O Filho da Lua

Fanfic por Ana-chan & Lalachan

Capítulo 5: Irmãos


Estiveram lutando por um tempo interminável, mas finalmente o embate parecia estar chegando ao fim. Sesshoumaru pulou rapidamente para o lado para se esquivar das garras do youkai-gato e lançou uma dose de veneno em sua direção, que atingiu a pele de seu braço, já bastante machucado pelos ataques constantes. Mesmo assim o youkai felino não desistia e continuava atacando-o com determinação, mas o resultado era iminente. Mesmo ainda jovem demais para portar uma espada, o youkai-cachorro já se destacava em suas outras habilidades: rapidez, as garras que lançavam veneno e o furor misturado com uma frieza assustadora. O rosto alvo nunca se alterava, nem mesmo uma gota de suor era visível em sua pele enquanto ele se desviava dos ataques do outro youkai e revidava com seus próprios golpes, precisos e devastadores. 

Finalmente ele cometeu um erro mortal: seu corpo cansado pelo combate acirrado fraquejou e ele tropeçou, caindo de costas no chão. Imediatamente as garras de Sesshoumaru foram em direção ao seu pescoço, parando a centímetros da pele suada do youkai, que ainda arfava penosamente. No entanto os olhos puxados o encaravam sem medo, prontos para aceitar a derrota já definida. 

Sesshoumaru manteve-se na mesma posição por alguns instantes, esperando que o outro implorasse pela própria vida, mas isso não aconteceu. Não que fosse fazer alguma diferença. Enterrou as garras venenosas no youkai, retirando-as rapidamente depois. Sangue jorrou e a cabeça do youkai tombou, os olhos agora encarando o vazio. 

Pôs-se de pé, enojado. Realmente detestava o cheiro da morte dos fracos. Ia se afastar daquele lugar quando alguém se jogou sobre o corpo do youkai morto, atraindo sua atenção. Era uma fêmea. Chorava sentidamente, abraçando o youkai-gato como se assim pudesse evitar que fosse embora do mundo dos vivos. 

“Ani-uê!! Ani-uê...” gritava entre soluços desesperados. 

Ele olhou para os dois sem compreender por algum tempo. Ela estava inconsolável, e em dado momento lançou-lhe um olhar raivoso, mas logo voltou a soluçar em cima do cadáver do youkai. De repente um cheiro muito conhecido chegou-lhe às narinas, e uma mão firme apertou seu ombro. Não se virou. 

“Você o derrotou sem precisar de nenhuma espada, Sesshoumaru” disse Inutaishou, mas estranhamente sua voz não parecia recheada de orgulho como secretamente esperava. Teve vontade de perguntar quando poderia finalmente usar a Tessaiga, mas suprimiu essa vontade como sempre fazia. Sabia que um dia ela seria sua, então não havia necessidade de se apressar. Mas a ânsia de tê-la sempre o assaltava em momentos como esse. A mão ainda se encontrava em seu ombro em um contato realmente incomum, e ele sentiu-se um pouco desconcertado. Levantou o olhar para o pai. Ele fitava os irmãos diante deles, o youkai-gato morto por Sesshoumaru e sua irmã mais nova que continuava chorando, chamando pelo irmão entre incontáveis soluços. 

“Esta não era uma disputa séria. Não havia necessidade de tirar a vida dele.” 

O jovem youkai piscou sem entender. O que o pai estava dizendo? Era quase como se ele estivesse incomodado com a morte daquele youkai tão inferior. Um youkai tão poderoso quanto Inutaishou não deveria sequer tomar conhecimento da existência deles. 

“Era apenas um fraco. Fiz-lhe um grande favor tirando-lhe a vida. Assim não precisa conviver com sua vergonha pela derrota.” anunciou com convicção, a voz carregada de desprezo explicito. 

Os soluços se intensificaram. Inutaishou deu um passo à frente, levando a mão à própria cintura. Sesshoumaru assentiu com a cabeça em aprovação. Também já estava farto de ouvir aquela choradeira inútil. Mas não foi a Tessaiga que saiu da bainha. Seu pai empunhava a outra espada, da qual nunca se importara em guardar o nome, nem de saber o que realmente fazia. Nunca o vira usá-la antes. Observou com atenção. Se ele iria usá-la para matar a youkai-gato, que assim poderia seguir o irmão morto na outra vida, essa era uma boa oportunidade para aprender... mesmo que seu interesse primordial fosse mesmo a Tessaiga. 

“Afaste-se” ele pediu à menina em tom gentil. Ela olhou para cima com a expressão confusa, mas obedeceu. 

A partir de então é que a situação começou a ficar incompreensível. Seu pai mandara a menina sair da frente. Não tinha a intenção de matá-la portanto. O olhar do daiyoukai se centrava no corpo do youkai-gato, enquanto permanecia imóvel com a espada misteriosa que nunca usava em punho, pairando sobre ele como que esperando por algo. Em dado momento ela finalmente se moveu para a frente, em três golpes rápidos que acertaram apenas o ar nunca atingindo seu provável objetivo, o youkai-gato. 

Não estava compreendendo nada. Seu pai acabara de atacar o que? Quem? E para que? Lançou-lhe um olhar interrogativo, mas ele já guardara a espada na bainha, e olhando para o corpo do youkai, parecia aguardar. Ainda disfarçando a própria confusão na medida do possível, Sesshoumaru aguardou também. 

Uma exclamação de surpresa escapou da youkai-gato quando o corpo de seu irmão se moveu levemente. Os olhos amarelos se abriram lentamente e se focaram na menina, que explodiu em novas lágrimas, agora de alegria. Ela abraçou o irmão, que tentava agora se levantar. As manchas de sangue ainda sujavam sua roupa e o chão, mas não havia mais sinal dos ferimentos provocados pelas garras de Sesshoumaru em seu pescoço. 

Seu adversário derrotado voltara à vida graças à espada de seu pai. Finalmente virou-se para ele, apenas para descobrir que já desaparecera na floresta. Lançou um último olhar para os irmãos abraçados antes de seguir atrás do pai. 

Alcançou-o, andando ao seu lado pela trilha. Sem olhar para ele, arriscou. 

“Por que, chichi-uê? Não entendo. Por que trazê-lo de volta?” 

Seu pai não respondeu, parando de andar de repente e voltando-se para ele, a expressão muito séria como dificilmente já vira antes. Sem que pudesse evitar seu olhar foi atraído para sua cintura com as duas espadas. Agora sabia o que a outra espada era capaz de fazer, lhe parecia tão inútil quanto as lágrimas que a youkai-gato derramara em cima do irmão morto. Uma espada que trazia mortos de volta à vida? Não lhe admira que nunca tivesse presenciado o pai usando-a antes. Espadas eram feitas para matar, lutar, vencer. Uma espada que ressuscita era totalmente incompreensível para ele. 

“Sesshoumaru, esta espada se chama Tenseiga, e também foi feita de um canino meu, assim como a Tessaiga. Elas são como irmãs gêmeas, embora tenham utilidades contrárias. Enquanto uma é capaz de tirar a vida de cem youkais... a outra é capaz de trazer esses mesmos cem youkais de volta à vida.” 

“Uma espada que não mata?” não pôde evitar de perguntar, ainda incrédulo. 

“Tanto para usar uma quanto a outra, é preciso discernimento e maturidade. Você deve estar se perguntando porque devolvi a vida àquele youkai-gato que você matou. A resposta é bem simples: Porque eu podia.” 

Inutaishou virou-se para a frente, recomeçando a andar pela trilha, a pele dupla atrás de si oscilando enquanto acompanhava seu movimento. Sesshoumaru acompanhou-o, lembrando que ainda não possuía uma pele de cão que o protegesse ainda. Assim como ainda não possuía uma espada com a qual lutar. Será que o pai queria lhe dizer com isso que ele ainda não tinha maturidade suficiente para portar uma espada como a Tessaiga... ou qualquer espada? 

“Aquele youkai era mais fraco do que você, por isso perdeu a luta. Mas não precisava morrer. As vezes, é preciso ter compaixão pelos mais fracos. Foi por isso que a Tenseiga foi forjada: para contrabalançar a destruição causada pela Tessaiga. Ela é uma espada que ressuscita e cura os fracos.” 

Não entendia porque o pai discorria sobre uma espada que jamais despertaria seu interesse. O que faria com objeto tão inútil? Não queria ouvir nada daquilo, mas seu sentido de hierarquia o obrigava a não interromper. Preferia mil vezes que o pai lhe explicasse sobre o poder da Tessaiga. De preferência que o deixasse empunhá-la de novo, nem que fosse por uns breves momentos. Mas estranhamente, quanto mais força e poder conseguia e quanto mais velho ficava, mais longe se sentia do momento em que finalmente ela seria sua. 

Seu pai parou de andar quando chegaram ao topo de uma colina. Parou ao lado dele, sentindo a brisa do final de tarde atingir seu rosto, agitando seus cabelos cinza-azulados na altura do ombro. À frente deles, o imenso céu tocado por tons púrpura do pôr-do-sol estendia-se até onde a vista alcançava. 

Ele era muito jovem e muito forte. Ainda não possuía uma pele de cão grossa como a do pai nem uma espada para empunhar, mas naquele momento, isso não pareceu mais tão importante assim. Havia momentos como aquele em que apenas poder estar lado a lado com seu pai em silêncio era mais do que o suficiente. 

“Compaixão, Sesshoumaru” disse seu pai, encarando-o com a expressão serena, o longo rabo de cavalo balançando ao sabor da brisa atrás de si despreocupadamente, um quase sorriso se formando sem seus lábios. “Essa é uma palavra que você ainda não compreende. Mas a compaixão é uma boa coisa, e tão necessária quanto a força para empunhar uma espada. Um dia, você vai entender isso.” 

Ele apenas assentiu em silêncio, voltando o olhar inexpressivo de sempre para o campo infinito diante deles. Tudo bem  se esse dia jamais chegasse, se isso significasse ficar do lado do pai assim, para sempre... 
  
  
  

  

Custou a acordar do sonho, como se sua consciência estivesse se agarrando às memórias para que não tivesse que enfrentar o presente. Realmente patético. 

Há muito perdera o sentido de tempo, mas de uma coisa tinha perfeita consciência: Já chegara a hora de sair daquele lugar. Não poderia evitar para sempre que sua vergonha e desonra fossem expostas à luz do dia... Como se ficar tanto tempo escondido naquela caverna pudesse fazer com que elas desaparecessem. Não era tão fácil assim. 

Levantou-se pesadamente, odiando a sensação de desconforto que se instalara em todo seu corpo graças à posição rígida a que ele mesmo se sujeitara. Leves rastros de luz invadiam sem cerimônia o cômodo apertado, grãos de poeira intrusos dançavam neles como se ignorassem totalmente que ali era um lugar de escuridão. Sua escuridão particular. 

Queria que a raiva voltasse. Sabia lidar bem melhor com ela do que todo aqueles sentimentos incompreensíveis apertando seu peito. Nem sabia se poderia nomeá-los, ou se queria. Tudo se tornara uma confusão tão grande em sua cabeça que só agora, depois de incontáveis dias enfiado ali, algo começava a se desanuviar e ele se permitia começar a pensar com calma em tudo que descobrira. Não que quisesse realmente pensar. 

Colocando tudo nos termos mais simples, descobrira que passara a vida inteira acreditando em uma falsidade. Tudo que era, tudo em que se sustentava não existia mais. Perdera o senso de identidade. E não tinha a menor inclinação para buscá-lo de novo. Pelo que lhe constasse, poderia ficar sem nenhum. Não havia mais chão por onde andar, pois ele fora arrancado de sob seus pés. E o pior é que ainda se sentia caindo no nada. Nada... Realmente uma palavra perfeita  para o que ele se tornara. 

Sua vida era uma vida roubada, quase profana. Era impensável que estivesse vivo, que tivesse sido tão piedosamente poupado. Como uma piada em forma de youkai, para ser contada mil anos depois com os devidos requintes de ironia. Uma aberração ambulante vestida com a melhor armadura e as roupas mais elegantes. Um disfarce mal feito que só servira para enganar a ele mesmo. 

Conseguir sentir pena de si mesmo seria uma benção. Mas nem isso ele conseguia. Não fora por isso que se enfiara naquele lugar tanto tempo. Não era nem mesmo digno de pena. Não que lhe importasse que tudo aquilo permanecesse em segredo ou não. Qual era a diferença? Ele era um filho da dúvida, o sopro de uma vela mantida acesa apenas para iluminar sua vergonha enquanto vivesse. 

Ainda assim, fora lançada luz em várias questões que antes pareciam inexplicáveis. As diferenças de caráter entre ele e aquele que se dizia seu pai... As diferenças físicas entre eles, tão gritantes, mas para as quais ele sempre soubera ser devidamente cego para que aquilo lhe incomodasse realmente. Em contrapartida, as semelhanças entre Inutaishou e Inuyasha, como era de se esperar. Nenhuma dúvida jamais poderia ter pairado ali, apesar do sangue humano correndo em suas veias. Um sangue misturado que sempre considerara imundo, mas que agora provara ser mais puro do que o seu... 

Agora sabia porque fora tão fácil para o pai deixá-lo de lado em favor de coisas mais importantes. Fora para isso que ele fora poupado... para fazer as vezes de filho enquanto a verdadeira cria do Inutaishou não aparecia. Apenas esquentar o berço até que o real herdeiro de sangue viesse reclamar seu lugar de direito. 

A distribuição das espadas. Agora tudo fazia perfeito sentido. Para o verdadeiro filho, a melhor espada, a espada para lutar e destruir, a toda poderosa Tessaiga. E para o outro, a cria da piedade... a Tenseiga, uma espada que não matava, só curava, só ressucitava. Deveria ele se considerar privilegiado por ter portado a Tenseiga por tanto tempo antes de saber da verdade? Deveria sentir-se grato por tê-la usado e considerado-a sua mesmo que nunca a houvesse desejado para si em princípio? Mas só o orgulho de portar uma espada com o canino de seu “pai”... Como fora realmente tolo. 

E para completar, o estranho sinal em sua testa, que sempre estivera ali como um sinal para si mesmo. A marca da desgraça de seu nascimento. Indelével, tão permanente quanto sua condição de bastardo. Usara tantas vezes aquela palavra para ofender Inuyasha, quando na verdade nunca tivera o mínimo direito de fazê-lo. 

Sempre soubera que havia algo errado. Sempre se sentira como se estivesse faltando alguma coisa... Como um sonho angustiante do qual você acorda antes que sua conclusão importante venha à tona. Tantas vezes se iludira direcionando essa frustração para o meio-irmão, como se ele fosse a causa de todos os seus dissabores, ignorando totalmente o fato de que este vazio estranho sempre o acompanhara muito tempo antes do seu pai sequer sonhar em se envolver com uma humana. 

Imediatamente a face triste de Rin invadiu sua mente e ele fechou os olhos com força, expulsando-a com determinação antes que não conseguisse mais fazê-lo. 

Apoiou-se nas paredes úmidas de pedra da caverna, enquanto se aproximava cada vez mais da claridade da saída. Só havia uma coisa a fazer agora, talvez a última que ainda fizesse algum sentido. Precisava ter certeza. Pois se o beneficio da dúvida ainda pairava sobre sua cabeça até hoje, só poderia se livrar dele transformando a dúvida em fato consumado. 

A luz do sol da manhã tocou sua pele quase com cuidado, como se receasse feri-lo mais do que ele já o fora. Respirou fundo, apreciando por um momento a sensação de liberdade que sair daquela caverna horrível lhe proporcionava. Mas isso não durou muito, pois o peso continuava lá, arrastando-o para baixo. O peso de sua vergonha. Nunca o deixaria enquanto vivesse. 

Deu alguns passos, podendo aprumar-se em uma posição mais altiva agora que saíra totalmente da caverna. Sabia muito bem que direção tomar. Só restava dar o primeiro passo. 

Ele o deu, mas foi somente um antes de estancar no lugar. Alguém o esperava no meio da trilha que levava da caverna até a floresta. A última pessoa que poderia desejar encontrar neste momento. 

- Sesshoumaru – disse o youkai de traje vermelho, parado com os braços cruzados escondidos nas mangas bufantes – Já estava cansado de esperar você sair dessa caverna. 

A figura parada na saída da caverna não se moveu, como se tivesse se tornado uma estátua viva apenas pelo som da voz de Inuyasha. O meio-youkai estudou-lhe rapidamente o rosto, não encontrando ali nenhuma mudança significativa, mas o que ele esperava afinal? Que lhe constasse ele parecia o mesmo. A face talvez um pouco mais pálida que o normal por ter estado sabe-se lá quanto tempo enfiado naquela caverna... mas isso era tudo. Como ver alguma coisa ali? Era como um livro fechado cuja chave jamais estaria ao seu alcance. Mas ele não se importava. Fora até ali e trataria de ir até o fim em seu intento. 

Em dado momento o olhar dele se desviou para a parte de baixo do seu corpo. Sabia que estava olhando para as duas espadas agora juntas em sua cintura. Quase sem sentir levou a mão ao cabo da Tenseiga, como se estivesse prestes a desembainhá-la, e deixou-a lá, não desviando o olhar da face de gelo do irmão. Nada. Logo se apercebeu do que estava fazendo e retirou a mão, voltando a aninhar os braços cruzados nas mangas largas de seu traje vermelho. Que diabos estava fazendo afinal? Suspirou, e resolveu começar logo. Não iria se tornar mais fácil se ficasse demorando sem necessidade. 

- Rin está com Kagome e os outros no vilarejo, e está segura. 

- Veio aqui só para me dizer isso? Ou por acaso está preocupado com seu meio-irmão? –  foi a réplica cheia de ironia, embora os olhos dourados olhassem para lugar nenhum, a expressão do rosto inalterável como sempre. Inuyasha franziu a testa contrariado. Odiava aquilo. Incrível como ele continuava mantendo a pose superior, como se o mundo ainda lhe pertencesse e nada pudesse mudar isso. Mas o vazio dos olhos o denunciava mais do que ele poderia desejar. 

- Bah... é claro que não!  – respondeu, um pouco azedo  – Eu tenho algumas coisas a lhe dizer. 

- Saia do meu caminho, Inuyasha. Tenho mais o que fazer do que ouvir suas idiotices. – O youkai mais alto deu um passo, depois outro. 

- Sei que tem. Vai até o filho da lua lacrado na montanha, não é? Para saber se tudo o que lhe contaram é mesmo verdade. 

Os sapatos pretos pararam de andar novamente. Inuyasha pensou ter visto um vislumbre inicial de ódio brilhar nas íris douradas mas se houve mesmo, foi muito rápido. 

- Qual o problema, Sesshoumaru? Surpreso? Sim, eu também já sei de tudo. 

Uma pausa enquanto Inuyasha aguardava que Sesshoumaru partisse para cima dele ou algo parecido, já que em tantas vezes no passado muito menos do que acabara de falar seria mais do que o suficiente para acender uma briga entre os dois. Mas nada disso aconteceu. Ele permaneceu parado no mesmo lugar, apenas encarando-o. 

- Já disse para sair do meu caminho. – o tom de voz agora era muito baixo, a voz grave igualmente inexpressiva assim como seu rosto, mas com o devido tom de autoridade tão familiar em suas atitudes. Inuyasha levantou o rosto desafiadoramente, sem se importar a mínima em parecer provocativo. Não havia outro jeito mesmo com ele... 

- E se eu não sair? O que você vai fazer? 

Silêncio. Uma lufada de vento balançou as roupas dos dois, fazendo os cabelos de ambos dançarem ao sabor da mesma brisa. 

- Foi o que pensei. Agora vai me escutar até o fim, Sesshoumaru. Depois pode fazer o que bem entender, não me interessa. Mas agora você vai descer desse pedestal de arrogância que construiu para si mesmo e escutar tudo o que eu tenho a dizer. 

- Quem você pensa que é para falar assim comigo, meio-youkai inferior? – Ele levantara a voz um pouco, e uma ponta de desprezo era notável no tom irritado. - Estou avisando pela última vez. Saia do meu caminho ou vai se arrepender... 

- Me arrepender de ter nascido? Era isso o que ia dizer? 

Novamente as palavras autoritárias cessaram como se tivessem se esgotado diante um novo dedo na ferida ainda latejante. Inuyasha sabia muito bem aonde cutucá-lo, mas precisava se controlar para não ir longe demais ou poria tudo a perder. 

- Escute bem, Sesshoumaru. Se não quiser me ouvir, é melhor lutar comigo. Essa vai ser a única maneira de calar minha boca. Se quiser lutar o momento é este. Saque sua espada e me enfrente, e não terá que ouvir mais nada. Caso contrário... vai ter que ouvir tudo o que vou dizer. 

A resposta estava bem clara nos olhos imperturbáveis. Inuyasha sabia que não lutariam. De certa forma, era quase como se Sesshoumaru também sentisse necessidade de ouvir o que ele tinha a dizer, tanto quanto ele tinha necessidade de falar. 

- Não estou aqui para jogar nada na sua cara, embora essa fosse a oportunidade perfeita para mim. Não nego que isso me passou pela cabeça. Mas não vim aqui pra isso. 

Inuyasha fez uma pequena pausa na qual observou a expressão do outro youkai, que se tornara impenetrável. Ele parecia ter chegado a algum acordo consigo mesmo que consistia em deixá-lo falar e ignorá-lo na medida do possível. Já estava de bom tamanho, em se tratando de alguém como Sesshoumaru. 

- Se você precisa de um motivo, lhe dou um: a menina. – À menção de Rin, os olhos dourados se estreitaram levemente, mas isso foi tudo. - Considere que é mais por causa dela que estou aqui. Não teria nenhum outro motivo de qualquer forma. Nós nunca tivemos um bom relacionamento. Bah, nós nunca tivemos um relacionamento para começar. Eu não dou a mínima para o que acontece com você, desde que fique bem longe. Mas infelizmente acabei envolvido nisso por causa da Rin, e da Tenseiga, que agora está comigo, como você já pôde ver muito bem. Agora, estou com as duas espadas de nosso pai... 

- Seu pai. – corrigiu Sesshoumaru com a voz muito baixa. 

- ... estou com as duas espadas de nosso pai – Inuyasha teimou, sem se importar com a interrupção – mas mesmo que elas pareçam perfeitas juntas, mesmo que a sensação das duas em minha cintura seja muito boa... eu sei que isto não está certo. 

Inuyasha parou de falar, digerindo ele também o que acabara de dizer. Só agora se dava conta disso. Na verdade, a Tenseiga vibrara quando se aproximara do lugar onde Sesshoumaru estivera escondido. Era como se a espada tivesse vontade própria. Queria voltar para o seu dono, independente da vontade deste. 

- Nada disso está certo... A começar pela sua atitude. Esta sendo egoísta e covarde. Egoísta eu sempre achei que fosse, mas... covarde? Até eu tenho que reconhecer que este não é seu feitio. Esconder-se em uma caverna qualquer e deixar tudo o que é importante para trás só porque descobriu que seu pai não é quem você pensava ser? Bah, francamente, Sesshoumaru! 

Nenhuma reação. Não sentia nem mesmo a energia dele agora. Só apatia o cercava. 

- Não me entenda mal. Por mim você pode fazer o que quiser da sua vida, não tenho nada a ver com isso. Também não tenho o menor interesse nessa estória toda. Antes eu não te suportava. Agora que fiquei sabendo disso tudo, continuo não te suportando do mesmo jeito. E pela sua cara, a recíproca é verdadeira. 

Não que a cara dele jamais mude, pensou Inuyasha. 

- Mas eu me importo com a menina. Diabos se sei porque ela gosta tanto de você, mas ela está realmente sofrendo. Se dependesse de mim, ela ficaria vivendo na vila conosco, o que seria muito melhor para ela. Mas quando a vejo chorar daquele jeito... – Inuyasha observava a face do meio-irmão cuidadosamente atrás de algum indício de que ele estava sendo minimamente afetado pela descrição do estado de Rin, mas nada encontrou -... quando a vejo assim tenho vontade de esganar você até entrar algum juízo nessa sua cabeça oca! 

Começou a enervar-se um pouco. Conteve o impulso de pular em cima dele e sacudi-lo de sua apatia ate que ele revidasse, o xingasse, o ofendesse... qualquer coisa era melhor do que essa expressão vazia, esses olhos enevoados que fitavam o nada... será que estava ao menos ouvindo? 

- Bah, olhe só para você! Está tão cego por sua vaidade ferida que não enxerga que na verdade, deveria sentir orgulho. Você conviveu com o nosso pai, aprendeu coisas com ele, teve a chance que eu nunca tive, como você mesmo já jogou na minha cara várias vezes. Nosso pai escolheu você para sua família. Independente de qualquer laço de sangue ou circunstâncias que tenham cercado seu nascimento, ele o escolheu como filho. Isso deveria ser mais importante do que todo o resto para você!  Mas não é! Ao invés você fica aí, cheio de vergonha e raiva do seu “passado negro”. Abandona a espada que nosso pai deixou para você como se ela não fosse nada. Abandona as pessoas que te escolheram como família, fazendo-as sofrerem sem necessidade. Há, que ridículo! 

Os olhos dourados se fecharam como um silencioso protesto, mas o restante de seu corpo permaneceu imóvel. 

- Acha que nosso pai não deveria ter poupado sua vida? O escolhido como filho? Acha-se um fraco porque a compaixão de alguém caiu sobre você? Bah, como se você não soubesse o que é compaixão. O verdadeiro dono da Tenseiga compreende o que é compaixão. Mais do que isso, consegue senti-la. Ou ela seria uma espada inútil e nunca poderia ser usada. 

Sesshoumaru abriu os olhos suavemente, e por um breve instante, esses mesmos olhos o enganaram. Seu pai estava olhando para ele. 

A compaixão é uma boa coisa, Sesshoumaru. Um dia, você vai entender isso

Piscou rapidamente, e quando olhou novamente, a ilusão se desfizera. Inuyasha estava parado na trilha, ainda na mesma posição. 

- Agora eu lhe pergunto – continuou Inuyasha sem dar mostrar de ter percebido algo – Quem é o seu verdadeiro pai? Até quando vai continuar fugindo de quem você realmente é? 

As perguntas continuaram suspensas no ar sem resposta. Não havia absolutamente mudança alguma na expressão de Sesshoumaru. Inuyasha suspirou, contrariado. Na verdade, era muito difícil sequer tentar compreender ou imaginar o que poderia estar se passando dentro dele. Só agora se dava conta do quão pouco o conhecia. Ao mesmo tempo, havia algo os ligando mais fortemente do que qualquer laço de sangue. Só poderia esperar que tudo o que vinha dizendo não fosse simplesmente levado pelo vento sem ser ao menos encontrar algum propósito que não fosse fazê-lo pensar que viera realmente ali para tripudiá-lo ou conseguir alguma vingança. 

- Sabe de uma coisa, Sesshoumaru... – comentou, desviando o olhar para outro lado – é engraçado pensar que eu talvez nem tenha o direito de vir até aqui lhe falar essas coisas... pois houve um tempo em que tudo o que eu queria era ser como você. Tudo o que mais importava para mim era poder me tornar um youkai completo, alguém realmente forte, nem que para isso tivesse que fazer uso de artifícios como a Jóia de Quatro Almas. Nada mais me passava pela cabeça além disso: Não ser mais quem eu era

Voltou o olhar para ele apenas para conferir alguma possível reação, que não houve. Nem podia acreditar que acabara de elogiá-lo. Talvez elogios e ofensas tivessem o mesmo efeito sobre ele: nenhum. 

- Há muito tempo não me importo mais com isso. Aprendi a ser forte sendo o que sou. E fui aceito pelas pessoas que são importantes para mim sendo o que sou. Não estou mais sozinho. Isso é tudo o que me importa agora. 

Estava surpreso consigo mesmo que fosse capaz de admitir aquilo ao outro, mesmo que acabasse não mudando nada. 

- Enfim... agora você faça o que quiser. Considere tudo isso como bobagens sem sentido faladas por um meio-youkai sem a menor ligação com você, se assim quiser. Não tô nem aí. Não vim aqui te impedir de coisa alguma. Vou sair do seu caminho como você tanto deseja, finalmente. – Inuyasha levou a mão à cintura, repousando-a sobre os cabos das espadas -  Mas não vou te devolver a Tenseiga, ela vai continuar na minha cintura fazendo companhia à Tessaiga, até o dia em que seu verdadeiro dono volte para tirá-la de mim. Então, lutaremos. Se me vencer, volta a ficar com ela, como era da vontade de nosso pai que assim fosse. 

Inuyasha virou-se, pronto para deixar aquele lugar, ficando de costas para Sesshoumaru. Ainda voltou a cabeça por cima do ombro e lançou-lhe um último olhar. 

- Até lá... você vai pensar em quem é o verdadeiro dono da Tenseiga. E também qual é a sua verdadeira família. Aquela que escolheu você... e aquela que você escolheu para si próprio. 

Sesshoumaru continuou com o olhar fixo na trilha por um tempo, mesmo depois que Inuyasha desapareceu floresta a dentro. Fechou lentamente os olhos e apertou-os, sentindo a dor de cabeça que o atormentara nos primeiros dias na caverna voltando com toda a força. Por um momento terrível achou que fosse até desmaiar, mas logo foi capaz de abrir os olhos de novo. Estava tudo muito claro diante dele. A trilha continuava ali. Era só seguir por ela. Era sua escolha, e só sua. 

Recomeçou a andar como se nunca tivesse sido interrompido, com passos lentos e firmes, que não parariam ate alcançar seu objetivo, fosse ele qual fosse. 
  
  

  

  

Já se afastara o suficiente, quando resolveu dar uma parada. Não que estivesse cansado ou algo assim. Seu corpo pelo menos não. Mas só agora sentia na pele o efeito tardio da conversa com o meio-irmão. Fora difícil, mas também fora como tirar um grande peso de seu peito. Fizera sua parte, não havia mais nada que pudesse fazer agora, a não ser voltar. Antes, lançou um derradeiro olhar em direção às montanhas não muito distantes, antes de recomeçar a correr, os braços abertos, o vento cortante da manhã fazendo suas mangas balançarem soltas, livres, como ele próprio se sentia naquele momento. 

Sua família estaria esperando por ele. 
  
  
 

  
  

A subida era íngreme e difícil pois seguia por entre enormes rochas naquela montanha que dava a impressão de não ter mais fim. Sesshoumaru prosseguiu, sentindo a cabeça bem mais leve agora. Não demorou a avistar o topo da subida, mas continuou no mesmo ritmo. O que o aguardava ali já esperara por séculos, não tinha importância de esperar um pouco mais. Finalmente alcançou a saída daquela subida apertada entre rochas, e um terreno chapado entre pedras escurecidas abriu-se diante dele. Algumas árvores mirradas aqui e ali despontavam entre pedaços de terra, como se a vegetação lutasse para sobreviver em um terreno não muito propício às forças da natureza. Deu alguns passos em meio a grama mirrada que crescia ali, observando cada recanto entre as rochas à procura do que o levara até ali. Finalmente achou. 

Parou em frente ao youkai selado, preso entre duas imensas rochas por uma espada enfiada em seu peito. Trepadeiras o circundavam quase todo, se enrolando em suas pernas, braços e cintura, ajudando a prendê-lo naquele nicho que se tornara seu túmulo vivo. O rosto sereno parecia apenas dormir, alheio ao tempo que já passara por ele e o que ainda o aguardava. O youkai possuía cabelos cinza-azulados muito lisos que desciam até um pouco abaixo dos ombros, e a lua minguante na testa era visível mesmo que parecesse um pouco clara demais. A pele era tão pálida quanto a sua, e partes de uma armadura de estilo mais antigo despontavam por entre as folhagens. Nem mesmo a proteção da armadura o protegera do golpe de Inutaishou certeiro em seu peito. Ele visara apenas seu coração de youkai e nada mais. Um último golpe de misericórdia... ou de desprezo, a ponto de não poder conceder-lhe a honra de morrer sob o fio de uma espada, ainda que fosse a sua própria? 

O vento parecia uivar naquele recanto alto e afastado do mundo, passava por entre as rochas seculares e parecia sussurrar em seu ouvido palavras trazidas de muito longe. 

Quem é o seu verdadeiro pai? 

Continuava olhando fixamente para o rosto adormecido do youkai, um esquecido refém do passado, sem esperança de ser jamais despertado de seu eterno sonho de morte. 

Até quando vai continuar fugindo de quem você realmente é? 

- Não estou fugindo de coisa alguma. – murmurou para ninguém, e antes que se desse conta sua mão se dirigira ao cabo da espada enfiada no peito do youkai selado. E lá ficou por um tempo que lhe pareceu muito longo, enquanto o vento teimava em assoviar sua canção insistente por entre as rochas silenciosas. 
 
 
 
 
 
 
 

 


Capítulo 6 (capítulo final, em breve)

Fanfic por Ana-chan & Lalachan
Copyright Rumiko Takahashi/Yomiuri TV/Sunrise/Shounen Sunday
Glossário:

Ani-uê: Irmão mais velho, forma de japonês antigo
Chichi-uê: forma antiga e respeitosa de se dirigir ao pai, quer dizer algo mais ou menos como: "papai que está acima de mim" ^_^ 
Daiyoukai: como são chamados os youkais mais poderosos
Youkai: criatura sobrenatural da mitologia japonesa, um tipo de espírito da natureza, que pode derivar de figuras de animais ou plantas.
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