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Fanfic por Lalachan
Eu sempre gostei das manhãs de primavera. Mas, em especial, das manhãs de primavera enquanto estou pedalando em direção à escola, seguindo a rua com toda a liberdade que minha bicicleta pode me proporcionar. Deliciosa de verdade essa sensação do vento no rosto, quase um castigo contra a pele, o sol brando e matutino aquecendo-o em estranho contraste, o cheiro da manhã que em nenhuma outra parte do dia é igual. Imagino escutar o vento zunindo em meus ouvidos como se me desafiasse a pedalar ainda mais rápidamente. As pétalas de sakura vão caindo sem parar e vão sendo deixadas para trás, eu pedalo rápido demais para que elas possam sequer me tocar, vou desafiando o vento seguindo meu caminho por essa calçada sombreada. Olho para cima por um momento e posso vislumbrar esse fascinante espetáculo: É incrível ver pequenos pedaços de luz do sol tentando abrir seu caminho por entre os galhos floridos, as pétalas parecem cair do céu e não das árvores, uma visão que eu não me incomodaria em presenciar todas as manhãs do ano. Mas sei que não pedalarei sozinho por muito mais tempo. Meu olhar dirige-se como de costume para um ponto mais à frente, onde já me acostumei a encontrá-lo todas as manhãs. Embaixo da cerejeira mais frondosa em frente à casa de seus avós, ele me espera, já acenando sorridente. Yukito Tsukishiro. Essa é uma manhâ como todas as manhãs. Está tudo lá. As cerejeiras, a rua quase deserta, a suavidade dos raios do sol, brando a esta hora do dia, a calçada salpicada por pétalas de sakura... E você. Mas nem sempre foi assim. Enquanto vou encurtando a distância até ele, acho difícil acreditar que não tenha sempre sido assim, como se nunca houvesse sido de outra maneira. Como era antes de você? Posso tentar me lembrar, mas parece uma lembrança tão distante que é preciso recobrá-la, resgatar este momento quando as manhãs de primavera e as pétalas de cerejeira não possuíam o encanto que agora possuem. O encanto que você emprestou a elas. Eu brinco com minha memória enquanto vou encurtando a distância até onde você já me espera. Na primeira vez que nos encontramos debaixo dessas cerejeiras, você estava com sua bicicleta também. E pensar que por causa de uma bicicleta quebrada, as coisas nunca mais foram as mesmas. Eu sempre gostei das manhãs de primavera...
Mas nunca gostei delas tanto quanto agora.
"Bom dia Touya!" "Bom dia Yukito" respondo acenando com a cabeça, freando a bicicleta bem ao lado da sua. Ele sorri, como sempre parece sorrir de pura felicidade de estar vivo. Eu desvio o olhar, e com um "Vamos?" consigo por ora fugir de seu olhar sempre atencioso e gentil, sem saber direito o porque de querer fugir de algo assim. Toda manhã ele me espera aqui, em frente ao próprio portão, ao lado de sua bicicleta, e comecamos a pedalar e seguimos pela rua. Destino, escola. Faz pouco tempo que começamos a ficar amigos e até agora eu me pergunto porque ele se interessou em se aproximar de mim. Talvez porque, assim como eu, este também seja seu primeiro ano no colégio Seijyo. De qualquer forma, me sinto bem em ter um amigo como ele, que não liga muito para o meu jeito reservado. A seu modo, Yukito é tão reservado quanto eu, a diferença é sua extrema gentileza e bom humor com todos. Não há como não gostar dele, para dizer a verdade. Mas avaliando bem agora, enquanto nossas bicicletas andam emparelhadas rua acima, acho que também sou seu único amigo. Estranho pensar nisso... que uma pessoa como ele, tão simpático e gentil com todos, tenha escolhido justamente a mim para ficar mais próximo. Deixo escapar um olhar rápido para o lado. Ele olha para a frente, tranquilo, um meio sorriso na face e os cabelos castanho-acizentados levemente desalinhados pelo vento, embora não estejamos indo tão rápido. Eu não quero ir tão rápido, quero esticar esses momentos mais um pouco, por isso pedalo moderadamente. Ele simplesmente acompanha minha velocidade, e num relance olha para mim, sempre sorrindo. Eu desvio o olhar, sentindo as faces quentes, me sentindo um pouco idiota ao fazer isto, como se não me sentisse confortável com sua atenção inesperada. "Adoro essas manhãs de primavera, você não, Touya?" Ele de novo olha para a frente e para cima. Assim como eu ele se deixa encantar brevemente pelos raios de sol que cortam as cerejeiras acima de nós. "Também gosto delas." concordo, embora não esteja olhando para as árvores neste momento. "Sakura-chan não veio hoje?" "Ela já saiu mais cedo para fazer limpeza na classe. Aquela molenga..." Ele dá uma risada, achando graça da minha maneira de falar de minha irmã mais nova. "Você fala desse jeito mas aposto que a adora, não é?" Ele torna a rir, divertido com minha expressão de repente emburrada. Yukito nunca se deixa enganar pelos meus comentários a respeito da Sakura, quase como se ele pudesse enxergar aqui dentro de mim e ver que não passa de representação. Como não sei o que responder deixo escapar um resmungo qualquer, mas isso não parece afetá-lo. Ele volta a olhar para a frente, e quando eu o faço, descubro que o momento que eu tanto aprecio das manhãs já acabou, pois já chegamos ao colégio. Saltamos das bicicletas e vamos guardá-las
no pátio do colégio antes de seguirmos para a classe. Mais
um dia de aula, a mesma rotina de sempre, tudo igual. Então... porque
me descubro já quase ansiando pela manhã seguinte? Sacudo
a cabeça para mim mesmo, enquanto ouvimos o sinal tocar, me distraindo
momentaneamente desses pensamentos um tanto quanto perturbadores...
"O que houve?" A pergunta me escapa imediatamente assim que chego na sala de aula e o encontro já sentado em seu lugar, onde sempre costumamos ficar, lado a lado. Ele me olha com expressão culpada, e abaixa o olhar para o próprio pé. Eu sigo seu olhar para descobrir seu pé enfaixado. Agora entendo o porque de não haver ninguém me esperando à sombra da cerejeira mais frondosa hoje. "Peguei o ônibus hoje, Touya, por isso cheguei antes. Desculpe não tê-lo avisado... espero que não tenha ficado esperando lá no meu portão." "Não esquenta com isso." Yukito nunca se atrasa, por isso quando vi que não estava lá nem parei a bicicleta, passei direto. "Mas como isso aconteceu?" "Ah, foi uma besteira. Ontem quando voltava do colégio levei um tombo da bicicleta, e torci o pé de puro azar." Eu sento na carteira ao lado dele, enquanto os outros alunos vão chegando e se sentando em seus lugares. Logo a primeira aula irá começar. Olho melhor para o pé dele, felizmente não parece tão grave. Ontem ele não voltou junto comigo, pois eu fiquei até tarde na escola treinando futebol. Yukito não faz parte do clube de futebol por isso foi para casa sozinho antes de mim. "Vê se toma mais cuidado, você é muito desastrado. A primeira vez que não volta junto comigo e já vai logo levando um tombo idiota desses. Sei não..." "Gomenasai, Touya..." Ele está com uma expressão encabulada, mas mesmo assim seus lábios se abrem em um sorriso de desculpas. "Foi mesmo uma distração boba." "Tá pedindo desculpas porque? Vê se toma mais cuidado, só isso." Eu encerro o assunto, soando meio brusco, mas sei que ele não se importa realmente com meu jeito rude. Na verdade fiquei intrigado quando não o vi parado no portão como todo dia. Era como se algo estivesse faltando nessa manhã, como um quadro em que esqueceram de pintar a paisagem toda... Sei lá. Não quero pensar nisso agora, mas é um alívio que pelo menos esteja tudo bem com ele. Quando começo a me concentrar no que o professor está dizendo, ouço um sussurro vindo do meu lado. Olho para ele, encontrando seu sorriso de sempre desta vez meio encabulado. "Touya, você sabe consertar bicicletas?"
Agora meu ritual matutino se alterou um pouco. Yukito não me espera toda manhã ao lado da sua bicicleta, pois ela se encontra no meu quintal, sendo consertada aos poucos. Toda vez que a pego para consertar, me pergunto que tombo foi esse que ele conseguiu levar para danificar a bicicleta daquele jeito. Seu pé já ficou bom completamente, mas desde então ele vai para a escola na minha garupa, todo dia. A única pessoa que já levei nessa garupa foi mesmo a Sakura, mas a monstrinha é bem leve e nunca me atrapalhou de pedalar rápido. Com Yukito também não há muita diferença, afinal ele é tão magro... Mesmo assim não resisto a provocá-lo com a história do tombo. "Vê se não vai cair daí também, hein? Se isso acontecer eu nem vou notar que caiu e continuo em frente!" eu falo por cima do ombro, e dou a pedalada inicial. Ao invés de se irritar com o mesmo comentário todas as manhãs, ele dá uma risada. "Pode deixar, Touya! Não vou cair!" Vamos em frente, na mesma velocidade habitual. Desta vez não posso olhar para ele ao meu lado, mas sei que está atrás de mim, tão absorto nas cores da manhã quanto eu estou na calçada à minha frente. Mais uma vez aquela sensação absurda de que este momento deveria durar um pouco mais. Não sei exatamente para que, afinal toda manhã ele se repete mesmo. "Como vai indo o conserto? Fiz um estrago bem ruim, não é?" Ele fala às minhas costas, de repente. "Até que não. Mas acho que semana que vem ela está pronta." Eu respondo, sem olhar para trás. Estranho como me sinto um pouco relutante em devolver a bicicleta a ele. Que coisa mais sem sentido... ele precisa dela e não pode ficar vindo na minha garupa eternamente. Será que não pode mesmo? A perguntinha impertinente em minha mente
fica sem resposta, pois chegamos mais uma vez ao colégio. E mais
uma vez, qualquer que seja a resposta, terá que ficar para o dia
seguinte...
Não consigo compreender a mim mesmo. Não consigo compreender o porque do meu coração estar batendo mais rápido, nem o suor em minhas mãos, nem este calor na boca do estômago. Talvez esteja ficando doente... só pode ser isso. Neste caso, a hora para desistir é agora, enquanto ainda não cheguei à casa dele. Mas, se eu estivesse me sentindo mal, não haveria razão para meus pés decidirem ignorar isso e simplesmente pedalarem à toda. Balanço a cabeça concluindo que deve ser só o calor do verão afetando meu cérebro. Em frente ao portão ele já me espera, e acena animado, com a mão livre. A outra segura uma imensa cesta de piquenique. Eu paro do lado dele, já me sentindo um pouco melhor. Deve ser a afobação de ter saído de casa com tanta pressa. "Desculpe a demora, Yukito. Esperou muito?" "Não, acabei de chegar aqui." Um sorriso tranquilizador que não consegue me convencer. Ele é sempre pontual, sei perfeitamente que deve estar aqui há pelo menos dez minutos. Eu solto um suspiro contrariado. "Então, pronto para irmos?" "Bom, tenho uma má notícia, Yukito... como já viu, você terá que ir na garupa de novo, pois a bicicleta ainda não ficou pronta. Foi mal..." "Tudo bem, Touya, não se preocupe. Eu até já me acostumei a andar de carona com você." Ele pisca o olho brincalhão, e eu evito encará-lo para que não perceba que estou mentindo. A bicicleta já ficou pronta há semanas, essa é a verdade. Só que eu ainda não a devolvi. Por que diabos faço isso? Boa pergunta. E agora, é um dia espetacular de verão, e nós vamos ao parque da cidade, e poderíamos estar indo cada um em sua respectiva bicicleta não fosse o meu comportamento irracional e incompreensível para qualquer um, principalmente para mim. O que ele pensaria se soubesse? Yukito coloca a enorme cesta de piquenique na cesta da bicicleta, e eu decido não deixar isso estragar o que promete ser um dia bem agradável. "Sakura não pôde vir?" Eu engulo em seco ante a pergunta. "Não... hoje é dia de limpeza para ela." Bom pelo menos nesse ponto não tive que mentir. Se bem que eu nunca a convidei para esse passeio para começar... "Ah, sim... bom, fica para a próxima. Ainda haverão outros domingos lindos como esse nesse verão, eu aposto." "É... eu espero que sim." Eu consigo
murmurar, e logo ele some da minha vista ao subir na garupa atrás
de mim. Dou a primeira pedalada, depois a segunda... Meus pés vão
se movendo cada vez mais rápido, nos impulsionam para a frente em
direção ao parque, onde um dia espetacular de verão
parece estar esperando por nós com suas cores vibrantes e quentes.
O vento fresco em minha face serve para me distrair da sensação
esquisita de que estou fugindo de mim mesmo.
Fecho os olhos por um momento mas tenho que abri-los de novo. Quero captar mais uns segundos desse céu tão azul acima de nós. Com os braços cruzados atrás da nuca e totalmente esticado na toalha enorme que Yukito trouxe em sua cesta de piquenique, nunca me senti tão relaxado antes. O sol já está mais brando, na verdade, já é de tardinha agora. Viro a cabeça preguiçosamente para o lado, esperando encontrar uma face sorridente e olhos castanhos sempre brilhantes de alegria, ou talvez de prazer, simples prazer de deitar no meio da grama e deixar o calor da tarde fazer o resto. Apenas ficar aqui, sem falar ou fazer nada, e olhar as nuvens seguindo seu caminho lento no céu... Mas encontro esses olhos fechados. Sereno, ele dorme, totalmente entregue ao torpor do calor da estação e ao almoço reforçado que ele mesmo preparou para nós mais cedo. Eu suspiro longamente, mas continuo olhando-o mais um pouco, sem conseguir me controlar. Se ele acordar agora vai dar de cara comigo, aqui, hipnotizado por um estranho fascínio que não me deixa desviar os olhos. Então ele desperta como se meu olhar fixo o tivesse chamado do mundo dos sonhos, pisca algumas vezes e dá uma leve espreguiçada, um sorriso satisfeito se espalhando na face corada pelo sol da tarde, enquanto suas mãos buscam meio às cegas os óculos deixados ao seu lado. Ele os pôe e me olha, agora focalizando realmente a visão em mim. Minha respiração está presa na garganta. Tento engolir mas não consigo, minha boca está seca demais. Sede... isso mesmo, preciso de algo para beber. Levanto-me de repente, tentando agir normalmente mesmo sabendo que isso é quase impossivel neste momento. Yukito percebe minha agitação e senta-se na toalha, a expressão um pouco preocupada. Eu devo estar com uma cara ótima mesmo... "Algo errado, Touya? Você está pálido..." Ele faz menção de se levantar também mas eu o corto antes que o faça. "Nada não, estou só com muita sede. Vou catar algo para beber. Você quer?" Enquanto falo já vou me afastando, e me dói um pouco seu olhar quase assustado me acompanhando, atormentado pela dúvida de vir também ou respeitar meu desejo de ficar só nesse momento. Ele se decide pela segunda opção, e não levanta, mas me segue com o olhar ainda preocupado. "Não, obrigado... mas você está bem mesmo?" Ele ainda insiste. Eu continuo andando e dou uma olhada por cima do ombro, já mais um pouco senhor de mim mesmo. "Só com sede mesmo. Eu já volto!" Não olho mais para trás. Queria só sumir, desaparecer, porque não entendo o que acontece comigo. Ou não quero entender. Porque me afastei dele? Por que se continuar olhando para ele daquele jeito por mais tempo, eu... Eu ando mais rápido, à procura de algum lugar que venda refrigerantes, soda, qualquer coisa que justifique a minha saída tão desastrada. Não encontro nada. Só agora percebo que o parque está quase deserto. Nesse lugar onde viemos comer nosso lanche, perto do rio, não há mais ninguém por perto. O sol daqui a pouco vai se pôr. Para onde foram todas aquelas horas que passei ao lado dele? Eu estanco no lugar, assaltado por uma revelação tão poderosa que quase fico sem ar. Então, é isso? Como foi que só me dei conta disso agora? Por uns segundos fico parado no mesmo lugar, absorvendo essa nova situação, esse novo sentimento dentro de mim. Finalmente não preciso mais buscar desculpas ou respostas para perguntas que já foram respondidas há muito tempo. Então, me viro e começo a voltar. Não estou mais com sede. Não tenho mais dúvidas. Não preciso mais fugir do seu olhar,
Yukito.
Encontro-o cochilando novamente, ainda com os óculos em seu rosto. Os últimos raios de sol da tarde tocam suavemente os contornos de sua face adormecida, como numa breve despedida depois de tê-lo aquecido durante todo esse dia de verão. Sento-me cuidadosamente na toalha, e mais cuidadosamente ainda, retiro os seus óculos e deixo-os dobrados ao seu lado. Ele mexe-se um pouco, mas não acorda. Os lábios úmidos estão entreabertos deixando entrever a ponta de seus dentes alvos, sua respiração é lenta e relaxada. Minha mão se move sozinha para debaixo de sua nuca, e com a outra, toco levemente uma pálpebra, os cílios fininhos, depois percorro seu rosto com a ponta dos dedos, sentindo sua maciez, o calor que pegou emprestado do sol... Quando ele abre finalmente os olhos, meus lábios estão a um centímetro dos seus, e antes que eu possa compreender a natureza de seu olhar, eu o beijo, a principio suavemente, tocando-lhe a língua quase com medo, e ao mesmo tempo, doce excitação de realmente estar fazendo isso... Sem pensar em qualquer consequência. Acaricio seus cabelos enquanto o beijo... são tão macios, mais do que jamais imaginei. Seu cheiro suave... me invade de forma incontrolável, me despertando sensações que por enquanto ainda não tem nome, e talvez nunca tenham. Nossas bocas parecem se fundir irremediavelmente enquanto puxo seu corpo para junto do meu em um abraço mais possessivo. Este é um beijo roubado, eu sei. Roubado do mundo dos sonhos onde ele se encontrava há poucos segundos. Quando ele realmente acordar... o que desejará? Voltar para o mundo dos sonhos ou enfrentar este mundo real aqui fora, onde acaba de descobrir os verdadeiros sentimentos do seu melhor amigo? Aos poucos nossos lábios vão se separando com uma lentidão torturante. Eu abro os olhos primeiro, e vejo que ele continua de olhos fechados. Eu quero mesmo enfrentar seu olhar? Estou mesmo preparado para a mais remota probabilidade de rejeição? Claro que não. Mas não tenho outra escolha a não ser assumir as conseqüências do meu ato impensado. Ele olha para mim sem palavras, mas elas não são necessárias, pois seu olhar me diz tudo. Confusão, dúvidas, insegurança, medo... tudo isso girando sem parar em um par de esferas cor de mel agora inundadas com lágrimas. Eu não posso sustentar esse olhar por muito mais tempo. Levanto-me tentando controlar o nervosismo, a secura na garganta que ameaça me sufocar, a percepção de que acabei de estragar algo muito precioso, irrecuperável... Não consigo voltar a encará-lo. É noite, já. Não há uma só pessoa num raio de quilômetros. É como se estivessemos só nós dois em todo o universo neste momento, tendo que suportar o peso do que acabei de fazer, e o peso da incerteza de nosso futuro. Sem falarmos nada recolhemos o que restou do almoço, e mesmo agora parece que isto aconteceu há anos-luz de distância, ou pior, que não aconteceu. Era só um sonho, e isto aqui é a amarga realidade. Ou um pesadelo onde o mundo virou de ponta a cabeça e nada poderá ser mais como antes, por mais que tentemos. Eu arrumo a cesta de volta na bicicleta, e subo nela, me preparando para sair desse lugar. Durante alguns momentos que parecem durar para sempre, tenho mesmo dúvidas se ele irá subir de novo nessa garupa, mas finalmente minha espera chega ao fim quando sinto seu peso às minhas costas. Pela primeira vez sinto-me agradecido de não poder ver seu rosto agora, e começando a pedalar eu começo a sair do parque, pronto a enfrentar o que quer que a noite tenha reservado para mim daqui por diante. Pedalar, pedalar... é tudo que posso fazer, e às vezes tenho a sensação de que você não está aqui atrás de mim. Mas sei que é só impressão. Vou muito rápido, fugindo de algo que sei que sempre estará dentro de mim para me atormentar: A culpa. A culpa e a terrível lembrança dos seus olhos naquele momento... De repente, meus olhos se desviam do caminho pela primeira vez essa noite, e se dirigem para baixo, para minha própria cintura. O que é isto? Não pode... ser? Meus olhos se arregalam, em seguida os aperto com força. Meu peito arde, quer explodir em mil pedaços e se juntar novamente, ao mesmo tempo em que sinto duas mãos envolvendo timidamente minha cintura, avançando quase com temor de que sejam rispidamente retiradas, como se cometessem algum sacrilégio por estarem ali. Mas estão. E aos poucos como que ganhando coragem, aquele par de mãos se firma a minha volta, me envolve, elas se unem e se entrelaçam em meu estômago, e minha respiração pára. Estou de olhos fechados ainda e continuo pedalando, pedalando como se para vencer uma corrida contra o vento frio da noite, que me repele, castiga meu rosto, açoitando-o com força. E com igual força como uma resposta ao aumento da velocidade, as mãos me apertam, diminuem a distância entre seu corpo e o meu. Sinto-o, sinto o leve toque de sua pele mesmo através das roupas esvoaçantes que o vento ameaça rasgar, e então, sei que não haverá mais nenhum obstáculo. Como poderia haver? Somos um só contra o vento agora. Nada poderia ser mais certo do que esta declaração sem palavras. Não enxergo mais nada. Talvez seja pela força do vento, talvez seja pelas lágrimas que insistem em encher meus olhos. Somente a estrada a minha frente poderá decidir que caminho devo tomar, e ao que tudo indica, ela já escolheu. Eu não tenho nenhum poder para mudar isso. Nem é isso que desejo. As mãos tímidas porém estranhamente firmes agora não irão mais se separar. Nem nossos corpos. E nessa noite agora iluminada pela lua cheia, a estrada diante de nós é infinita. Eu só quero que você sempre esteja aqui, e sendo assim, ao mesmo tempo não quero mais nada além do vento e o contato de seu corpo junto ao meu. E que isto não seja um sonho.
“Bom dia, Touya.” A voz suave me traz de volta daquele sonho, apenas para constatar que não era um sonho afinal. Seus olhos tão ternos, o cabelo castanho-acinzentado cujos fios caem sobre os óculos redondos, a face alva, delicada e seu sorriso doce, tão doce... tudo isso está ali para me provar que é verdade. “Bom dia, Yuki.” Enquanto nos encaramos, sentimos o tempo parar por alguns eternos segundos. “Quer uma carona?” A pergunta que na verdade nunca chegou a ser formulada, tampouco necessária. Um sorriso como resposta. Num instante ele sobe na garupa da bicicleta, e mais uma vez as mãos suaves envolvem minha cintura. Não há mais ninguém para testemunhar esse gesto simples mas tão significativo para mim, a não ser as pétalas de sakura que caem à nossa volta e o vento que as faz dançar à sua mercê. Fecho os olhos antes de recomeçar a pedalar, porque preciso de apenas um instante para poder respirar, já que meu peito assim como a primeira vez, de novo arde, de novo quer explodir, tanto, tanto... Eu o amo tanto que... é impossível respirar. Então... Então? Eu não preciso respirar, só preciso pedalar. E dos seus braços à minha volta, do vento e do caminho à nossa frente. Acima de nós, uma manhã maravilhosa de primavera onde cerejeiras parecem dançar ao sabor do vento, contagiadas pela mesma força vital que me impulsiona a ir em frente. Segure-se em mim com força. Sempre. Quase como se pudesse ouvir meu pensamento, ele obedece. Assim, sei que poderemos pedalar contra o
vento até a eternidade se quisermos.
~ Fim ~
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Fanfic por Lalachan. Esta estória foi publicada no fanzine "Oh Boy" em julho de 2002. Copyright ©1998 CLAMP / Kodansha / NEP21 Glossário: -chan- (sufixo) um diminutivo carinhoso, usado com quem é mais jovem que você, garotas ou amigos próximos. gomenasai: desculpe sakura: árvore cerejeira Voltar ao Mundo da Lua |