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Fanfic por Ana-chan & Lalachan
Capítulo 4: Filho Seus passos firmes se arrastavam. A floresta havia se tornando uma trilha infinita, por onde se obrigava a caminhar, sob o olhar pesado da noite. Trovejava, como há muito não presenciava. O mau presságio estava em toda parte e havia se tornado o seu agente. Um carrasco que entre uma execução e outra dá uma volta para desanuviar. No entanto, sabia que o pior ainda estava por vir. Parou junto a uma fonte. A clareira permitia que a claridade o encontrasse. Desviou o olhar. Tudo que não desejava naquele momento era erguer os olhos e deparar-se com uma enorme lua brilhante. Algo lhe dizia que jamais voltaria a olhar para o céu em noites claras. A água morna lavou o sangue de seus dedos. Não havia desembainhado a espada naquela noite. Não fora necessário, e mesmo que tivesse sido, só o faria em último caso. Não sujaria a Tessaiga para limpar-se de sua vergonha, não a katana feita de seu próprio canino, a que deixaria para sua descendência. Aquele traste fizera questão de matar com as mãos vazias. No fim, acabara selando-o com a espada forjada de dente de dragão, inutilmente empunhada contra aquele que se sabia ser o mais forte dos youkais. Justiça. Vingança. Não importava mais. Devia estar se sentindo despido daquela incumbência ao menos. Agora via que não seria tão fácil assim. Seguiu seu caminho em passos cada vez mais pesados. Já podia avistar a montanha na qual a caverna para onde se dirigia se situava. Odiava cavernas. Nada mais apropriado. Escureceu subitamente, o que sugeria que o céu estaria sendo encoberto por nuvens. Os trovões faziam sentido afinal. Quando os primeiros pingos, grossos como seiva de árvore, explodiram contra o metal de suas ombreiras, alcançou a entrada do último lugar onde gostaria de estar. Não lhe restava muito a fazer agora, além de pôr um fim naquele pesadelo. Esperava encontrar mais movimento ali. Estranho que ela estivesse sozinha naquele momento. Seu olfato não estava errado. Só havia uma pessoa no interior daquele cômodo de pedra. Um véu de tecido indicava o aposento de Arina-hime, sua esposa. Um triste claustro, iluminado por velas, sem cobertas ou qualquer outro utensílio que proporcionasse o mínimo de conforto. Ela estava deitada sobre o chão frio, recostada em sua espessa pele de cão, como as que trazia presa à armadura. Ao contrário da sua, exposta ao tempo e à natureza, a dela era tão branca como sua pele e suave ao toque como seus cabelos. Devia se amaldiçoar por ainda ser capaz de admirar a beleza daquela criatura. “Está feito” disse, ainda de pé, sem olhar em sua direção. Os olhos dela se abriram. Podia jurar ter visto uma lágrima escapar daqueles doces olhos dourados, agora tão mortificados que pareciam privados de seu brilho natural. Ela ergueu o corpo pesado pela gravidez adiantada, e se sentou sobre os pés. Inclinou-se, até que seus cabelos cobrissem-lhe o rosto. “Senhor... eu imploro. Não terá que esperar muito tempo mais.” Havia um grande esforço em suas palavras, e não apenas físico. Era como se ela tivesse concentrado cada gota de sua energia na esperança de que a cria em seu ventre pudesse libertar seu espírito, agora encarcerado em um corpo disforme e agonizante. Operar sua redenção e, talvez, ser aceita por seu algoz, ainda que sob o benefício de uma dúvida que pairaria para sempre. Ergueu o rosto devagar, encarando o youkai a sua frente por trás de olhos marejados, parcialmente encobertos pelas mechas de cabelo tão claro quando sua pele. “Me odeie quanto quiser...” As mãos tremiam levemente, embora ela não gesticulasse. “Este pode não ser o filho do meu crime... ainda que nesse caso eu não seja merecedora de gerá-lo.” O Inutaishou limitou-se a virar-lhe as costas, e deixar aquele quarto sufocante. Acabaria a matando por piedade de sua miséria em lugar de sua honra ultrajada. Foi até a entrada da caverna e sentou-se em uma rocha, fitando a tempestade que naquele momento desabava com toda a intensidade. Não demorou para que os gemidos vindos do quarto alcançassem sua audição apurada. Gemidos que não tardaram em se tornar gritos de agonia. Ela não providenciara a devida assistência. Preferira parir como um animal do que correr o menor risco de expor sua conturbada gestação à curiosidade alheia. Silêncio se seguiu algum tempo depois. Também a chuva diminuíra seu peso, tornando-se pouco mais do que um chuvisco ritmado, até agradável aos ouvidos. O Inutaishou apenas esperou até que o cheiro da morte se tornasse evidente. Primeiro desejou que esta tivesse carregado ambos, mãe e filho, poupando-lhe um trabalho indesejado. No entanto, a imagem daquele rosto tão belo, pouco a pouco destruído pela dor e pelo remorso assombrava sua consciência, cada vez menos inclinada a compactuar com rituais ultrapassados de lavagem de ego. Sua esposa havia amado outro youkai desde muito antes de conhecê-la e no fundo sabia que seu maior erro tinha sido não lhe contar tudo desde o dia em que se viram pela primeira vez. Provavelmente a teria deixado para Kiba, sem maiores conseqüências. Sua fama de complacente já era suficientemente difundida para que se importasse com algo desse tipo. Só que agora estava atado àquela prisão grotesca que vinha se arrastando por quase um ano. E não podia negar... ainda que desprezasse certas tradições, havia essa dor que esmagava seu peito; que o acordava sempre que tentava dormir; que alterava o gosto de tudo a ponto de mal conseguir comer. Essa dor que clamava por retribuição. Que prometia não o deixar em paz enquanto seus causadores vivessem. Levantou-se e caminhou até o quarto. Não restara dúvidas quando ao silêncio e a morte que seus sentidos haviam captado. Recém nascidos são barulhentos, pequenos, dependentes... Melhor para aquele ter seguido sem maiores delongas o destino de sua infeliz progenitora. Afastou o véu preso à entrada. O cadáver de sua esposa estava na mesma posição anterior. Olhos semi abertos, sem expressão, exaurida pelo esforço brutal de dar a luz em meio à escuridão de uma caverna isolada, cercada por nada além dos espectros fantasmagóricos de sua culpa e sonhos despedaçados. Tanto sofrimento por nada. Ajoelhou-se ao lado dela. Fechou-lhe os olhos, como quem fecha o mais triste dos livros. Talvez o pesadelo tivesse chegado ao fim. Não se sentia melhor, no entanto. Era apenas uma menina fraca e tola... Que mal havia feito para merecer tamanho martírio? Havia uma trouxa ensangüentada em seus braços. O cadáver do filho, presumiu. Estava bem embalado. A pobre ainda vivera para agasalhar a cria morta. Levou uma das mãos ao próprio rosto, como se o gesto pudesse afastar a reconstituição mental dos últimos momentos de vida daqueles youkais. Os deixaria naquela posição, intocados e assumiria a hipocrisia de providenciar-lhes uma sepultura digna, mesmo sabendo que isso faria melhor à farsa do que aos mortos. Já ia se levantar quando um movimento sutil chamou sua atenção. Antes mesmo de aguardar uma possível repetição, afastou o tecido que envolvia o corpo do recém-nascido. Estava vivo, seu pequeno corpo emanava a pontinha de calor que antes atribuíra à um sopro de vida há pouco esvaecido. Talvez estivesse morrendo. Não sobreviveria de qualquer jeito. Jamais conseguiria que vingasse. Era um filho da lua, como seu mais que provável pai. Ostentaria aquele sinal da traição enquanto vivesse. Tirou-o dos braços imóveis com apenas uma das mãos. Tão pequeno, dependente... mas decerto nem um pouco barulhento. Parecia saudável, não cheirava a nada além do sangue de sua falecida mãe. Dormia alheio à morte que o cercava, tanto a consumada quanto a eminente. Ainda que não pairasse dúvida... ainda que nada tivesse acontecido do modo como aconteceu, de nada adiantaria permitir que vivesse. Filhotes sem mãe morrem. Aquele não seria exceção. Uniu as pontas do tecido, como uma pequena trouxa. Andar carregando aquilo não era diferente de carregar um saco qualquer. Nem mesmo o contato com o frio e a umidade fez com que algum som emanasse de seu interior. Ao menos isso poderia fazer por ele, apresentá-lo ao exterior daquela caverna deprimente, oferecer-lhe a morte ao ar livre, como bem convém a um youkai. Subiu até certo ponto da montanha, com sua pequena carga até que encontrou um lugar que lhe pareceu interessante. Depositou-o sobre uma pedra lisa. As pontas do tecido se abriram, revelando o corpinho bem formado de menino, que logo se acomodou em posição fetal, mãozinhas sob o rosto e pequenos tremores provocados pelas gotas geladas de chuva, talvez um pouco fortes para um bebê. Com sorte, ainda veria o amanhecer antes de se juntar a mãe. O Inutaishou o observou, encostado em outra rocha, um pouco distante. Ocorreu-lhe se estaria fazendo a mesma coisa se tivesse certeza do menino ser de seu sangue. Havia uma certa paz no reconhecimento de que isso não importava tanto. Era apenas mais um órfão. Esta condenação natural lhe absolvia de qualquer resquício do crime de seus pais. Curioso como, no fim, o destino havia se encarregado para que Arina-hime conseguisse o que tanto almejara em seus últimos dias de vida. A chuva foi cedendo devagar. Amanheceu. Nem um som. Quanto tempo mais ele resistiria antes de se tornar barulhento, ou de finalmente seguir seu destino? Aproximou-se. Ele estava na mesma posição, só que com umas das mãozinhas em punho espremida contra a boca, sendo sugada pacientemente na falta de algo melhor. Não havia sofreguidão ou agonia naquele gesto, e sim uma resignação, como se um youkai tão pequeno já fosse capaz de esperar pela morte certa com dignidade poucas vezes encontrada em adultos. Com a luz do sol, pôde observá-lo melhor, embora essa não fosse a intenção original. A cabeça ainda menor que seu punho era coberta de uma penugem clara, um pouquinho arrepiada. Havia listras rosadas em suas bochechas, duas, como a mãe. Não podia dizer que eram parecidos ainda. Filhotes tão pequenos não se parecem como nada, de fato. E quando deu por si, já estava olhando para ele há algum tempo. O pouco calor que o pequeno emanava e que notara tão bem na noite anterior subitamente lhe pareceu diminuir, como uma chama que atinge o ponto em que passa a se esvair rapidamente. Mesmo encolhido, o frio da madrugada começara a fazer seu efeito, um pouco tardio, é verdade, mas implacável como era de se esperar. A mãozinha parou de roçar contra a boca e ele até emitiu um som ou outro, mas ainda nada que pudesse classificá-lo como barulhento. Estava partindo para junto de sua mãe, finalmente. Antes da metade do dia estaria sepultando os dois. Estava tão quietinho agora. Ajoelhou-se ao lado da rocha. Pôs a mão perto dele, apenas para sentir se ainda estava vivo. Se surpreendeu ao notar que sua aproximação o incentivou a dar sinal de vida, ao invés de morte. Ele se mexeu, abriu dois olhinhos acinzentados em sua direção. O Inutaishou levou sua mão ao corpinho gelado, cobrindo-o com ela, mesmo sabendo que isso prolongaria a situação. “Você não parece que vai morrer por falta de mãe” disse baixinho como se apenas para que ele ouvisse. “Embora, eu não faça idéia do que é preciso para te manter vivo...” O youkai deu um sorriso. Ergueu o filhote e o segurou num dos braços. “Eu acho que consigo pensar em alguma coisa” concluiu, com os olhos fixos no menino que rapidamente parecia recuperar a temperatura. Levou a mão desocupada até o rostinho que agora voltava a parecer sereno, a despeito da mãozinha novamente vigorosa contra a boca. Não precisava ser uma mulher para saber que ele estava faminto. “Vou cuidar da sua mãe agora. Depois,
levo você para umas mulheres que eu conheço. Prometo que não
vai demorar muito, então, agüente só mais um pouco,
ne... Sesshou-maru.”
Sentiu que ele se aproximava novamente, cauteloso, como se tivesse medo de assustá-la ou coisa assim. Tinha algo nas mãos, uma tigela talvez. Queria olhar para ele, encorajá-lo e parecer mais gentil a um amigo tão dedicado, mas simplesmente não conseguia. Tinha ânsias de explodir em lágrimas novamente, sempre que lhe dirigiam a palavra. Preferia o silêncio então. Ele hesitou, mas como num surto de coragem se sentou ao seu lado. - Por favor, Rin. Coma um pouco - pediu Kohaku com voz triste. - Olha, eu não sabia que youkais cozinhavam. Foi seu amigo que fez. Ele disse que cogumelos é sua sopa favorita. - Desculpe... - foi tudo que conseguiu murmurar. - Eu não sei o que dizer para te alegrar. Antes você gostava de conversar. Agora não dá uma palavra. - Vai passar um dia... Sempre passa - ela olhou para ele, já com os olhos cheios d’água - Só que dessa vez está demorando tanto... Ele passou a mão no cabelo dela, quebrando um muro de timidez para tanto. Não agüentava mais ver Rin daquele jeito. Queria que sua irmã voltasse logo com Kagome, talvez isso a fizesse melhorar. Já estava a ponto de desejar que Sesshoumaru mudasse de idéia e voltasse. Não entendia muito bem a ligação dos dois e muitas vezes havia imaginado como seria bom se ela deixasse aquele youkai para viver na vila. Jamais imaginara que a separação seria tão dolorosa e implacável com alguém que até então lhe parecia imune à tristeza e ao medo. - Kohaku... - Não se preocupe. Minha irmã já deve estar voltando. Ela trará notícias do Sesshoumaru. Eu... queria que ficasse bem vivendo aqui. Eu... gosto... de você... sorrindo. Os olhos dele se congelaram. O que estava dizendo afinal? - Está ficando vermelho. Ele pôs as mãos no rosto, quase em choque. Mas logo seus olhos se desviaram para algo mais importante. - Está sorrindo. - Desculpe preocupar você. - Tudo bem. É normal ficar triste, eu acho. - Deve ser... - Você sente falta dele, ne? - Hai. - É estranho pensar... Ele é meio... mal-encarado. Na sua idade, eu teria medo de um youkai assim. - Eu me sinto bem quando ele está por perto. Sesshoumaru-sama não é mau como vocês pensam. Ele só não fala muito. Mas eu não ligo porque é o jeito dele. - Rin... Se ele não voltar, quero que saiba que vai ficar bem com a gente. Todos gostam de você, até o Inuyasha. Somos fortes também. Podemos te proteger. - Eu sei que vou ficar bem com vocês, Kohaku-kun. Fico feliz com isso. Mas... quem vai ficar com Sesshoumaru-sama? - Talvez ele goste de ficar sozinho. - Não gosta não. Pode já ter gostado, mas não gosta mais... Eu sei que não. Lágrimas voltaram a se formar nos cantos dos olhos dela, prestes a serem derramadas. O jovem exterminador de youkais as secou com os dedos antes que voltassem a manchar o rostinho ainda abatido de Rin. Engraçado que, até então, sempre atribuíra o apego da órfã por aquele youkai à sensação de segurança que, sem dúvida, ele devia lhe proporcionar. Agora via que ela se sentia tão responsável por ele quanto, possivelmente, ele se sentia por ela. Durante toda a vida, achara que sabia muito sobre youkais. Os ensinamentos de seu pai e irmã, e toda a experiência terrível dos anos que em fora prisioneiro de um seriam o bastante para que fosse considerado um sábio nessa matéria onde quer que fosse. No entanto, era como se aquela menininha tivesse conseguido enxergar coisas sobre eles que jamais podia ver, e que estavam além do que podia ser ensinado. Ouviu um som vindo do outro lado da casa. Reconhecia o som das patinhas de Kirara tilintando sobre o chão de madeira em qualquer lugar. Rin olhou para ele. - São eles - disse, mal tendo tempo de alcançá-la. A menina correu em direção a Kagome, como era de se esperar, mas não sem inspecionar a expressão de todos nesse ínterim. - Kagome-sama... - Venha, Rin... Vamos conversar um pouquinho.... A miko a levou para fora novamente. Independente do que tinha a dizer, esperava que ela conseguisse fazer com que Rin se alegrasse um pouco, já que era tão inapto para esse fim. Sango o abraçou, carinhosamente, como sempre. - Está tudo bem? - Hai... Higen-chan está dormindo. - Eu quis dizer com você. Sentiu o rosto começar a queimar novamente. O monge o olhou com um meio sorriso bastante significativo, que não serviu muito para amainar seu embaraço. Shippou correu na direção de onde vinha o aroma da sopa e logo se viu sozinho no cômodo, parado, tão sem jeito que por um momento não sabia o que fazer. Deu alguns passos até a porta, de onde podia ver Rin e Kagome, conversando, de longe. A menina ouvia atentamente ao que a miko dizia, com o semblante compenetrado. Desejou ser um inseto para se aproximar e ouvir o que diziam. Naquele momento, soube que ainda desejava que ela ficasse mais do que tudo, que aquele youkai jamais mudasse de idéia e Rin pudesse ficar para sempre. Assim como Sesshoumaru, também não
gostava mais de ficar sozinho.
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Capítulo 5 Fanfic por Ana-chan & Lalachan Copyright Rumiko Takahashi/Yomiuri TV/Sunrise/Shounen Sunday Glossário: -chan (sufixo): um diminutivo carinhoso, usado com quem é mais jovem que você, garotas ou amigos próximos. Hai: sim -hime: (sufixo) princesa Katana: espada -kun: (sufixo) diminutivo usado com homens jovens,(forma de tratamento mais íntimo) Miko: sacerdotisa -sama: sufixo após o nome que indica uma forma muito respeitosa de se dirigir à pessoa, geralmente com alguém de hierarquia superior, como por exemplo os senhores feudais, imperadores, príncipes, princesas, monges, sacerdotisas, etc. Youkai: criatura sobrenatural da mitologia japonesa, um tipo de espírito da natureza, que pode derivar de figuras de animais ou plantas. Voltar a Inuyasha Fanfics |