/Yomiuri TV/Sunrise/Shounen Sunday Glossário: Chichi-uê: forma antiga e respeitosa de se dirigir ao pai, quer dizer algo mais ou menos como: "papai que está acima de mim" ^_^ Hanyou: meio-youkai -sama: sufixo após o nome que indica uma forma muito respeitosa de se dirigir à pessoa, geralmente com alguém de hierarquia superior, como por exemplo os senhores feudais, imperadores, príncipes, princesas, monges, sacerdotisas, etc. Youkai: criatura sobrenatural da mitologia japonesa, um tipo de espírito da natureza, que pode derivar de figuras de animais ou plantas. Voltar a Inuyasha Fanfics |