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Fanfic por Ana-chan
Yomi olhou meio de lado, um pouco cansado de esperar. Já fazia um tempo que Kurama havia desaparecido por trás da mata fechada. Ainda não estava entendendo direito o que estava acontecendo, mas se tratando dos planos de Kurama isso até era normal. Sempre havia sido assim, desde o dia que o conhecera. Levantou de impulso. Não iria ficar sentado ali a noite inteira. Entrou por dentro da mata para encontrar o youko de pé, coberto até o meio das coxas pela água de um pequeno lago. A escuridão o impediu de perceber de início que não se tratava apenas de um banho. Somente quando se aproximou, seu olhos se arregalaram, incrédulos. Tá certo que Kurama vinha com algo totalmente inusitado de vez em quanto, mas por aquilo ele não esperava. O youko tinha mudado a cor dos cabelos. Ao invés do prateado, agora as mexas estavam tingidas de um castanho-avermelhado, assim como a cauda. A pele estava coberta por uma espécie de tinta, que faria qualquer um que não o conhecesse achar que era moreno. O resultado não era feio, pelo contrário, mas ele estava quase irreconhecível. “Tá olhando o que?” veio o comentário naquele tom de descaso tão típico dele. Yomi olhou para o lado, evitando discretamente que seus olhar fosse parar sobre o corpo dele, ainda que o youko estivesse agora passando bem ao seu lado. “Por que isso agora, hein? Eu achei que a gente fosse fazer algo de útil essa noite.” “Tá vendo aquela roupa ali? Veste.” “Hein? Ficou maluco Kurama? Quem está pelado aqui é você. E por que você tá desse jeito?” “Troca de roupa logo, Yomi. A gente vai acabar chegando tarde assim,” disse, sem lhe dar muita importância, enquanto colocava um traje fechado, em tons esverdeados. Yomi cruzou os braços. Ao ser interpelado por um olhar de reprovação, respondeu com um sorriso marrento. Não iria mexer um músculo enquanto não soubesse a razão de tudo aquilo. O youko olhou pra cima, usando habilmente a expressão de tédio para contornar a vontade de acertar a cara de seu subordinado. No entanto, Yomi não teria serventia se estivesse com o rosto marcado. Era irônico que de todos os youkais razoavelmente inteligentes do bando logo ele fosse o único que servisse pro papel. “Tudo bem. Veste a roupa que eu te explico no caminho.” Por um instante, Yomi pareceu indeciso, mas acabou se movendo em direção a pedra onde estava empilhado um montinho de roupas. “É bom me explicar mesmo” resmungou, não se dando por achado. O youko deu um sorrizinho vitorioso, discreto o suficiente para que Yomi não percebesse. “Ei?! Que diabo de roupas são essas?” “Yomi, não discute e veste logo.” “Mas nem morto que eu vou vestir isso, tá
me ouvindo? Nem morto!”
O youkai extremamente magro, de cabelos esticados para trás, mas parecia um cabideiro sorridente. Ao seu lado, uma garota em trajes sumários cumprimentava com excesso de gracejos todo os que passavam ao seu lado. A cena poderia parecer cômica se não fosse os olhares ameaçadores da escolta mal-encarada que os vigiava a certa distância. Assim que o elegante youkai e seu acompanhante passaram pela porta larga, a garota alargou ainda mais o sorriso. “Hiro-sama! Não imagina como estou honrada em conhecê-lo.” “O prazer é todo meu.” “É só seguir em frente. Mestre Munju está ansioso em revê-lo” desmanchou-se ela, evitando olhar o acompanhante do youkai que seguia logo atrás. Uma pena que um avaliador de tesouros tão renomado no Makai pudesse ter um gosto para amantes tão lamentável. O visitante fez uma reverência com a cabeça e passou, levando seu namorado a tira-colo, o que já era esperado por todos. Hiro-sama era discreto e dissimulado, como convém a qualquer em sua profissão, mas sua preferência por jovens “bem constituídos” era tão notória quando sua habilidade em classificar peças preciosas. Desta vez, sua escolha recaíra sobre um youkai alto, de cabelos negros e olhos de um lilás bem claro. Não era de todo desinteressante, se levado em consideração que Hiro-sama o havia comprado nas minas do Norte. Seus trajes deixavam ainda mais evidente a sua condição. Nenhum youkai de bom senso desfilaria no submundo com roupas tão transparentes se não tivesse um bom e respeitado protetor. O modo como a túnica rosa claro aderia na silhueta musculosa era quase uma afronta. Dificilmente ele escaparia dali sem levar uns bons beliscões. No entanto, Hiro-sama não parecia tão disposto a beber e tagarelar desta vez. Embora sua expressão transparecesse a frivolidade da qual tanto se ouvira falar, ele parecia contido, até mesmo cauteloso com as palavras, evitando suas famosas gargalhadas. Mestre Munju bem que tentou agradá-lo, elogiou seus trajes e jóias, e até parecia inclinado a levar a bajulação mais adiante se tivesse tido a chance. “Nunca o vi tão lindo”, repetia ele sem parar. “Como os anos te fizeram bem.” Após o jantar, um banquete servido a moda do dono da casa, sobre um tablado de mármore onde escravos se revezavam enchendo as taças dos convidados, Mestre Munju mandou que trouxessem uma pequeno baú. De dentro dele, o youkai retirou cuidadosamente um cristal sextavado, dentro do qual brilhava uma jóia azul turquesa. Os convidados fizeram “ooohhhs” de espanto ante a beleza do objeto. Orgulhoso, o anfitrião entregou a jóia para Hiro-sama, que fez sua avaliação. “Hum, o que temos aqui...” disse ele interessado “Parabéns Munju-sama. É uma peça legítima. É muito rara. Seria impossível para mim avaliar...” ele deu uma rápida espiadela em seu acompanhante, cujos olhos pareciam prestes a pular das órbitas de tão fixos na jóia “Como avaliar uma peça única. Até mesmo o cristal que a envolve é precioso.” Ele a devolveu para Munju com todo o cuidado “Cuide muito bem dela, e não a venda por menos do que sua própria vida.” “Eu a daria a você por uma noite.” Hiro-sama sorriu. “É muito tentador... Mas eu não seria cruel a ponto a induzi-lo a fazer um negócio tão ruim.” Os convidados riram, certamente achando que tudo aquilo não passava de uma troca de gracejos entre velhos conhecidos. “Ah, sim... Não esqueça de tomar cuidado com os ladrões” concluiu Hiro-sama. “Sim, Mestre Munju! Cuidado com Youko Kurama!” advertiu um dos convidados, já um tanto embriagado. “Youko Kurama?? Há há há há!!” gargalhou o youkai, gesticulando para que os escravos voltassem a encher as taças “Minha fortaleza é a prova de roubo, ele mesmo deve saber disso. Tenho vigias, os melhores, treinados por comandantes de Raizen-sama. Tenho armadilhas, magia... O único jeito dele entrar aqui seria pela porta da frente, e mesmo assim, se eu o convidasse! Há há há há!” ele tomou um gole largo “Até mesmo vocês, meus prezados convidados, só poderão permanecer em meus domínios até amanhã, ao meio-dia. Isso é, a menos que eu decida prorrogar esse prazo...” ele dirigiu um olhar ao youkai ao seu lado, que se limitou a sorrir se fazendo de desentendido. A reunião seguiu madrugada a dentro,
etílica e animada. Apenas depois que o último convidado se
retirou que Hiro-sama conseguiu deixar a sala acompanhado por seu amante,
para desgosto de Mestre Munju. O youkai parecia realmente determinado a
conquistar seu convidado, pouco se importando se nada do que dizia causasse
o menor efeito. Acabou tendo que se contentar com um rápido beijo
de despedida e um beliscão bem dado no traseiro do moreno de roupa
transparente.
Kurama se apressou escadaria acima. Empurrou a porta do quarto, mal dando tempo a Yomi de entrar. Escorou a porta pelo lado de dentro com uma cadeira. “Olha em volta, vê se tem alguma porta falsa, alçapão... Anda, vai logo.” “Anda logo o diabo!! Olha só pra mim?!” esbravejou fazendo força pra não levantar o tom de voz “Aquele cretino me beliscou! Você me vestiu que nem uma puta, todo mundo me olhou! Será que você podia fazer a fineza de pelo menos me dizer o que eu ganhei com isso?!” Mas Kurama passou por ele com uma expressão meio atordoada, arrancando a roupa fora, sem prestar a mínima atenção na lista de reclamações do outro. Foi até o outro lado do cômodo luxuoso, certamente destinado aos hóspedes mais importantes, e entrou em uma espécie de banheira de mármore escuro. Yomi foi atrás, ainda falando sem parar. “O que você tá fazendo, hein?” “Tentando descobrir de onde sai a água. Será que dá pra ficar quieto e me deixar pensar?” Yomi sorriu. Aquele sorrizão largo de quem marca um ponto inesperado. “Então você deve estar procurando por isso...” Ele mostrou uma espécie de chave dourada. Por um instante, Kurama olhou pra ele sem palavras. “Você esqueceu que me fez passar por seu escravo? Então, aqueles idiotas da entrada me deram a chave do lavabo, em caso de eu ter que preparar o seu banho. Será que dá pra você prestar alguma atenção em mim agora?” “Yomi, eu não estou brincando. Me dá essa chave.” “Vem pegar” provocou. Ele sabia que num lugar como aquele, Kurama não poderia usar seu poder sobre os vegetais sem denunciar sua presença. Kurama fez que ia se sentar. Yomi mal teve tempo de parar de sorrir. Kurama o derrubou com chute nas pernas e tomou a chave. “Se a gente não estivesse onde estamos, eu juro que eu quebrava o seu pescoço.” Yomi sentou no chão, olhando de lado enquanto remoía o fato de ter perdido tão rápido para alguém desarmado. Não estava machucado, é claro. Os beliscões estavam doendo bem mais, assim como seu orgulho ferido. “Yomi...” veio a voz um tanto sussurrada. “Que é?” Ele levantou e começou a bater a poeira daquela roupa idiota, para disfarçar o quando ainda estava chateado. “Como liga isso?” “Eu não prestei atenção quando o sujeito explicou. Eu não sou seu escravo de verdade, se é que você se lembra di... O que é que você tem?” Kurama olhou pra cima, no limite do contrariado. “Essa tinta... Eu tenho que tirar ela agora.” “Por que?” “Porque eu tenho. Porque ela tá me deixando doido, é isso. Porque se eu não tirar ela logo, eu acho que vou sufocar.” Por um instante, Yomi ficou parado, como se fosse informação demais pra ele processar. Depois pulou dentro da banheira de mármore, tirou a chave da mão de Kurama, colocou a chave em uma fenda na placa de pedra ao lado, virou uma maçaneta mais ao lado e em instantes água começou a fluir rapidamente, inundando a banheira. Só então ele encarou o youko a sua frente. “Por favor, não me diga que isso é uma brincadeira...” “Desde quando eu brinco com você?” “Você é doido...” Kurama se encostou na parede da banheira e fechou os olhos por um instante, como se aguardasse que Yomi, cumprida a sua função, o deixasse ali. Abriu um olho, para se deparar com o youkai ainda ali, olhando pra ele. Mesmo sem ver direito, não pode deixar de notar que a água já havia feito efeito sobre o traje de Yomi, parecendo agora mais uma película grudada na pele molhada. “Você notou que eu troquei as jóias?” perguntou, com a voz mole. “Trocou?” Yomi piscou os olhos em surpresa “Claro que eu notei. Acha que eu sou burro?” mentiu passando a mão onde ainda havia tinta. Jamais admitiria, mas mal via a hora vê-lo voltar completamente à cor original. Kurama deu um meio sorriso. “Burro não... só distraído... Hum, isso é bom.” “Não acostuma. Não sou seu serviçal.” “Sabia que essa roupa ficou muito boa em você? Sério... Aposto que estavam todos morrendo de inveja de mim... quer dizer, de Hiro-sama.” “Esse foi o roubo mais estúpido de que eu já participei...” “Era o único jeito. Claro que se eu soubesse que bastava dormir com Munju pra conseguir a jóia, não teria te dado esse trabalho...” “Idiota...” Kurama riu. Mas antes que Yomi pudesse se dizer alguma coisa, o youko continuou. “Talvez... Já que eu prefiro dormir com você.” “Você não estava sufocando?” “Estava... Agora é a sua vez.” Yomi deixou-se empurrar até o outro lado. Mal suas costas tocaram a parede da banheira, e seu lábios foram tomados num beijo roubado e nem por isso indesejado. Mãos habilidosas puxaram a roupa, que molhada, resistia mais do que o normal. Não havia sido tão ruim assim, pensou Yomi antes de se entregar à carícias mais ousadas. Apenas um roubo diferente... uma roupa diferente, uma mentira nova em um repertório sempre tão variado. Agora que estavam ali, na banheira do inimigo, despindo-se da fantasia e da farsa bem debaixo de seu nariz, ele teve certeza de que, não importa se houvesse porta falsa ou alçapão, eles não seriam pegos. O que teriam a temer se eram apenas hóspedes? Enquanto os lábios faziam sua pequena exploração, Yomi continuou sua tarefa de expulsar a tinta que ainda restava. Poucas vezes teve a oportunidade de se deter tanto tempo sobre aquela pele tão macia. Sentiu as pernas dele o envolverem. Alisou as costas dele, descendo até o traseiro. Queria aproveitar cada centímetro daquele momento, cada curva, o calor que emanava dele era indescritível... A chance de decifrar o prazer que se escondia ali, onde agora seus dedos ganhavam livre acesso. Os lábios deslizavam por seu ombro, arrancando arrepios de prazer. Os sussurros se misturavam. E a medida que os raios de sol deslizavam sobre a superfície da água marcando o tempo que restava, era como se as mãos se tornassem ainda mais hábeis em tirar proveito da ausência de peso. Não demorou muito até que o
tempo se tornasse implacável. O tempo é sempre implacável
para ladrões. Mas até que naquela manhã ele havia
sido generoso, como seria apenas para dois simples amantes.
~ Fim ~
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Fanfic por Ana-chan, outubro/ 2002 Copyright Yoshihiro Togashi/Shueisha/Fuji TV/Pierrot Glossário: Makai: Mundo das Trevas, ou Mundo dos Demônios -sama: sufixo após o nome que indica uma forma muito respeitosa de se dirigir à pessoa, geralmente com alguém de hierarquia superior, como por exemplo os senhores feudais, imperadores, príncipes, princesas, monges, sacerdotisas, etc. Youkai: criatura sobrenatural da mitologia japonesa, um tipo de espírito da natureza, que pode derivar de figuras de animais ou plantas. Youko: figura lendária da mitologia japonesa usualmente descrito como um homem (ou mulher) com orelhas e cauda de raposa, que possui poderes sobrenaturais e de assumir outras formas de aparência. |
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